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Bíblia

O que é o abominável da desolação nos textos bíblicos?

Entenda o que é o abominável da desolação, sua origem em Daniel, a fala de Jesus e as principais interpretações históricas.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
O que é o abominável da desolação? Entenda as passagens
Ruínas de pedra evocam o cenário histórico das profecias sobre Jerusalém e o templo.
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O que é o abominável da desolação é uma expressão bíblica associada a algo considerado profanador e devastador em relação ao santuário ou a Jerusalém. Ela aparece em Daniel e é retomada por Jesus nos Evangelhos, mas seu sentido exato é debatido entre intérpretes.

Onde a expressão aparece na Bíblia

A formulação mais conhecida vem do livro de Daniel, em passagens ligadas a visões sobre conflitos, perseguição e interrupção do culto no santuário. Jesus cita Daniel ao ensinar seus discípulos sobre acontecimentos futuros em Mateus 24 e Marcos 13. Lucas 21 registra um discurso paralelo, mas usa uma descrição diferente: Jerusalém cercada por exércitos.

Nas traduções em português, há pequenas variações: “abominação da desolação”, “abominação desoladora” e “abominável da desolação”. A diferença é de escolha tradutória; o núcleo da ideia é o mesmo. O termo reúne duas noções: uma abominação, isto é, algo detestável ou religiosamente ofensivo, e a desolação, isto é, devastação, abandono ou ruína.

PassagemFormulação ou imagemContexto imediato
Daniel 9“abominação desoladora”Profecia das setenta semanas, destruição da cidade e cessação de sacrifícios.
Daniel 11Forças profanam o santuário e estabelecem a abominação desoladoraConflito envolvendo reis e profanação do templo.
Daniel 12Retirada do sacrifício contínuo e instalação da abominação desoladoraPeríodo de angústia e espera por libertação.
Mateus 24“o abominável da desolação, de que falou o profeta Daniel”Advertência para fugir quando o sinal estiver em lugar santo.
Marcos 13“o abominável da desolação posto onde não deve estar”Exortação para os que estiverem na Judeia fugirem.
Lucas 21Jerusalém cercada de exércitosAnúncio de desolação e orientação para sair da região.

O que Daniel efetivamente registra

O texto de Daniel não oferece uma identificação única, direta e inequívoca do objeto, pessoa ou evento chamado de abominação desoladora. Essa é uma limitação importante: a Bíblia não diz explicitamente, em uma frase, “a abominação da desolação é tal personagem”. As interpretações precisam relacionar as visões de Daniel com eventos históricos ou expectativas futuras.

Em Daniel 9, depois da referência às “setenta semanas”, o texto fala de um ungido eliminado, de um povo de um príncipe que destruiria a cidade e o santuário, do fim dos sacrifícios e de desolações decretadas. A redação hebraica dessa seção é difícil e existem divergências de tradução e pontuação entre estudiosos.

Daniel 11 descreve forças que profanam o santuário, removem o sacrifício contínuo e estabelecem “a abominação desoladora”. Daniel 12 volta a associar dois elementos: a retirada do sacrifício contínuo e a colocação dessa abominação. Portanto, no próprio livro, a expressão está vinculada sobretudo à profanação cultual e à interrupção das práticas do templo.

“Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda), então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes.” (Mateus 24)

A citação de Mateus mostra que Jesus e o evangelista consideram Daniel uma referência decisiva para compreender o sinal. Ao mesmo tempo, o comentário “quem lê entenda” indica que a linguagem exigia discernimento dos leitores, não uma associação automática e sem discussão.

A leitura histórica: Antíoco IV e a profanação do templo

Uma das interpretações mais difundidas entre historiadores e estudiosos do período helenístico liga Daniel 11 e Daniel 12 às ações de Antíoco IV Epifânio, rei selêucida que governou de 175 a 164 a.C. Segundo 1 Macabeus 1, fonte judaica antiga fora do cânon bíblico protestante, medidas repressivas atingiram as práticas judaicas em Jerusalém, e um “abominável da desolação” foi instalado sobre o altar, em dezembro de 167 a.C.

Essa leitura entende que a expressão descreve uma profanação concreta do templo ocorrida no século II a.C., em meio à tentativa de impor costumes helenísticos à população judaica. Há discussão sobre a natureza exata do ato profanador. Alguns o relacionam a um altar ou culto pagão introduzido no recinto sagrado; outros enfatizam o conjunto das imposições religiosas e políticas de Antíoco. As fontes não permitem eliminar toda incerteza sobre os detalhes materiais.

O ponto forte dessa interpretação é a proximidade entre Daniel 11 e fatos conhecidos do período selêucida: a repressão, a suspensão dos sacrifícios e a posterior restauração do culto. A dedicação ou purificação do templo é relatada em 1 Macabeus 4 e está na origem da celebração judaica de Hanucá.

Porém, essa leitura não encerra a questão para todos os intérpretes. Jesus, nos Evangelhos, menciona Daniel em um contexto posterior a Antíoco. Por isso, muitas leituras afirmam que um evento do século II a.C. pode ser o cumprimento inicial, um modelo profético ou uma referência histórica retomada para falar de outra crise.

Jesus, Jerusalém e a destruição de 70 d.C.

Em Mateus 24 e Marcos 13, Jesus fala da destruição do templo, de tribulação e da necessidade de fuga. Em Mateus, o abominável é visto “no lugar santo”; em Marcos, está “onde não deve estar”. Logo depois, ambos os textos dizem que os moradores da Judeia deveriam fugir para os montes.

Lucas 21 oferece um paralelo relevante: em vez de repetir a expressão, afirma que, quando Jerusalém fosse cercada por exércitos, sua desolação estaria próxima. Depois recomenda que os que estivessem na Judeia fugissem para os montes. Muitos intérpretes entendem que Lucas explica, em linguagem mais direta, a referência de Mateus e Marcos.

Nessa leitura, o abominável da desolação estaria relacionado à presença militar romana, às insígnias e práticas pagãs dos exércitos, à invasão do espaço sagrado ou ao processo que culminou na queda de Jerusalém no ano 70 d.C. A cidade e o segundo templo foram destruídos pelas tropas romanas comandadas por Tito, após a revolta judaica iniciada em 66 d.C.

É preciso formular essa conclusão com cuidado. Os Evangelhos não dizem literalmente que “o abominável da desolação são as tropas de Tito”. Essa identificação é uma interpretação construída pela comparação entre Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21, além do conhecimento histórico da guerra judaico-romana. Também há divergência sobre se o sinal se refere especificamente aos exércitos, à ocupação do templo, a um ato de profanação dentro dele ou a uma combinação desses fatores.

Principais interpretações e onde elas divergem

As leituras tradicionais não concordam sobre quantos cumprimentos a expressão possui nem sobre a cronologia do discurso de Jesus. Em linhas gerais, três modelos aparecem com frequência.

1. Cumprimento no período de Antíoco IV

Esse modelo concentra Daniel 11 e Daniel 12 na crise de 167 a.C. A abominação seria a profanação do templo no domínio selêucida. Alguns defensores consideram que a linguagem de Daniel se encerra essencialmente nesse episódio histórico, enquanto as palavras de Jesus empregariam Daniel como referência ou padrão para a ruína posterior de Jerusalém.

2. Cumprimento na destruição de Jerusalém em 70 d.C.

Essa leitura aplica prioritariamente a fala de Jesus à guerra contra Roma e à queda do segundo templo. Ela destaca a ordem de fugir da Judeia, a relação com Jerusalém cercada por exércitos em Lucas 21 e a proximidade entre o anúncio e a catástrofe do primeiro século. Para alguns, Antíoco é um antecedente; para outros, é uma profecia anterior que antecipa tipologicamente o evento romano.

3. Cumprimento futuro ou duplo cumprimento

Outros intérpretes entendem que a profecia aponta também para um cenário ainda futuro, ligado a uma crise final, a um governante hostil ou a uma profanação futura de um santuário. Essa leitura costuma relacionar Daniel 9, Mateus 24, 2 Tessalonicenses 2 e Apocalipse 13. No entanto, esses textos não usam todos a expressão “abominável da desolação”, e as conexões são interpretativas.

A principal divergência, portanto, não é sobre a gravidade da profanação descrita, mas sobre seu alcance: um evento do século II a.C., a queda de Jerusalém em 70 d.C., um fato futuro ou uma sequência em que eventos passados prefiguram um desfecho posterior.

Detalhes de linguagem e contexto histórico

“Abominação” é uma palavra forte no vocabulário bíblico. Ela pode se referir, conforme o contexto, à idolatria, a práticas vistas como impuras ou àquilo que viola de modo profundo a aliança e o culto de Israel. “Desolação” descreve o resultado: devastação da cidade, ruína do santuário, interrupção do culto ou abandono da terra.

Isso explica por que a expressão não deve ser reduzida apenas a um objeto. Em Daniel, ela está inserida em anúncios de guerra, domínio estrangeiro e suspensão de sacrifícios. Nos Evangelhos, aparece no discurso sobre o templo e Jerusalém. Seu campo de sentido reúne ato profanador e consequência devastadora.

O segundo templo, reconstruído após o exílio babilônico e ampliado por Herodes, era o centro do culto judaico no tempo de Jesus. Sua destruição em 70 d.C. foi, portanto, um marco religioso, social e político de grande alcance. A associação entre a expressão e esse episódio tem força histórica, embora continue sendo uma interpretação, e não uma identificação explicitamente escrita pelos evangelistas.

Como ler as passagens sem ultrapassar o que elas afirmam

Uma leitura cuidadosa começa distinguindo os dados textuais das conclusões posteriores. O texto bíblico registra que Daniel fala de sacrifícios removidos, de profanação e de desolação; registra que Jesus remete a Daniel e ordena fuga diante de um sinal; e registra, em Lucas, Jerusalém cercada por exércitos.

Já as identificações específicas dependem de interpretação histórica e teológica. Antíoco IV, os romanos de 70 d.C. e um possível evento futuro são propostas defendidas por diferentes correntes. Nenhuma delas deve ser apresentada como se o texto fornecesse todos os detalhes sem margem de debate.

Também convém observar que as datas numéricas de Daniel 12 — 1.290 e 1.335 dias — são objeto de múltiplos cálculos e explicações. Não existe consenso acadêmico ou religioso sobre a maneira de aplicar cada número. Tentativas de usá-los para marcar datas modernas vão além do que as passagens esclarecem diretamente.

Perguntas frequentes

O abominável da desolação é uma pessoa?

O texto não o define diretamente como uma pessoa. Em Daniel, a expressão está ligada à profanação do santuário e à retirada dos sacrifícios; em Mateus 24 e Marcos 13, ela funciona como um sinal colocado em local impróprio ou santo. Algumas interpretações a associam a governantes ou forças militares, mas isso não é uma identificação explícita da Bíblia.

Antíoco IV Epifânio é mencionado pelo nome em Daniel?

Não. Daniel não menciona Antíoco IV pelo nome. A associação é uma reconstrução histórica baseada na sequência descrita em Daniel 11 e em sua semelhança com acontecimentos do período selêucida, especialmente a profanação do templo em 167 a.C.

Jesus disse que a profecia já havia se cumprido?

Os Evangelhos mostram Jesus citando Daniel em um discurso voltado para acontecimentos que envolvem Jerusalém e o templo. Eles não apresentam uma frase dizendo que a profecia já estava integralmente cumprida no tempo de Jesus. Por isso, há leituras que veem Antíoco como antecedente e outras que aplicam a fala ao ano 70 d.C. ou também ao futuro.

Lucas 21 substitui o abominável da desolação por exércitos?

Lucas 21 não usa a expressão de Daniel, mas descreve Jerusalém cercada por exércitos e anuncia sua desolação. Muitos estudiosos entendem esse trecho como paralelo explicativo de Mateus 24 e Marcos 13. Outros veem uma relação mais ampla, sem considerar que Lucas ofereça uma equivalência exata entre as expressões.

Resumo

  • O abominável da desolação é uma expressão de Daniel retomada por Jesus em Mateus 24 e Marcos 13.
  • O texto a relaciona a profanação do santuário, retirada de sacrifícios e devastação.
  • Daniel não identifica de modo direto e único uma pessoa ou objeto específico.
  • A leitura histórica mais conhecida associa Daniel 11 e 12 a Antíoco IV Epifânio, em 167 a.C.
  • Muitos intérpretes relacionam as palavras de Jesus à destruição de Jerusalém e do templo em 70 d.C.
  • Há ainda leituras de duplo cumprimento ou de cumprimento futuro, mas elas dependem de conexões interpretativas entre passagens.

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