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O que representa o bode expiatório na Bíblia e como o ritual funcionava

Entenda o que representa o bode expiatório na Bíblia, o ritual de Levítico 16, Azazel e as principais interpretações judaicas e cristãs.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
O que representa o bode expiatório na Bíblia? Entenda
Representação editorial do ritual dos dois bodes descrito em Levítico 16.
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O que representa o bode expiatório na Bíblia? Em Levítico 16, ele faz parte do ritual anual de expiação de Israel: sobre ele eram confessadas simbolicamente as culpas do povo, e depois ele era enviado ao deserto. O texto bíblico o distingue do bode sacrificado e associa seu destino ao termo hebraico “Azazel”, cuja interpretação é debatida.

Onde aparece o bode expiatório na Bíblia

A expressão popular “bode expiatório” vem principalmente do relato do Dia da Expiação, ou Yom Kippur, em Levítico 16. Esse capítulo descreve um rito conduzido pelo sumo sacerdote uma vez por ano, depois da morte dos filhos de Arão, Nadabe e Abiú, mencionada em Levítico 10. O objetivo do ritual era lidar com as impurezas e transgressões que afetavam o santuário e a comunidade de Israel.

O procedimento incluía animais diferentes e etapas específicas. Arão deveria oferecer um novilho por seu próprio pecado e pelo de sua casa. Para o povo, seriam apresentados dois bodes. Lançavam-se sortes sobre eles: uma “para o Senhor” e outra “para Azazel” (Levítico 16). O bode escolhido para o Senhor era sacrificado como oferta pelo pecado; o outro permanecia vivo, recebia a imposição das mãos do sumo sacerdote e era levado ao deserto.

“Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pela mão de um homem designado para isso.” (Levítico 16)

Portanto, no nível mais direto do texto, o bode vivo representa a remoção das culpas confessadas para longe do acampamento. Ele não era o único elemento do rito, nem substituía o sacrifício do outro bode. A expiação, conforme a narrativa, envolve os dois: sangue do bode sacrificado para purificar e o envio do bode vivo para carregar simbolicamente as iniquidades para uma região isolada.

Como funcionava o ritual dos dois bodes

É importante evitar uma simplificação frequente: Levítico 16 não descreve apenas um animal sendo culpado injustamente. O texto fala de uma cerimônia cultual com dois bodes selecionados para propósitos distintos. Ambos são apresentados diante do Senhor antes do lançamento das sortes, e cada um integra o mesmo rito anual.

Elemento do ritualPassagem principalAção descritaFunção no relato
Novilho de ArãoLevítico 16É sacrificado pelo sumo sacerdote e sua casa.Trata da condição ritual de Arão antes de atuar pelo povo.
Bode “para o Senhor”Levítico 16É morto como oferta pelo pecado do povo; seu sangue é levado ao interior do santuário.Purificação do santuário diante das impurezas e pecados de Israel.
Bode “para Azazel”Levítico 16Permanece vivo, recebe a confissão das iniquidades e é enviado ao deserto.Representa o afastamento das culpas da comunidade.
Homem designadoLevítico 16Leva o bode para uma região desabitada.Executa o afastamento físico e simbólico do animal.

O texto diz que o bode vivo “levará sobre si todas as iniquidades deles para uma terra solitária” (Levítico 16). Essa linguagem explica por que, em português, a expressão “bode expiatório” passou a designar alguém que recebe a culpa de outros. Contudo, o uso moderno geralmente tem conotação de injustiça: uma pessoa inocente é responsabilizada por algo que não fez. Essa ideia não corresponde exatamente ao rito levítico, pois o animal não é apresentado como agente moral inocente ou culpado, mas como portador ritual das iniquidades confessadas.

O que o texto bíblico afirma sobre Azazel

O termo Azazel aparece em Levítico 16, especialmente nos versículos 8, 10 e 26, e é uma das palavras mais discutidas do capítulo. O texto hebraico não fornece uma definição explícita. Por isso, é necessário separar o dado bíblico das interpretações que surgiram posteriormente.

O que está registrado em Levítico 16

O relato registra que se lançam sortes: uma para o Senhor e outra para Azazel. O bode destinado a Azazel é apresentado vivo perante o Senhor, “para fazer expiação sobre ele”, e enviado ao deserto para Azazel (Levítico 16). O capítulo não explica se Azazel é uma pessoa, um lugar, um poder espiritual ou uma expressão ligada ao ato de remover o bode.

Principais interpretações tradicionais e acadêmicas

Há pelo menos três leituras principais. A primeira entende Azazel como o nome de uma entidade ligada ao deserto. Essa leitura aparece em tradições judaicas antigas, especialmente em textos posteriores ao Antigo Testamento, como 1 Enoque, onde Azazel é retratado como figura rebelde. Alguns estudiosos consideram que Levítico 16 preserva uma referência desse tipo, embora o capítulo não desenvolva uma narrativa sobre tal ser.

A segunda interpretação considera Azazel um lugar remoto, escarpado ou desolado para onde o bode era enviado. Nessa leitura, a expressão apontaria para o destino do animal, não para uma entidade. A terceira entende o termo como uma formulação relacionada à remoção completa: algo como “bode que vai embora” ou “eliminação”. Essa possibilidade influenciou traduções antigas e modernas.

Não existe consenso definitivo. O que pode ser afirmado com segurança é que Levítico associa Azazel ao bode vivo e ao deserto, enquanto o bode sacrificado é associado diretamente ao Senhor. A natureza exata de Azazel permanece disputada.

Por que algumas traduções dizem “bode expiatório”

A expressão “bode expiatório” tornou-se comum por causa de uma longa história de tradução. Em inglês, a palavra scapegoat foi popularizada na tradução de William Tyndale, no século XVI, como forma abreviada de “escape-goat”, isto é, “bode que escapa” ou “bode enviado embora”. Em português, a expressão consolidou-se como uma tentativa de comunicar a função ritual do animal que levava para longe as culpas do povo.

Mas as traduções não são uniformes. Algumas mantêm “bode emissário”, “bode para Azazel” ou formulações semelhantes. A diferença revela uma questão real de interpretação do hebraico, e não apenas uma preferência de estilo.

Forma de traduzirÊnfase principalQuestão interpretativa
Bode expiatórioO animal ligado à expiação e ao afastamento das culpas.Pode ocultar o termo Azazel e sugerir o sentido moderno de culpa injusta.
Bode emissárioO envio do bode para fora do acampamento.Destaca a ação, mas não define Azazel.
Bode para AzazelPreserva mais literalmente a expressão hebraica.Mantém o problema aberto: não explica quem ou o que é Azazel.
Bode que vai emboraO afastamento ou a remoção do animal.Depende da interpretação de Azazel como termo funcional.

Assim, dizer que o “bode expiatório” era simplesmente um animal sacrificado pelos pecados do povo não é preciso. O bode vivo não era abatido no procedimento descrito em Levítico 16. Já o outro bode, destinado ao Senhor, era sacrificado como oferta pelo pecado. Em tradições posteriores, há descrições de medidas para assegurar que o bode não retornasse, mas isso não está detalhado no texto de Levítico.

O significado do deserto e do afastamento das culpas

Na literatura bíblica, o deserto pode ser um lugar de peregrinação, prova, encontro e também de afastamento da vida organizada do acampamento. Em Levítico 16, a “terra solitária” ou “região desabitada” reforça o movimento de retirada: as iniquidades confessadas são levadas para fora da comunidade.

O rito apresenta, portanto, duas imagens complementares. A primeira é a purificação por meio do sangue do bode sacrificado, aplicado em locais específicos do santuário. A segunda é o transporte simbólico das transgressões para longe. Salmos posteriores empregam imagens semelhantes de afastamento, embora não descrevam o ritual: “Quanto o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta de nós as nossas transgressões” (Salmo 103).

O capítulo também deixa claro que o Dia da Expiação não era tratado como cerimônia comum. Levítico 16 determina descanso solene e humilhação pessoal para a comunidade. Levítico 23 volta ao tema e situa a observância no décimo dia do sétimo mês. Esses textos mostram que o rito tinha dimensão coletiva: não dizia respeito a uma culpa particular atribuída a uma única pessoa, mas às impurezas, rebeliões e pecados de Israel como povo.

Interpretações judaicas e cristãs posteriores

O texto de Levítico deve ser lido primeiro em seu próprio contexto. Depois disso, diferentes tradições religiosas deram sentidos adicionais aos dois bodes. Essas releituras não estão todas explicitamente presentes no capítulo bíblico.

Leituras judaicas

No judaísmo, Levítico 16 está ligado ao Yom Kippur, o Dia da Expiação. A tradição rabínica discutiu detalhadamente a condução do rito, incluindo a forma de levar o bode ao deserto. A Mishná, compilada muitos séculos depois da formação do texto bíblico, registra práticas e debates que não aparecem em Levítico. Ela descreve, por exemplo, o envio do animal a um lugar íngreme. Isso é interpretação e tradição posterior, não uma informação que Levítico 16 apresente de modo explícito.

Também no pensamento judaico existem leituras distintas sobre Azazel. Alguns intérpretes o relacionam a um local; outros, a uma figura associada ao deserto. Não há uma única explicação aceita por todas as correntes judaicas em todos os períodos.

Leituras cristãs

Muitos intérpretes cristãos leem os ritos de Levítico como figuras que apontam para Jesus Cristo. Nessa abordagem, o bode sacrificado e o bode enviado ao deserto podem ser vistos como aspectos complementares da obra de Cristo: morte sacrificial e remoção do pecado. Hebreus 9 e 10 discutem o sacerdócio, o sangue e a insuficiência dos sacrifícios repetidos sob a antiga aliança, relacionando-os ao sacrifício de Cristo.

Entretanto, o Novo Testamento não chama Jesus diretamente de “o bode expiatório” nem oferece uma interpretação detalhada de Azazel. A ligação específica entre Cristo e o bode vivo é uma construção teológica posterior, adotada por parte da tradição cristã. Outros intérpretes cristãos preferem associar o bode para Azazel ao afastamento do pecado ou a forças hostis, sem identificá-lo diretamente com Cristo. A divergência está justamente em saber se os dois animais tipificam a mesma realidade redentora ou se o segundo possui um significado distinto.

O sentido atual da expressão “bode expiatório”

No português contemporâneo, chamar alguém de bode expiatório significa dizer que essa pessoa foi escolhida para receber a culpa por falhas coletivas ou alheias. É comum o termo aparecer em discussões políticas, profissionais e familiares. O uso enfatiza a transferência injusta de responsabilidade.

Há uma relação histórica com Levítico 16, porque ali as culpas são colocadas sobre a cabeça do bode vivo e ele é mandado embora. Porém, existem diferenças decisivas. No ritual bíblico, a transferência é litúrgica e simbólica, feita pelo sumo sacerdote em favor de toda a comunidade. Não se trata de uma investigação humana em que um inocente é falsamente acusado para proteger culpados.

Por isso, a expressão moderna aproveita uma imagem do texto bíblico, mas altera seu foco. Em Levítico, o objetivo é expressar purificação e afastamento do pecado; no uso cotidiano, o foco é denunciar a injustiça de culpar alguém indevidamente.

Perguntas frequentes

O bode expiatório era morto?

Em Levítico 16, o bode destinado a Azazel é enviado vivo ao deserto. O bode sacrificado é o outro, escolhido por sorte “para o Senhor”. Tradições judaicas posteriores descrevem procedimentos para impedir o retorno do bode, mas esse detalhe não é explicado no texto de Levítico.

Azazel é Satanás?

A Bíblia não identifica Azazel explicitamente com Satanás em Levítico 16. Algumas interpretações o entendem como uma entidade do deserto, e textos judaicos posteriores desenvolvem essa possibilidade. Outras leituras o tratam como lugar ou como expressão ligada à remoção. A identificação direta com Satanás é interpretativa e não consenso.

Qual era a diferença entre os dois bodes?

O bode para o Senhor era sacrificado como oferta pelo pecado, e seu sangue participava da purificação ritual do santuário. O bode para Azazel permanecia vivo, recebia a confissão das iniquidades de Israel e era enviado para uma região desabitada, representando o afastamento dessas culpas.

Por que a expressão virou sinônimo de pessoa culpada injustamente?

O sentido popular surgiu da imagem de um bode que recebe sobre si as culpas do povo. Com o tempo, a expressão passou a designar uma pessoa sobre quem se descarrega uma responsabilidade que, de fato, pertence a outros. Esse uso moderno não reproduz integralmente o significado ritual de Levítico 16.

Resumo

  • O bode expiatório aparece no ritual anual do Dia da Expiação em Levítico 16.
  • Havia dois bodes: um era sacrificado para o Senhor, e o outro era enviado vivo ao deserto.
  • O bode vivo recebia simbolicamente as iniquidades confessadas de Israel e representava seu afastamento da comunidade.
  • Azazel é um termo não definido pelo próprio capítulo; as interpretações principais o entendem como entidade, lugar ou expressão de remoção.
  • A associação direta do bode expiatório com Jesus Cristo é uma interpretação cristã posterior, não uma identificação literal feita por Levítico 16.
  • No uso atual, “bode expiatório” costuma indicar uma pessoa culpada injustamente, sentido que difere do ritual bíblico original.

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