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Entenda a festa de Purim no relato bíblico de Ester

O que é a festa de Purim na Bíblia: conheça sua origem no livro de Ester, os costumes descritos no texto e as interpretações da celebração.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
O que é a festa de Purim na Bíblia? Origem e significado
Pergaminho antigo e dados de sorte evocam o contexto do livro de Ester e da festa de Purim.
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O que é a festa de Purim na Bíblia? É a celebração instituída no livro de Ester para recordar a reversão de um decreto que previa o extermínio dos judeus no Império Persa. O texto apresenta a festa como memória anual de livramento, marcada por alegria, banquetes, presentes e ajuda aos pobres.

Purim: a festa criada no livro de Ester

Purim é uma das celebrações judaicas cuja origem é narrada diretamente em um livro bíblico. Sua história aparece sobretudo em Ester 3 a 9, em um enredo situado na corte persa, durante o reinado de Assuero, nome pelo qual o texto hebraico se refere ao rei. Muitas pesquisas históricas identificam esse soberano com Xerxes I, que reinou de 486 a 465 a.C.; essa identificação é comum, mas o próprio livro não fornece uma equivalência moderna do nome.

A palavra Purim é o plural de pur. Conforme Ester 3, 7, pur é explicado como “sorte”: Hamã mandou lançar sortes para escolher o mês e o dia adequados ao seu plano contra os judeus. A escolha teria recaído sobre o dia 13 do décimo segundo mês, chamado adar. O nome da festa, portanto, preserva uma ironia central da narrativa: a “sorte” lançada para destruir os judeus tornou-se o marco de sua preservação.

O livro informa que Hamã, alto oficial do reino, se irritou porque Mordecai, um judeu residente em Susã, não se curvava diante dele. A reação de Hamã ultrapassou o conflito pessoal: ele procurou eliminar todos os judeus presentes nas províncias persas. Ester 3 registra que o rei autorizou um decreto para esse fim, a ser executado em uma data determinada.

“Por isso aqueles dias são chamados Purim, do nome Pur. Portanto, por causa de todas as palavras daquela carta, e do que viram sobre isso, e do que lhes havia sucedido...” (Ester 9, 26).

É importante distinguir o que é dito explicitamente do que é deduzido. O texto bíblico afirma que a festa foi estabelecida para recordar os acontecimentos narrados. Ele não apresenta Purim como uma festa ordenada na Torá, como a Páscoa ou a Festa dos Tabernáculos, nem traz uma prescrição cultual dada por Moisés.

O enredo que levou à instituição da celebração

O caminho até Purim envolve personagens e decisões que o livro organiza de modo dramático. Ester, prima ou parente mais jovem de Mordecai e criada por ele, torna-se rainha depois que Vasti deixa de ocupar essa posição, conforme Ester 2. Sua origem judaica é mantida em segredo inicialmente, por orientação de Mordecai.

Quando Hamã obtém autorização para publicar o decreto contra os judeus, Mordecai pede que Ester interceda junto ao rei. A dificuldade é que entrar na presença real sem convocação poderia resultar em morte, salvo se o rei estendesse o cetro de ouro. Ester 4 descreve o apelo de Mordecai e a decisão da rainha de comparecer diante do soberano após um período de jejum entre os judeus de Susã.

O texto não registra uma oração de Ester, de Mordecai ou de outro personagem. Também não menciona Deus pelo nome em todo o livro de Ester, algo frequentemente observado por leitores e estudiosos. Ainda assim, Ester 4, 14 contém a afirmação de Mordecai de que “socorro e livramento” surgiriam para os judeus de outro lugar. Muitos intérpretes veem nessa frase uma referência implícita à providência divina; outros destacam que o texto, em sua forma hebraica, deixa o agente desse livramento sem identificação explícita.

Ester convida o rei e Hamã para dois banquetes. Entre um convite e outro, há uma reviravolta: o rei não consegue dormir e manda ler as crônicas reais, descobrindo que Mordecai havia denunciado uma conspiração sem receber recompensa, conforme Ester 6. Hamã, que planejara honrar a si próprio e executar Mordecai, acaba sendo obrigado a conduzir Mordecai em homenagem pública.

No segundo banquete, Ester revela ser judia e denuncia Hamã como responsável pelo plano de destruição. Hamã é executado na forca que havia preparado para Mordecai, segundo Ester 7. Porém, como os decretos reais não podiam simplesmente ser anulados, Ester 8 relata a emissão de uma nova ordem: os judeus poderiam reunir-se e defender-se no dia fixado pelo primeiro decreto.

Datas, lugares e números mencionados em Ester

Os capítulos finais fornecem os dados básicos para a memória anual de Purim. Nos dias 13 e 14 de adar, os judeus das províncias lutaram contra seus inimigos e descansaram no dia 14. Em Susã, a luta se estendeu também ao dia 14, e o descanso ocorreu no dia 15. Por isso, Ester 9 diferencia a data de celebração nas cidades sem muralhas e em Susã.

ElementoO que Ester registraReferência
Lançamento da sorteHamã lança o pur no primeiro mês; a data recai no décimo segundo mês, adar.Ester 3, 7
Data prevista para o ataqueDia 13 do mês de adar.Ester 3, 13
Combate nas provínciasOs judeus se defendem no dia 13 e descansam no dia 14.Ester 9, 16-17
Combate em SusãA luta ocorre nos dias 13 e 14; o descanso é no dia 15.Ester 9, 18
Instituição da festaMordecai determina os dias 14 e 15 de adar como ocasião anual de memória.Ester 9, 20-22
Mortos entre os adversários75 mil nas províncias e 500 em Susã, além dos dez filhos de Hamã.Ester 9, 6-16

Os números de Ester 9 pertencem à própria narrativa bíblica e devem ser tratados como tal. A confirmação independente desses totais por fontes persas externas não existe. Da mesma forma, a localização exata e a cronologia de todos os episódios são debatidas na pesquisa moderna, embora Susã seja uma cidade persa historicamente conhecida.

O texto acrescenta uma observação relevante: embora os judeus tenham atacado aqueles que os atacavam, “não estenderam a mão ao despojo” (Ester 9, 10; 9, 15-16). Essa repetição destaca que a ação descrita não tinha como objetivo a apropriação de bens. Alguns leitores relacionam esse detalhe à narrativa de Saul e Agague em 1 Samuel 15, pois Hamã é chamado de agagita em Ester 3, 1. Essa ligação é uma interpretação literária bastante difundida, mas Ester não explica diretamente que Hamã descendia de Agague nem declara essa relação como fato histórico.

Como a festa é estabelecida no texto bíblico

Ester 9, 20-23 relata que Mordecai enviou cartas aos judeus de todas as províncias do rei para que comemorassem anualmente os dias 14 e 15 de adar. A razão apresentada é a mudança de uma situação de ameaça para descanso, de tristeza para alegria e de luto para dia festivo.

As práticas enumeradas no texto são objetivas. Os dias deveriam ser celebrados como ocasiões de banquete e alegria, com envio de porções uns aos outros e presentes aos pobres. Em Ester 9, 27, os judeus assumem o compromisso de guardar a celebração em todas as gerações, famílias, províncias e cidades.

  • Banquete e alegria: Ester 9, 17 e 9, 22 associa o descanso ao banquete e à festividade.
  • Envio de porções: as pessoas deveriam enviar alimentos ou porções umas às outras, conforme Ester 9, 22.
  • Presentes aos pobres: o mesmo versículo menciona doações aos necessitados.
  • Memória anual: a celebração deveria ocorrer nos dias definidos, a cada ano, segundo Ester 9, 21 e 9, 27-28.

O capítulo também menciona uma carta posterior de Ester e Mordecai confirmando “as determinações relativas aos jejuns e ao seu clamor” (Ester 9, 31). O versículo é breve e sua relação exata com práticas posteriores é discutida. Ele não fornece uma descrição detalhada de um ritual de jejum ligado a Purim, nem apresenta a forma completa das observâncias praticadas no judaísmo posterior.

O que a Bíblia registra e o que veio da tradição posterior

O relato bíblico de Ester fornece o fundamento da festa, suas datas gerais e suas práticas centrais. Entretanto, diversos costumes hoje associados a Purim não são descritos de modo completo no livro. Eles pertencem ao desenvolvimento posterior da tradição judaica, especialmente à literatura rabínica e às práticas comunitárias.

Elementos presentes no livro de Ester

O texto bíblico registra a ameaça de Hamã, a defesa dos judeus, o descanso, os banquetes, o envio de porções, os presentes aos pobres e a decisão de guardar os dias 14 e 15 de adar. Também menciona a confirmação da celebração por cartas de Mordecai e Ester, em Ester 9 e 10.

Elementos da prática judaica posterior

Em muitas comunidades judaicas, Purim inclui a leitura pública da Meguilá, isto é, o rolo de Ester; o costume de fazer barulho quando o nome de Hamã é pronunciado; o uso de fantasias; representações dramáticas; e formas detalhadas de distribuição de alimentos e caridade. Esses costumes não aparecem como instruções no texto de Ester. Eles devem ser reconhecidos como tradições posteriores, ainda que se baseiem na narrativa e em suas ênfases.

Outro desenvolvimento posterior é a observância diferenciada de Purim em cidades tradicionalmente consideradas muradas desde os dias de Josué. Essa distinção não é formulada dessa maneira no livro de Ester. O texto apenas contrasta os judeus das cidades rurais ou sem muralhas, que celebravam no dia 14, com os de Susã, que celebravam no dia 15 (Ester 9, 18-19).

Principais leituras sobre o significado de Purim

Há amplo acordo de que Purim, no enredo de Ester, celebra a sobrevivência dos judeus diante de uma ameaça de extermínio. As divergências aparecem ao explicar como o livro constrói seu sentido religioso, histórico e literário.

Leitura providencial

Uma interpretação tradicional entende Ester como relato da providência de Deus, mesmo sem mencionar seu nome. Nessa leitura, a escolha de Ester como rainha, a insônia do rei, a honra dada a Mordecai e a queda de Hamã formam uma sequência de acontecimentos que revela direção divina implícita. Ester 4, 14 é frequentemente o principal ponto usado para essa interpretação.

Leitura literária e política

Outra leitura enfatiza a habilidade de Ester e Mordecai, as regras da corte persa, os decretos reais e as reviravoltas narrativas. Ela observa que o livro não atribui explicitamente os fatos a uma intervenção divina. Isso não exige negar uma leitura religiosa, mas chama atenção para aquilo que o texto efetivamente diz e deixa de dizer.

Debate sobre historicidade

A historicidade detalhada de Ester é debatida entre estudiosos. Alguns consideram o livro substancialmente ligado a acontecimentos na Pérsia; outros o classificam principalmente como novela histórica ou narrativa festiva, construída para explicar e celebrar Purim. Não há consenso acadêmico sobre todos os personagens, números e eventos. A existência de uma comunidade judaica no mundo persa é historicamente plausível, mas isso, por si só, não comprova cada detalhe de Ester 1 a 10.

Essas leituras divergem sobre o gênero e sobre a maneira de avaliar os dados históricos, mas concordam que Purim ocupa no livro a função de preservar a memória coletiva de uma crise transformada em celebração.

Purim no conjunto das festas bíblicas

Purim se distingue de festas como a Páscoa, os Pães sem Fermento, Pentecostes e Tabernáculos, que aparecem na legislação do Pentateuco, especialmente em Levítico 23 e Deuteronômio 16. Essas festas são apresentadas em conexão com mandamentos dados a Israel. Purim, por sua vez, surge mais tarde, no contexto da diáspora judaica sob governo persa, e é instituído por decisão comunitária registrada no livro de Ester.

Essa diferença não torna Purim irrelevante dentro da Bíblia; apenas define sua origem literária e histórica. A festa não deriva de uma ordem mosaica apresentada em Êxodo, Levítico, Números ou Deuteronômio. Sua base é a correspondência de Mordecai, a confirmação de Ester e a adesão dos judeus descritas em Ester 9.

Também é necessário evitar confundir Purim com Hanukkah. Hanukkah recorda a rededicação do templo em Jerusalém no período macabeu e não é narrada no cânon hebraico tradicional; Purim recorda os acontecimentos do livro de Ester, ambientados no período persa. São celebrações diferentes, com origens e contextos distintos.

Perguntas frequentes

Onde a festa de Purim aparece na Bíblia?

A instituição da festa aparece principalmente em Ester 9, 20-32. Para compreender a origem dos dias celebrados, é preciso ler o enredo desde Ester 3, onde Hamã lança a sorte e obtém o decreto contra os judeus.

Por que a festa recebeu o nome de Purim?

O nome vem de pur, termo explicado em Ester 3, 7 como “sorte”. Hamã lançou sortes para determinar a data da destruição dos judeus. “Purim” é a forma plural e foi adotada para nomear os dias de celebração, conforme Ester 9, 26.

Purim é uma festa ordenada por Moisés?

Não. A Bíblia não apresenta Purim como mandamento dado por Moisés na Torá. Ela foi estabelecida no contexto narrado em Ester 9, por meio de cartas de Mordecai e da confirmação atribuída a Ester e Mordecai.

Jesus participou da festa de Purim?

Os Evangelhos não afirmam que Jesus tenha participado de Purim. João 5, 1 menciona uma festa dos judeus, mas não a identifica pelo nome; por isso, não é possível declarar com certeza, a partir desse versículo, que se tratava de Purim.

Resumo

  • Purim é a festa narrada em Ester para recordar o livramento dos judeus de um decreto promovido por Hamã.
  • Seu nome deriva de pur, a sorte lançada para escolher a data do ataque, conforme Ester 3, 7.
  • Ester 9 fixa a celebração nos dias 14 e 15 de adar, com diferenças entre Susã e as demais localidades.
  • O texto bíblico menciona banquetes, alegria, envio de porções e presentes aos pobres.
  • Leitura pública de Ester, fantasias e outros costumes são desenvolvimentos posteriores da tradição judaica, não instruções detalhadas do livro bíblico.
  • A historicidade pormenorizada de Ester é debatida, mas a narrativa apresenta Purim como memória anual de uma ameaça revertida.

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