O que significa apócrifos na Bíblia e por que os livros variam
Entenda o que significa apócrifos na Bíblia, a origem do termo, quais livros recebe esse nome e as diferenças entre cânones cristãos.
O que significa apócrifos na Bíblia depende da tradição religiosa e do contexto histórico em que a palavra é usada. Em sentido geral, o termo se refere a escritos antigos ligados ao universo bíblico que não são aceitos como parte do cânon por determinados grupos; porém, alguns desses livros são considerados bíblicos por outras tradições cristãs.
O sentido da palavra “apócrifo”
A palavra “apócrifo” vem do grego apókryphos, que pode significar “oculto”, “escondido” ou “mantido em reserva”. Nos primeiros séculos do cristianismo, ela não tinha necessariamente um sentido negativo. Poderia indicar textos destinados a leitores iniciados ou obras cuja circulação era menos pública.
Com o passar do tempo, especialmente nos debates sobre quais escritos deveriam ser lidos como Escritura nas comunidades cristãs, “apócrifo” passou a designar, com frequência, obras que ficavam fora de uma lista reconhecida de livros sagrados. Esse uso, entretanto, não foi uniforme. A mesma obra pode ser chamada de apócrifa por uma comunidade e de deuterocanônica, ou seja, canônica em uma “segunda lista” histórica, por outra.
“Apócrifo” não é uma classificação única e universal. A palavra revela, antes de tudo, que diferentes comunidades definiram de modos distintos os limites de suas coleções sagradas.
Por isso, responder à pergunta exige distinguir três categorias que muitas vezes são confundidas: os livros presentes em algumas Bíblias cristãs e ausentes em outras; os escritos judaicos e cristãos antigos que não integram os cânones principais; e textos que receberam títulos populares, como “Evangelho de Pedro” ou “Evangelho de Tomé”, mas não fazem parte do Novo Testamento.
O que o texto bíblico registra — e o que veio depois
O texto bíblico não apresenta uma lista fechada, completa e única de todos os livros que formam a Bíblia. Nenhum capítulo do Antigo ou do Novo Testamento traz um índice equivalente ao das edições modernas. Há referências a textos conhecidos, usados ou citados, mas não preservados no cânon bíblico atual.
Por exemplo, Números 21 menciona o “Livro das Guerras do Senhor”; Josué 10 e 2 Samuel 1 mencionam o “Livro do Justo”; 1 Reis 14 e 2 Crônicas 9 referem-se a registros e crônicas de profetas e reis. Esses títulos mostram que havia outros documentos em circulação. O fato de serem citados não prova que tenham sido considerados Escritura com a mesma autoridade dos livros bíblicos, mas demonstra que a literatura religiosa e histórica de Israel era mais ampla do que o conjunto preservado.
No Novo Testamento, Judas 1 faz alusão a tradições também encontradas em 1 Enoque e em uma obra conhecida posteriormente como Assunção de Moisés ou Testamento de Moisés. Isso tampouco transforma automaticamente essas obras em livros canônicos. Citar, utilizar uma imagem literária ou recorrer a uma tradição conhecida não equivale, por si só, a estabelecer uma lista oficial de Escrituras.
A definição formal de quais livros pertencem ao cânon é resultado de processos posteriores de reconhecimento, uso litúrgico, debate e decisão comunitária. Esses processos ocorreram ao longo de séculos, tanto no judaísmo quanto nas diversas tradições cristãs. Portanto, a existência de apócrifos é uma questão de história da transmissão dos textos, e não a indicação de que a Bíblia “escondeu” automaticamente livros que deveriam estar nela.
Apócrifos, deuterocanônicos e pseudepígrafos
Os termos não são idênticos. Usá-los com precisão ajuda a evitar confusões.
- Apócrifos: nome amplo aplicado a escritos fora de determinado cânon. Em muitas edições protestantes, também designa especificamente uma coleção de livros do período judaico entre o Antigo e o Novo Testamento.
- Deuterocanônicos: termo empregado sobretudo pela tradição católica para livros do Antigo Testamento recebidos como canônicos, embora sua aceitação tenha sido historicamente debatida em comparação com outros livros.
- Pseudepígrafos: escritos atribuídos a figuras antigas, como Enoque, Abraão, Moisés ou Isaías, embora a autoria histórica seja incerta ou claramente posterior. Muitos deles não pertencem aos cânones bíblicos mais difundidos.
- Apócrifos do Novo Testamento: obras cristãs antigas que tratam de Jesus, dos apóstolos ou de outros personagens do cristianismo primitivo, mas que não foram incluídas no Novo Testamento.
O termo “pseudepígrafo” merece cautela. Na Antiguidade, atribuir uma obra a um personagem venerado podia funcionar como recurso literário para situar uma mensagem em uma tradição, e não necessariamente como fraude entendida nos critérios modernos. Ainda assim, historiadores discutem caso a caso quem escreveu cada texto e quando ele surgiu.
Quais livros são chamados de apócrifos nas Bíblias cristãs?
No uso popular brasileiro, “apócrifos” geralmente aponta para livros que constam em Bíblias católicas, ortodoxas ou em antigas edições protestantes, mas não aparecem na maioria das Bíblias protestantes atuais. Entre os mais conhecidos estão Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 Macabeus, 2 Macabeus e acréscimos a Ester e Daniel.
A tabela mostra por que a nomenclatura pode mudar conforme a tradição. Ela simplifica uma história complexa, mas apresenta a diferença principal entre coleções largamente utilizadas.
| Livro ou seção | Em Bíblias católicas | Na maioria das Bíblias protestantes | Uso do termo mais comum |
|---|---|---|---|
| Tobias | Canônico | Não integra o Antigo Testamento | Deuterocanônico / apócrifo |
| Judite | Canônico | Não integra o Antigo Testamento | Deuterocanônico / apócrifo |
| Sabedoria | Canônico | Não integra o Antigo Testamento | Deuterocanônico / apócrifo |
| Eclesiástico (Sirácida) | Canônico | Não integra o Antigo Testamento | Deuterocanônico / apócrifo |
| 1 e 2 Macabeus | Canônicos | Não integram o Antigo Testamento | Deuterocanônicos / apócrifos |
| 1 Enoque | Não integra o cânon católico | Não integra o cânon protestante | Pseudepígrafo; canônico na Igreja Ortodoxa Etíope |
| Evangelho de Tomé | Não integra o Novo Testamento | Não integra o Novo Testamento | Apócrifo do Novo Testamento |
Há ainda tradições ortodoxas com coleções mais amplas ou organização diferente. Algumas incluem, por exemplo, 3 Macabeus, Salmo 151, 1 Esdras e a Oração de Manassés em suas edições. A Igreja Ortodoxa Etíope possui um cânon particularmente extenso e recebe 1 Enoque e Jubileus, entre outros textos. Logo, não existe uma única lista de “apócrifos” aceita por todo o cristianismo.
Como surgiu a diferença entre os cânones
A questão está ligada, em parte, à língua e à circulação dos textos judaicos antigos. A Septuaginta, tradução grega das Escrituras judaicas produzida ao longo de séculos antes e depois do início da era cristã, transmitiu uma coleção que incluía obras presentes em grego e, em vários manuscritos, textos além dos livros preservados no cânon judaico rabínico posterior.
Os primeiros cristãos de língua grega utilizaram amplamente as Escrituras em grego. Muitas citações do Antigo Testamento encontradas no Novo Testamento se aproximam da redação da Septuaginta, embora a relação entre cada citação e cada forma textual seja complexa. A presença e o uso desses livros entre cristãos antigos ajudaram a formar a tradição que, mais tarde, a Igreja Católica chamaria de deuterocanônica.
Na tradição judaica, o conjunto de livros em hebraico e aramaico que corresponde, em conteúdo, aos 39 livros do Antigo Testamento protestante consolidou-se como referência. A ordem e a divisão dos livros, porém, são diferentes: os 24 livros do Tanakh judaico equivalem em conteúdo aos 39 livros protestantes, porque Samuel, Reis, Crônicas e os chamados profetas menores são agrupados de outra forma.
Na Reforma do século XVI, reformadores como Martinho Lutero mantiveram os livros adicionais em seções separadas de algumas Bíblias, considerando-os úteis para leitura, mas não iguais às Escrituras do cânon hebraico. Posteriormente, muitas edições protestantes deixaram de imprimi-los. A Confissão de Fé de Westminster, de 1646, por exemplo, classificou os apócrifos como escritos humanos, sem autoridade normativa para a igreja.
Do outro lado, o Concílio de Trento, em 1546, definiu para a Igreja Católica a lista que inclui os deuterocanônicos. Esse concílio não “criou” tais livros, pois eles já eram usados em tradições cristãs anteriores; ele formalizou sua recepção como parte do cânon em resposta a disputas daquele período.
Uma divergência importante: Jamnia decidiu o cânon?
Durante muito tempo, obras populares afirmaram que um suposto “Concílio de Jamnia”, por volta do fim do século I, teria fechado definitivamente o cânon judaico e excluído os deuterocanônicos. Essa explicação é hoje considerada excessivamente simplificada por muitos pesquisadores.
Há evidências de debates rabínicos em Yavne, também chamada Jamnia, mas não existe prova clara de uma reunião formal que tenha estabelecido, de uma vez por todas, uma lista fixa de livros equivalente ao cânon posterior. A consolidação do cânon judaico foi gradual. Portanto, é impreciso atribuir a um único concílio a solução completa da questão.
Os apócrifos ajudam a entender a história bíblica?
Mesmo quando não são recebidos como Escritura por determinada tradição, vários textos chamados de apócrifos têm valor histórico e literário. 1 Macabeus, por exemplo, é uma fonte relevante sobre a revolta dos macabeus contra o domínio selêucida no século II a.C. Esse período ajuda a contextualizar grupos, instituições e tensões políticas presentes no cenário do Novo Testamento.
2 Macabeus narra parte do mesmo período sob outra perspectiva e contém passagens frequentemente discutidas em debates teológicos, como 2 Macabeus 12, que descreve uma oferta em favor de mortos após uma batalha. O texto existe e afirma isso de maneira explícita; a divergência está em sua autoridade canônica e nas conclusões doutrinárias que cada tradição considera legítimas a partir dele.
O Eclesiástico reúne ensinamentos sapienciais e foi escrito originalmente em hebraico por Jesus ben Sira, segundo o prólogo grego feito por seu neto. Fragmentos hebraicos foram encontrados, entre outros lugares, na Geniza do Cairo e em Qumran. Isso corrige uma ideia comum: estar ausente do cânon judaico posterior não significa que um livro fosse desconhecido em hebraico ou inteiramente estranho ao judaísmo antigo.
Já os evangelhos apócrifos apresentam outro conjunto de questões. Alguns, como o Evangelho de Tomé, provavelmente preservam tradições antigas em meio a composições posteriores; outros são bem mais tardios e desenvolvem episódios não narrados pelos quatro Evangelhos canônicos. Não há consenso acadêmico de que tais obras transmitam material historicamente mais confiável sobre Jesus do que Mateus, Marcos, Lucas e João. Cada documento precisa ser analisado conforme sua data, seu gênero, suas fontes e sua transmissão.
Erros comuns sobre os livros apócrifos
O debate costuma ser prejudicado por afirmações absolutas. Algumas delas precisam ser qualificadas.
- “Os apócrifos foram retirados da Bíblia.” Isso é parcialmente verdadeiro apenas se for especificado de qual edição e de qual tradição se fala. Muitas Bíblias protestantes antigas os imprimiam em uma seção própria; Bíblias católicas não os retiraram, pois os mantêm no Antigo Testamento.
- “Os apócrifos sempre foram proibidos.” Não. Muitos circularam, foram copiados e lidos por judeus e cristãos. A questão principal é se foram ou não reconhecidos como Escritura normativa.
- “Todos os apócrifos ensinam a mesma coisa.” Não. Trata-se de uma biblioteca heterogênea, com narrativas, provérbios, visões, orações, textos históricos e evangelhos de épocas distintas.
- “Todo texto antigo excluído prova uma censura.” Não há base para essa conclusão automática. Comunidades antigas discutiram autoria, antiguidade, uso amplo, coerência doutrinária e ligação com profetas ou apóstolos ao reconhecer seus textos.
Também é inadequado tratar “apócrifo” como sinônimo de falso. Um texto pode ser historicamente valioso, preservar uma tradição antiga ou informar sobre práticas religiosas de seu tempo e, ainda assim, não pertencer ao cânon de uma comunidade. Canonicidade e valor histórico são questões relacionadas, mas não idênticas.
Perguntas frequentes
Apócrifo significa que o livro é falso?
Não necessariamente. Em debates bíblicos, “apócrifo” geralmente significa que o livro não pertence ao cânon adotado por uma tradição específica. A expressão não resolve, por si só, questões de autoria, data, valor literário ou interesse histórico.
Quantos livros apócrifos existem?
Não existe um número único, pois o termo cobre coleções diferentes. Se a referência for aos livros adicionais presentes na Bíblia Católica em relação à maioria das Bíblias protestantes, costumam ser citados sete livros e acréscimos a Ester e Daniel. Se forem incluídos os pseudepígrafos e os apócrifos cristãos, o número é muito maior.
Os apócrifos aparecem em manuscritos antigos?
Sim. Vários aparecem em manuscritos antigos da Septuaginta e em códices cristãos. Outros foram preservados em cópias posteriores, traduções antigas ou achados arqueológicos. A presença em um manuscrito, porém, não demonstra sozinha que todas as comunidades o consideravam canônico.
Judas cita um livro apócrifo?
Judas 1, especialmente nos versículos 9 e 14-15, apresenta tradições paralelas às encontradas em obras fora do cânon, como 1 Enoque. O texto de Judas usa esse material, mas não declara formalmente que todo o livro de 1 Enoque deva integrar as Escrituras. As tradições cristãs divergem sobre as implicações dessa citação.
Resumo
- Apócrifos são escritos antigos considerados fora do cânon por determinada tradição, mas a palavra não tem uma aplicação universal única.
- Na tradição católica, vários livros chamados de apócrifos por protestantes são denominados deuterocanônicos e integram o Antigo Testamento.
- O texto bíblico não fornece um índice final de todos os livros da Bíblia; a formação dos cânones foi histórica e gradual.
- Há diferenças reais entre os cânones católico, protestante e ortodoxo, além de particularidades importantes no cânon etíope.
- Um livro não canônico pode ter importância histórica sem que isso determine sua autoridade religiosa para todas as comunidades.