Ir para o conteúdo
Perguntas e explicações bíblicas com clareza Como o site funciona
Bíblia

Dia da Expiação na Bíblia: rito, contexto e interpretações

Entenda o que é o Dia da Expiação na Bíblia, seus ritos em Levítico 16, seu lugar no calendário hebraico e leituras posteriores.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
O que é o Dia da Expiação na Bíblia? Origem e sentido
Representação editorial de objetos ligados ao ritual do Dia da Expiação no antigo Israel.
Compartilhar WhatsApp Facebook X LinkedIn Telegram E-mail

O que é o Dia da Expiação na Bíblia? É a solenidade anual descrita principalmente em Levítico 16 e Levítico 23, destinada à purificação do santuário, do sacerdócio e da comunidade de Israel por meio de ritos conduzidos pelo sumo sacerdote. No calendário judaico posterior, essa data é conhecida como Yom Kippur.

Onde o Dia da Expiação aparece na Bíblia

A fonte mais detalhada sobre o Dia da Expiação é Levítico 16. O capítulo apresenta as circunstâncias, os animais oferecidos, a entrada do sumo sacerdote no lugar santíssimo e o envio de um bode ao deserto. Outras passagens retomam ou regulamentam a ocasião: Levítico 23, Números 29 e, de maneira indireta, Êxodo 30.

O nome hebraico tradicional é Yom Kippur, geralmente traduzido como “Dia da Expiação”. A palavra ligada a “expiação” pode carregar a ideia de cobertura, purificação ou remoção da culpa, conforme o contexto. Nas instruções bíblicas, porém, o foco não é apenas uma experiência individual de perdão: o rito trata também da purificação dos lugares sagrados que, segundo a lógica ritual de Levítico, eram afetados pelas impurezas e transgressões do povo.

“Porque, naquele dia, se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor.” (Levítico 16)

O texto associa a cerimônia ao sétimo mês do calendário religioso israelita. Levítico 23 determina que ela ocorra no décimo dia desse mês e a chama de “santa convocação”. A equivalência com uma data fixa do calendário gregoriano não é possível, porque o calendário judaico é lunissolar; por isso, o Yom Kippur contemporâneo varia entre setembro e outubro.

O que Levítico 16 registra sobre o ritual

Levítico 16 situa suas instruções após a morte de Nadabe e Abiú, filhos de Arão, episódio narrado em Levítico 10. Essa ligação ressalta a gravidade do acesso à presença divina no santuário. O sumo sacerdote não poderia entrar livremente no lugar santíssimo, a área mais interna do tabernáculo, separada por um véu e relacionada à arca da aliança.

Segundo o capítulo, Arão — e, por extensão, o sumo sacerdote em gerações posteriores — deveria preparar-se com lavagem ritual e vestes específicas de linho. Ele apresentava um novilho como oferta pelo pecado para si e por sua casa. Depois, recebia dois bodes da comunidade de Israel e lançava sortes sobre eles: um “para o Senhor” e outro “para Azazel”, expressão cuja interpretação é debatida.

O bode destinado ao Senhor era sacrificado como oferta pelo pecado do povo. Seu sangue era levado para dentro do véu e aspergido em atos ligados à purificação do lugar santíssimo, da tenda da congregação e do altar. O texto explica que isso ocorria “por causa das impurezas dos filhos de Israel, e das suas transgressões, e de todos os seus pecados” (Levítico 16).

Em seguida, o sacerdote colocava simbolicamente as mãos sobre a cabeça do segundo bode, confessando sobre ele as iniquidades, transgressões e pecados de Israel. O animal era então enviado ao deserto por um homem designado. É desse elemento que vem a expressão popular “bode expiatório”, embora seu uso moderno costume indicar uma pessoa injustamente culpada, sentido que não descreve com precisão toda a função ritual narrada em Levítico.

Os principais elementos da cerimônia

  • O sumo sacerdote: único autorizado a entrar no lugar santíssimo nessa cerimônia anual.
  • O novilho: oferecido pelo pecado do próprio sacerdote e de sua casa.
  • Dois bodes: um era sacrificado; o outro era enviado ao deserto após a confissão coletiva.
  • O incenso: Levítico 16 diz que sua nuvem cobria o propiciatório, elemento ligado à arca.
  • O sangue: empregado nos ritos de purificação do santuário e do altar.
  • A aflição da alma: exigência dirigida a toda a comunidade no dia da solenidade.

Datas, textos e práticas mencionadas

As passagens bíblicas não apresentam uma descrição idêntica em todos os detalhes, porque cada texto tem uma finalidade própria. Levítico 16 oferece o núcleo ritual; Levítico 23 enfatiza o calendário e o descanso; Números 29 lista ofertas públicas para a data. A tabela abaixo organiza esses dados.

Passagem Informação principal Data ou duração indicada Personagens ou elementos
Levítico 16 Rito de purificação do santuário e confissão sobre o bode enviado ao deserto “Uma vez por ano” Sumo sacerdote, novilho, dois bodes, incenso e sangue
Levítico 23 Convocação santa, aflição da alma e cessação do trabalho 10º dia do 7º mês, do entardecer ao entardecer Toda a comunidade de Israel
Números 29 Ofertas adicionais para a solenidade 10º dia do 7º mês Novilho, carneiro, sete cordeiros e um bode
Hebreus 9 Leitura cristã posterior sobre a entrada anual do sumo sacerdote Rito anual relembrado Sumo sacerdote, santuário terrestre e Cristo

Há um ponto importante de leitura: Números 29 menciona ofertas comunitárias adicionais, enquanto Levítico 16 concentra-se no rito singular de purificação. Os textos não precisam ser tratados como relatos rivais; tradicionalmente, são lidos como instruções complementares para a mesma data. Ainda assim, a relação exata entre todas as ofertas e as etapas do ritual é objeto de discussão entre estudiosos.

O que significa “afligir a alma”?

Levítico 16 e Levítico 23 ordenam que o povo “aflija a sua alma” naquele dia. As passagens também proíbem o trabalho. O texto bíblico não define, nessa formulação específica, cada prática concreta incluída nessa aflição. Por isso, é necessário distinguir o registro bíblico das práticas desenvolvidas posteriormente.

O que o texto bíblico registra: a comunidade deveria interromper suas atividades laborais e cumprir uma forma de humilhação ou aflição diante de Deus. Levítico 23 acrescenta uma advertência severa para quem não cumprisse essa determinação.

O que a tradição judaica posterior consolidou: o Yom Kippur é marcado por jejum e por restrições adicionais, além de serviços litúrgicos próprios. O jejum é amplamente associado à expressão “afligir a alma”, mas Levítico não apresenta, em um manual detalhado, todas as normas que regulam a observância judaica posterior. Essas práticas pertencem à interpretação e à tradição religiosa desenvolvida ao longo dos séculos.

O período indicado em Levítico 23 vai “de uma tarde a outra tarde”. Essa expressão fundamenta a observância de pôr do sol a pôr do sol. No calendário judaico contemporâneo, o Dia da Expiação continua sendo uma das datas mais solenes do ano, mas suas formas atuais de celebração não podem ser simplesmente equiparadas ao ritual do tabernáculo ou do templo descrito em Levítico.

Quem ou o que é Azazel?

Uma das questões mais discutidas em Levítico 16 é o significado de “Azazel”. As traduções variam: algumas preservam o nome; outras usam expressões como “bode emissário” ou “bode expiatório”. O texto diz que uma sorte era lançada “para o Senhor” e outra “para Azazel”, e que o bode correspondente era enviado ao deserto.

Principais interpretações tradicionais e acadêmicas

  • Azazel como lugar desolado: nessa leitura, o termo estaria ligado ao destino do animal, um local remoto ou árido no deserto.
  • Azazel como o próprio bode enviado: algumas traduções e interpretações entendem a expressão como referência funcional ao animal que leva as iniquidades para longe.
  • Azazel como ser associado ao deserto: outra leitura, presente em antigas tradições interpretativas e debatida por estudiosos, entende Azazel como um ser sobrenatural ou demoníaco ligado à região desértica.

Não há consenso definitivo sobre a etimologia e o referente de Azazel. O que Levítico 16 afirma com clareza é que o bode não é sacrificado como oferta a Azazel: ele é apresentado vivo perante o Senhor para que se faça expiação e, depois, é enviado ao deserto. A interpretação de que o rito envolveria culto a outra divindade não é sustentada pelo modo como o próprio capítulo organiza a cerimônia, centrada no santuário e no Senhor.

O Dia da Expiação no templo e após sua destruição

As instruções de Levítico pressupõem uma estrutura sacerdotal e um santuário com altar, tenda e lugar santíssimo. Mais tarde, o culto israelita foi centralizado no templo de Jerusalém, especialmente nas reformas associadas ao período monárquico e retratadas em textos como 2 Reis 22–23. No período do Segundo Templo, o Dia da Expiação continuou ligado ao serviço do sumo sacerdote.

Fontes judaicas posteriores, especialmente a Mishná, preservam descrições mais extensas sobre a liturgia do dia no templo. Elas são valiosas para conhecer tradições antigas, mas não devem ser confundidas com a descrição direta de Levítico. Entre os detalhes posteriores estão procedimentos específicos, fórmulas litúrgicas e desenvolvimentos sobre o destino do bode enviado ao deserto.

Após a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., os sacrifícios não continuaram da forma prevista para o templo. O judaísmo rabínico desenvolveu a observância do Yom Kippur sem sacrifício animal, dando centralidade ao jejum, à oração, à confissão e à reconciliação. Essa é uma transformação histórica posterior ao cenário ritual de Levítico, não uma continuação literal de todas as etapas descritas no texto.

Como o Novo Testamento retoma o tema

O Novo Testamento não narra Jesus celebrando o Dia da Expiação de maneira detalhada. Também não afirma expressamente que a crucificação ocorreu no Yom Kippur; essa identificação direta não está nos Evangelhos. As narrativas da paixão a situam no contexto da Páscoa, conforme Mateus 26, Marcos 14, Lucas 22 e João 18–19, embora haja debates cronológicos sobre detalhes dessa semana.

A carta aos Hebreus é o texto neotestamentário que mais claramente usa a linguagem e a estrutura do Dia da Expiação. Hebreus 9 relembra que o sumo sacerdote entrava uma vez por ano no segundo compartimento do santuário, levando sangue por si e pelos pecados do povo. O autor usa esse cenário para apresentar uma interpretação cristã da obra de Cristo.

O que Hebreus afirma: Cristo é apresentado como sumo sacerdote e seu sacrifício é descrito como decisivo, em contraste com ritos repetidos. Hebreus 9 e Hebreus 10 articulam essa leitura teológica com imagens do santuário e dos sacrifícios.

Onde as leituras cristãs divergem: católicos, ortodoxos e protestantes concordam amplamente que Hebreus relaciona Cristo à linguagem sacrificial e sacerdotal, mas divergem em explicações sobre expiação, sacramento, presença, sacrifício e aplicação desses textos à liturgia. Além disso, alguns grupos cristãos dão atenção especial a cronologias proféticas ligadas ao Dia da Expiação, enquanto outros consideram essas conexões interpretativas e não exigidas pelo texto bíblico.

Portanto, é mais preciso dizer que Hebreus oferece uma interpretação cristã posterior do simbolismo de Levítico do que afirmar que Levítico 16, por si só, identifica antecipadamente cada elemento com acontecimentos do Novo Testamento. Essa identificação depende de pressupostos teológicos de cada tradição.

Perguntas frequentes

O Dia da Expiação e o Yom Kippur são a mesma coisa?

Sim. Yom Kippur é o nome hebraico tradicionalmente usado para o Dia da Expiação. A base bíblica principal está em Levítico 16 e Levítico 23, enquanto as práticas judaicas atuais refletem também desenvolvimentos posteriores.

O bode emissário era sacrificado?

Não. Em Levítico 16, um dos bodes é sacrificado como oferta pelo pecado, mas o outro é mantido vivo, recebe simbolicamente as iniquidades confessadas e é enviado ao deserto. O texto diferencia claramente os dois destinos.

O Dia da Expiação era celebrado todos os meses?

Não. Era uma observância anual, marcada para o décimo dia do sétimo mês. Levítico 16 a chama de estatuto perpétuo e declara que a expiação ritual deveria ocorrer uma vez por ano.

A Bíblia explica exatamente o que aconteceu com o bode no deserto?

Não em todos os detalhes. Levítico 16 diz que ele era enviado a uma região solitária ou deserta. Relatos posteriores acrescentam práticas e explicações, mas elas não aparecem de forma completa no texto bíblico.

Resumo

  • O Dia da Expiação é a solenidade anual descrita sobretudo em Levítico 16, ligada à purificação ritual de Israel e de seu santuário.
  • A data era o décimo dia do sétimo mês, com descanso obrigatório e a ordem de “afligir a alma”, conforme Levítico 23.
  • O ritual incluía o sumo sacerdote, um novilho e dois bodes: um sacrificado e outro enviado ao deserto.
  • O significado de Azazel é disputado; não há consenso definitivo entre traduções e intérpretes.
  • O Yom Kippur judaico atual preserva a importância da data, mas não reproduz os sacrifícios do templo destruído em 70 d.C.
  • Hebreus 9 e Hebreus 10 aplicam imagens do Dia da Expiação a Cristo, em uma interpretação cristã que recebe explicações diferentes entre tradições.

Continue lendo

Artigos relacionados

Mais em Bíblia