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Pré-tribulacionismo: entenda a leitura sobre o arrebatamento

O que é o pré-tribulacionismo? Conheça essa interpretação do arrebatamento, seus textos bíblicos, origem histórica e principais divergências.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
O que é o pré-tribulacionismo? Origem, textos e debates
Bíblia aberta ao lado de um mapa antigo, em uma composição sóbria sobre escatologia.
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O que é o pré-tribulacionismo? É a interpretação escatológica segundo a qual a igreja será arrebatada antes de um período final de grande tribulação na Terra. Essa leitura reúne passagens sobre a vinda de Cristo, a ressurreição e o juízo, mas seus detalhes não aparecem organizados dessa forma em um único texto bíblico.

Definição: o que o pré-tribulacionismo ensina

O pré-tribulacionismo é uma forma de interpretar as profecias bíblicas sobre os últimos acontecimentos. Seu ponto central é a distinção entre dois momentos futuros: primeiro, Cristo viria para reunir os cristãos, vivos e mortos, no episódio chamado de arrebatamento; depois, ocorreria na Terra a grande tribulação; por fim, Cristo se manifestaria publicamente em glória para derrotar seus adversários e estabelecer seu reino.

Na formulação mais conhecida, a tribulação é entendida como um período de sete anos associado à última “semana” da profecia de Daniel 9. Os primeiros três anos e meio seriam uma fase inicial de sofrimento e conflitos, enquanto os últimos três anos e meio corresponderiam à “grande tribulação”, expressão usada por Jesus em Mateus 24. Muitos defensores dessa posição também relacionam esse período à atuação do “homem da iniquidade”, descrito em 2 Tessalonicenses 2, e às figuras simbólicas de Apocalipse 6 a 19.

É importante fazer uma distinção: a Bíblia menciona a reunião dos fiéis com Cristo, fala de tribulação e descreve a vinda gloriosa de Jesus. Porém, a sequência específica “arrebatamento antes de sete anos de tribulação, seguido por uma segunda manifestação pública” é uma construção interpretativa posterior, formada pela combinação de diversos textos.

Os textos bíblicos mais usados nessa interpretação

O principal texto sobre o arrebatamento é 1 Tessalonicenses 4. Paulo escreve que os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro e que os cristãos vivos serão “arrebatados” para encontrar o Senhor nos ares. O verbo grego frequentemente traduzido por “arrebatados” é harpázō, com o sentido de tomar ou levar de modo repentino. A palavra “arrebatamento”, portanto, é usada para resumir o evento descrito no texto, embora não seja um termo técnico empregado como título por Paulo.

“Depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (1 Tessalonicenses 4).

Outras passagens recebem destaque. Em 1 Coríntios 15, Paulo fala da transformação dos vivos e da ressurreição dos mortos “ao som da última trombeta”. Em João 14, Jesus promete voltar e receber os seus para que estejam onde ele está. Em Apocalipse 3, Jesus declara à igreja de Filadélfia que a guardará “da hora da provação” que virá sobre o mundo. Para os pré-tribulacionistas, essa promessa sugere remoção ou proteção fora do período de prova.

Também são citados textos que falam da ira divina. Em 1 Tessalonicenses 1, Paulo afirma que Jesus livra os cristãos “da ira vindoura”; em 1 Tessalonicenses 5, diz que Deus não destinou os fiéis para a ira. A leitura pré-tribulacionista identifica a tribulação final, total ou parcialmente, com essa ira e conclui que a igreja não estará presente nela.

Entretanto, cada uma dessas conexões é debatida. Por exemplo, “livrar da ira” pode ser entendido como livramento da condenação final, e não necessariamente como retirada física anterior a um período histórico. Da mesma forma, Apocalipse 3 pode significar preservação em meio à prova, e não saída dela. O texto bíblico não explica explicitamente qual dessas possibilidades deve ser escolhida.

Passagens, temas e pontos de debate

PassagemO que o texto registraLeitura pré-tribulacionistaQuestão debatida
1 Tessalonicenses 4Ressurreição dos mortos em Cristo e encontro dos vivos com o Senhor.Descreve o arrebatamento antes da tribulação.O capítulo não informa em que ponto da tribulação o evento ocorre.
1 Coríntios 15Transformação dos vivos e vitória sobre a morte na última trombeta.Refere-se ao mesmo arrebatamento, em momento distinto das trombetas de Apocalipse.Há discordância sobre a relação entre as trombetas paulinas e Apocalipse 8 a 11.
Mateus 24Jesus fala de tribulação, sinais cósmicos e reunião dos eleitos.Muitos distinguem esse discurso do arrebatamento da igreja.Outras leituras entendem que a reunião acontece depois da tribulação.
Apocalipse 3Promessa de guardar da hora da provação.Indica retirada da igreja antes da prova mundial.“Guardar de” também pode indicar preservação durante a prova.
2 Tessalonicenses 2Paulo trata da vinda de Cristo, da reunião dos fiéis e do homem da iniquidade.O “restritor” seria o Espírito Santo agindo por meio da igreja, removida antes do anticristo.O texto não identifica diretamente quem é o restritor.
Daniel 9Profecia das setenta semanas para o povo e a cidade santa.A 70ª semana futura corresponde a sete anos de tribulação.Nem todos aceitam uma separação entre a 69ª e a 70ª semana.

De onde veio essa interpretação?

Como sistema claramente definido, o pré-tribulacionismo é relativamente recente na história cristã. A maioria dos estudos históricos situa sua formulação no século 19, especialmente nos círculos associados a John Nelson Darby, líder ligado ao movimento dos Irmãos de Plymouth, na Grã-Bretanha. Darby desenvolveu uma leitura que diferenciava de modo acentuado Israel e a igreja no plano profético e defendia uma vinda de Cristo para a igreja antes do período tribulacional.

Mais tarde, a perspectiva foi difundida no mundo de língua inglesa por conferências proféticas, institutos bíblicos e obras de referência. A Bíblia de Referência Scofield, publicada inicialmente em 1909, teve papel importante ao apresentar notas que popularizaram o dispensacionalismo entre muitos leitores protestantes. No século 20, autores como Lewis Sperry Chafer, John F. Walvoord e Charles Ryrie ajudaram a sistematizar e divulgar a posição.

Esse dado histórico precisa ser apresentado com cuidado. Dizer que a forma moderna do pré-tribulacionismo ganhou força no século 19 não prova, por si só, que ela seja falsa; ideias teológicas podem ser formuladas ou organizadas mais tarde. Por outro lado, também não é correto afirmar que a igreja cristã, de maneira ampla e contínua, ensinou desde os primeiros séculos um arrebatamento pré-tribulacional com os contornos atuais. Há textos antigos que expressam expectativa pela volta de Cristo e por sofrimentos finais, mas a equivalência direta com o sistema moderno é disputada entre historiadores e intérpretes.

A relação com o dispensacionalismo

O pré-tribulacionismo está fortemente ligado ao dispensacionalismo clássico, embora os termos não sejam idênticos. Dispensacionalismo é um modelo de leitura bíblica que organiza a história da revelação em diferentes administrações ou etapas e costuma enfatizar uma distinção permanente entre Israel e a igreja. Nessa estrutura, promessas feitas a Israel no Antigo Testamento são esperadas como cumprimento nacional e futuro para Israel.

Para muitos dispensacionalistas, Daniel 9 se dirige especificamente a Israel e a Jerusalém. Assim, entre a 69ª e a 70ª semana profética haveria uma pausa correspondente à era da igreja. O arrebatamento retiraria a igreja antes da retomada do programa profético relacionado a Israel durante a semana final.

Mas há pré-tribulacionistas com formulações diferentes entre si, e há intérpretes que aceitam algum tipo de distinção entre Israel e igreja sem adotar o arrebatamento antes da tribulação. Inversamente, tradições não dispensacionalistas em geral rejeitam essa separação cronológica de Daniel 9 e leem as promessas bíblicas por outras chaves teológicas.

Outras leituras sobre o momento do arrebatamento

O debate não gira apenas em torno da existência de uma futura reunião dos cristãos com Cristo. A maior divergência está no momento em que ela ocorreria em relação à tribulação. As posições principais podem ser resumidas assim:

  • Pré-tribulacionismo: o arrebatamento acontece antes da tribulação. A igreja é retirada antes do derramamento da ira divina.
  • Meso-tribulacionismo: o arrebatamento ocorre no meio de um período tribulacional de sete anos, normalmente após três anos e meio.
  • Pré-ira: a igreja passa por parte da tribulação e é arrebatada antes da manifestação final da ira de Deus.
  • Pós-tribulacionismo: a igreja atravessa a tribulação; a reunião com Cristo ocorre em conexão com sua vinda pública e gloriosa, após esse período.

Os pré-tribulacionistas geralmente insistem que a esperança cristã é iminente: Cristo poderia vir a qualquer momento, sem sinais proféticos obrigatórios antes do arrebatamento. Os pós-tribulacionistas respondem que Jesus e Paulo mencionam sinais, apostasia, sofrimento e a revelação do homem da iniquidade em discursos sobre o fim, especialmente em Mateus 24 e 2 Tessalonicenses 2.

Outro ponto de divergência está em Mateus 24. Defensores da leitura pré-tribulacional frequentemente entendem que a reunião dos eleitos, depois da tribulação, se refere principalmente a Israel ou aos convertidos daquele período, não à igreja arrebatada antes. Críticos dessa interpretação observam que o texto fala dos “eleitos” sem fazer essa distinção explícita e afirmam que a leitura mais direta conecta a reunião dos fiéis à vinda visível de Cristo.

O que é afirmado e o que permanece em discussão

Há elementos amplamente reconhecidos no texto bíblico: Cristo voltará, os mortos ressuscitarão, os fiéis serão reunidos a ele e Deus julgará o mal. Passagens como 1 Tessalonicenses 4, 1 Coríntios 15, Mateus 24 e Apocalipse 20 são centrais nas discussões sobre esses temas, embora sejam interpretadas de modos diversos.

Já vários detalhes do esquema pré-tribulacionista permanecem discutidos: a duração exata da tribulação, a identificação de Daniel 9 com um período futuro de sete anos, a natureza do “restritor” de 2 Tessalonicenses 2, o sentido de “guardar da hora da provação” em Apocalipse 3 e a existência de duas fases separadas da vinda de Cristo.

Portanto, não existe um versículo que diga literalmente: “a igreja será arrebatada sete anos antes da manifestação pública de Cristo”. Essa frase resume uma conclusão teológica, não uma citação bíblica. Reconhecer essa diferença ajuda a ler os argumentos com precisão: os defensores apresentam uma harmonização de textos; os críticos questionam se essa harmonização é exigida pelas passagens.

Perguntas frequentes

Pré-tribulacionismo e arrebatamento são a mesma coisa?

Não. “Arrebatamento” é o nome dado ao encontro dos fiéis com Cristo descrito especialmente em 1 Tessalonicenses 4. Pré-tribulacionismo é a interpretação que localiza esse evento antes da grande tribulação. Pessoas de posições diferentes podem crer no arrebatamento, mas discordar de seu momento.

A Bíblia informa que a tribulação durará sete anos?

A Bíblia menciona períodos de três anos e meio, 42 meses e 1.260 dias em Daniel e Apocalipse. A conclusão de que haverá uma tribulação final completa de sete anos resulta da associação desses números à 70ª semana de Daniel 9. Essa associação é tradicional em círculos dispensacionalistas, mas não é aceita por todos os intérpretes.

O pré-tribulacionismo ensina duas voltas de Cristo?

Seus defensores normalmente não falam em duas “segundas vindas”, mas em duas fases da mesma vinda: uma para buscar a igreja e outra para manifestação pública em glória. Seus críticos consideram que essa divisão não é explicitada pelos textos e preferem compreender os acontecimentos como parte de uma única vinda final.

Apocalipse não menciona a igreja depois do capítulo 3. Isso prova o pré-tribulacionismo?

Esse é um argumento usado por alguns defensores, porque a palavra “igreja” aparece com frequência em Apocalipse 1 a 3 e não ocorre como designação das comunidades nos capítulos seguintes. Contudo, ausência de um termo não resolve a questão por si só: Apocalipse continua falando de santos, servos de Deus e daqueles que guardam os mandamentos em outras seções. A identificação desses grupos é debatida.

Resumo

  • O pré-tribulacionismo afirma que a igreja será arrebatada antes de uma tribulação final.
  • Seus textos mais citados incluem 1 Tessalonicenses 4, 1 Coríntios 15, João 14, Daniel 9, Mateus 24, 2 Tessalonicenses 2 e Apocalipse.
  • A sequência detalhada de arrebatamento, sete anos de tribulação e retorno público de Cristo é uma interpretação construída a partir de várias passagens.
  • A forma moderna dessa posição foi sistematizada e difundida sobretudo a partir do século 19, em ligação com o dispensacionalismo.
  • As leituras meso-tribulacionista, pré-ira e pós-tribulacionista concordam em pontos fundamentais, mas divergem sobre o momento da reunião dos fiéis com Cristo.
  • O texto bíblico não declara de maneira direta que a igreja será arrebatada sete anos antes da vinda visível de Cristo; essa é uma conclusão debatida entre intérpretes.

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