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Entenda o preterismo e como ele interpreta as profecias bíblicas

O que é o preterismo: conheça essa leitura das profecias bíblicas, suas origens, textos principais, vertentes e diferenças em relação ao futurismo.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
O que é o preterismo? Origem, leituras e textos bíblicos
Ruínas de pedra e um pergaminho antigo evocam as profecias relacionadas à Jerusalém do primeiro século.
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O que é o preterismo? É uma forma de interpretar profecias bíblicas segundo a qual muitas delas, especialmente as ligadas ao julgamento de Jerusalém, já se cumpriram no século I, em eventos como a destruição do templo pelos romanos no ano 70 d.C. Essa leitura é debatida entre cristãos porque envolve textos centrais de Mateus 24, Daniel e Apocalipse.

Definição: o que o termo preterismo significa

A palavra preterismo vem do latim praeteritum, que significa “passado”. Na interpretação bíblica, o termo descreve a perspectiva de que determinadas profecias que parecem falar do futuro já estavam realizadas, ou estavam prestes a se realizar, para os primeiros destinatários dos textos.

O foco do preterismo costuma estar nos discursos de Jesus sobre o fim, registrados em Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21, e nas visões do livro de Apocalipse. Seus defensores observam que esses textos trazem expressões temporais como “esta geração” (Mateus 24) e “as coisas que em breve devem acontecer” (Apocalipse 1). A partir disso, entendem que o horizonte principal das profecias era o século I, não um futuro distante.

É importante distinguir uma afirmação histórica de uma conclusão interpretativa. O texto bíblico registra que Jesus anunciou a destruição do templo e falou de guerras, perseguições e da necessidade de fugir da Judeia (Mateus 24; Marcos 13; Lucas 21). Também é historicamente conhecido que Jerusalém e seu templo foram destruídos pelas forças romanas em 70 d.C., durante a guerra judaico-romana. A conclusão de que esse evento cumpriu a maior parte ou a totalidade das profecias escatológicas é uma interpretação posterior, chamada preterista.

O contexto histórico: Jerusalém e a guerra de 66–70 d.C.

Para entender o preterismo, é necessário considerar o cenário da Judeia no primeiro século. A região vivia sob domínio romano, com tensões políticas, sociais e religiosas crescentes. Em 66 d.C., uma revolta judaica contra Roma deu início a uma guerra que terminou com o cerco e a tomada de Jerusalém pelo exército liderado por Tito.

O templo, centro da vida sacrificial judaica, foi destruído. O historiador judeu Flávio Josefo, que escreveu no fim do século I, descreve a guerra, a fome durante o cerco e a queda da cidade em A Guerra dos Judeus. Embora Josefo não seja um texto bíblico e seus números sejam discutidos por historiadores modernos, sua obra é uma fonte importante para a reconstrução do conflito.

Os Evangelhos registram Jesus prevendo a queda do templo. Em Lucas 21, por exemplo, a fala é apresentada em termos bastante concretos:

“Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” (Lucas 21).

Preteristas entendem que a destruição de 70 d.C. corresponde diretamente a essa previsão. Intérpretes não preteristas também reconhecem a conexão entre Lucas 21 e a queda de Jerusalém, mas frequentemente sustentam que outros elementos dos discursos de Jesus apontam além daquele acontecimento.

Os textos bíblicos mais usados nessa interpretação

O preterismo não depende de um único versículo. Ele resulta da leitura conjunta de passagens proféticas e de marcadores de tempo presentes no Novo Testamento. Os textos abaixo aparecem com frequência no debate.

Passagem O que o texto registra Leitura preterista mais comum Principal ponto de debate
Mateus 24 Jesus fala da destruição do templo, tribulação, sinais e “esta geração”. O discurso se concentra na crise que culminou em 70 d.C. Se a vinda do Filho do Homem e a reunião dos eleitos ocorreram integralmente naquele período.
Marcos 13 Há avisos sobre engano, perseguição, profanação e vigilância. Os avisos foram dirigidos prioritariamente aos discípulos do século I. Se há apenas referência local ou também uma expectativa final futura.
Lucas 21 Jerusalém seria cercada por exércitos e pisaria pelos gentios. Descreve de modo direto o cerco romano de 70 d.C. O alcance da expressão “tempos dos gentios”.
Apocalipse 1 O livro fala de coisas que “em breve” aconteceriam. Muitas visões dizem respeito ao fim da antiga ordem de Jerusalém. A data de composição do Apocalipse e a identificação de Babilônia.
Apocalipse 11 Menciona templo, cidade santa e um período de 42 meses. Pode pressupor um contexto anterior à queda do templo. Se o templo é literal, simbólico ou parte de uma visão sem indicação cronológica decisiva.
Apocalipse 17–18 Apresenta Babilônia como cidade poderosa associada a juízo. Para alguns, Babilônia representa Jerusalém do século I. Outros a identificam com Roma ou com um poder futuro.

Mateus 24 e a expressão “esta geração”

Mateus 24 é provavelmente o capítulo mais importante para a discussão. O discurso começa quando os discípulos mostram a Jesus os edifícios do templo, e ele anuncia que não ficaria “pedra sobre pedra” (Mateus 24). Em seguida, os discípulos perguntam sobre quando essas coisas aconteceriam e sobre o sinal da vinda de Cristo e da consumação do século.

O capítulo reúne temas que todos os lados reconhecem como difíceis: falsos cristos, guerras, tribulação, fuga da Judeia, sinais cósmicos, a vinda do Filho do Homem e a reunião dos eleitos. A frase mais debatida está perto do fim: “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (Mateus 24).

Como o preterismo lê o capítulo

Em geral, preteristas argumentam que “esta geração” significa a geração dos ouvintes de Jesus. Assim, “tudo isto” deveria ocorrer antes que aquela geração desaparecesse, situando o cumprimento na época da guerra judaico-romana. Eles também observam que as instruções para fugir aos montes, orar para que a fuga não ocorresse em circunstâncias difíceis e reconhecer uma ameaça ligada à Judeia fazem sentido num contexto geográfico concreto (Mateus 24).

Outra característica dessa leitura é entender a linguagem de “vir nas nuvens” a partir do vocabulário profético do Antigo Testamento. Isaías 19, por exemplo, descreve o Senhor vindo sobre uma nuvem em juízo contra o Egito. Preteristas afirmam que esse tipo de linguagem pode designar uma manifestação de julgamento divino na história, sem exigir uma aparição visível e física aos olhos de toda a humanidade.

Onde outras leituras divergem

Leituras futuristas costumam aceitar que Mateus 24 inclui a queda de Jerusalém, mas defendem uma transição, dentro do capítulo, para acontecimentos ainda futuros. Para esses intérpretes, elementos como a reunião dos eleitos, a vinda visível do Filho do Homem e a abrangência cósmica dos sinais não se esgotaram em 70 d.C.

Há ainda intérpretes que enxergam uma dupla referência: Jesus falaria da destruição de Jerusalém como evento próximo e, ao mesmo tempo, usaria esse juízo como antecipação de uma consumação final. Não existe consenso universal sobre onde, exatamente, uma parte termina e outra começa. O próprio texto não marca uma divisão de versículos reconhecida por todas as tradições.

Preterismo parcial e preterismo completo

Nem todos os preteristas defendem a mesma extensão de cumprimento. A distinção mais conhecida é entre preterismo parcial e preterismo completo, também chamado por seus críticos de “hiperpreterismo”. Os rótulos variam conforme o autor, por isso é mais seguro explicar as teses do que pressupor que todos usem os termos do mesmo modo.

Preterismo parcial

O preterismo parcial entende que muitas profecias de julgamento, sobretudo em Mateus 24 e em partes de Apocalipse, foram cumpridas no século I. Contudo, preserva como futuros a ressurreição geral dos mortos, o juízo final e a consumação última. Seus proponentes geralmente leem 70 d.C. como um marco decisivo no encerramento da antiga ordem ligada ao templo, mas não como o fim de toda a história humana.

Preterismo completo

O preterismo completo sustenta que todas as profecias escatológicas centrais, inclusive a parousia, a ressurreição e o juízo, tiveram cumprimento espiritual ou pactual no século I, particularmente em 70 d.C. Essa posição é rejeitada por grande parte das tradições cristãs históricas, que afirmam uma futura ressurreição corporal e uma consumação ainda por vir, com base em textos como 1 Coríntios 15, 1 Tessalonicenses 4 e Apocalipse 20.

Essa rejeição é uma posição teológica posterior e institucional de várias comunidades cristãs; ela não muda o fato de que há defensores contemporâneos do preterismo completo. Ao descrever o debate, convém não confundir o que uma tradição considera aceitável com aquilo que o texto bíblico diz de maneira indiscutível.

Apocalipse: data, destinatários e a questão de Babilônia

O livro de Apocalipse é outro centro de discussão. Ele se dirige a sete igrejas da Ásia (Apocalipse 1–3), usa imagens intensamente simbólicas e afirma que a revelação trata de acontecimentos próximos. Preteristas entendem que esses detalhes exigem levar a sério a situação dos primeiros leitores, que enfrentavam pressões sociais e políticas no Império Romano.

Uma questão decisiva é a data do livro. Uma proposta o situa antes de 70 d.C., durante o reinado de Nero, normalmente entre 64 e 68 d.C. Outra proposta, muito difundida entre estudiosos e tradições cristãs, coloca sua redação no reinado de Domiciano, por volta de 90–96 d.C. A evidência disponível não produz unanimidade acadêmica.

Uma fonte antiga frequentemente citada para a data tardia é Irineu de Lião, no fim do século II, que relaciona a visão apocalíptica ao tempo de Domiciano. Porém, a redação exata dessa referência e seu antecedente são discutidos: alguns entendem que Irineu fala da visão; outros propõem que ele se refere à pessoa de João. Defensores da data anterior a 70 d.C. também apontam indícios internos, como as referências ao templo em Apocalipse 11, mas esses indícios recebem interpretações diferentes.

A identificação de “Babilônia”, em Apocalipse 17–18, é igualmente disputada. A leitura mais tradicional entre muitos pesquisadores é que Babilônia simboliza Roma, potência que dominava o mundo mediterrâneo. Alguns preteristas, porém, identificam Babilônia com Jerusalém, citando a associação da cidade com a morte dos profetas e a responsabilidade pela morte de Jesus (Mateus 23; Apocalipse 18). O texto de Apocalipse não fornece uma identificação explícita que encerre a discussão.

O que está no texto e o que pertence à interpretação

Uma leitura responsável do preterismo deve separar os dados textuais das conclusões construídas sobre eles. Essa distinção ajuda a evitar afirmar como fato aquilo que pertence ao campo da exegese e da teologia.

  • O texto bíblico registra: Jesus predisse a destruição do templo e advertiu seus discípulos sobre conflitos, perseguições e fuga (Mateus 24; Marcos 13; Lucas 21).
  • O texto bíblico registra: Apocalipse foi dirigido a comunidades reais da Ásia e contém expressões de proximidade temporal (Apocalipse 1–3).
  • O dado histórico externo confirma: Jerusalém e o segundo templo foram destruídos pelos romanos em 70 d.C.
  • A interpretação preterista afirma: esse evento cumpriu a maior parte das profecias do discurso de Jesus e, em algumas versões, também de Apocalipse.
  • Outras interpretações afirmam: 70 d.C. cumpriu certas previsões, mas não esgotou as promessas de ressurreição, juízo e consumação final.

Portanto, dizer simplesmente que “o preterismo é o que a Bíblia ensina” ou, no extremo oposto, que “a Bíblia não permite nenhuma leitura preterista” ultrapassa o que pode ser demonstrado sem argumentação. Há textos relevantes para a posição preterista, mas a relação entre esses textos e todos os aspectos da escatologia permanece objeto de divergência.

Perguntas frequentes

O preterismo ensina que Jesus não voltará?

Depende da vertente. O preterismo parcial normalmente mantém uma volta futura de Cristo, além da ressurreição geral e do juízo final. O preterismo completo entende que a vinda profetizada se cumpriu no século I em sentido não físico ou pactual. Essa é uma das diferenças mais importantes entre as duas posições.

O preterismo diz que Apocalipse já se cumpriu inteiro?

O preterismo completo tende a responder que sim, embora interprete várias imagens de modo simbólico. O preterismo parcial geralmente considera que muitas visões se relacionam ao século I, mas reserva capítulos ou temas para acontecimentos futuros. Não há uma única leitura preterista de Apocalipse.

Por que o ano 70 d.C. é tão importante?

Porque foi o ano da destruição de Jerusalém e do segundo templo pelos romanos. Preteristas relacionam esse fato às advertências de Jesus em Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21. Mesmo intérpretes que não adotam o preterismo reconhecem que esse acontecimento é relevante para a compreensão desses discursos.

O preterismo é uma denominação religiosa?

Não. Trata-se de um modelo de interpretação profética e escatológica. Ele pode aparecer, em graus diferentes, entre autores e comunidades de origens teológicas diversas. A aceitação de suas versões parciais ou completas varia amplamente.

Resumo

  • Preterismo é a leitura segundo a qual muitas profecias bíblicas tiveram cumprimento no passado, especialmente no século I.
  • O marco histórico central para essa interpretação é a destruição de Jerusalém e do templo em 70 d.C.
  • Mateus 24, Marcos 13, Lucas 21 e Apocalipse são os principais textos debatidos.
  • O preterismo parcial mantém eventos finais futuros; o completo entende que eles já se cumpriram de maneira espiritual ou pactual.
  • A data de Apocalipse e a identidade de Babilônia são questões disputadas e influenciam fortemente a discussão.
  • O texto bíblico registra previsões e linguagem de proximidade; a extensão de seu cumprimento em 70 d.C. é uma conclusão interpretativa debatida.

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