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O que a Bíblia chama de murmuração e por que ela é criticada?

Entenda o que significa murmuração na Bíblia, seus sentidos no Antigo e Novo Testamento, exemplos e interpretações das passagens.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
O que significa murmuração na Bíblia? Contexto e exemplos
Pergaminho aberto ao lado de pedras em uma paisagem árida, evocando os relatos do deserto.
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O que significa murmuração na Bíblia? Em geral, a palavra descreve queixas, reclamações ou protestos feitos em tom de descontentamento, especialmente nos relatos em que Israel contesta Deus e seus líderes durante a travessia do deserto. O sentido, porém, varia conforme a passagem e não equivale automaticamente a toda expressão de sofrimento ou dúvida.

O sentido básico de murmuração nos textos bíblicos

Na linguagem bíblica em português, “murmuração” costuma traduzir termos que indicam reclamar, resmungar, contestar ou falar contra alguém. O uso mais conhecido aparece no Antigo Testamento, sobretudo em Êxodo, Números e Deuteronômio, nos episódios posteriores à saída do Egito. Nesses relatos, o povo expressa insatisfação diante da fome, da sede, do medo de inimigos e das dificuldades do caminho.

O texto bíblico registra que essas queixas eram dirigidas a Moisés e Arão, mas também afirma que, em última análise, representavam uma contestação contra o próprio Deus. Em Êxodo 16, quando o povo reclama da falta de alimento, Moisés declara:

“As vossas murmurações não são contra nós, e sim contra o Senhor” (Êxodo 16).

Essa formulação ajuda a explicar por que a murmuração recebe avaliação negativa em diversos textos: não se trata apenas de informar uma necessidade real, como fome ou sede, mas de reagir à crise com acusação, hostilidade ou desconfiança em relação à condução divina narrada pelo texto.

É importante fazer uma distinção. A Bíblia também contém lamentos intensos, perguntas e protestos dirigidos a Deus, especialmente nos Salmos, em Jó, em Habacuque e em Lamentações. Esses textos não usam todos a mesma linguagem nem recebem a mesma avaliação literária e teológica dada à murmuração no deserto. Portanto, identificar qualquer oração de dor como “murmuração” simplifica em excesso o vocabulário e os gêneros bíblicos.

Murmuração de Israel no deserto: os episódios centrais

Os principais episódios de murmuração se concentram no período entre a saída do Egito e a entrada na terra prometida. O Pentateuco apresenta uma sequência de crises em que o povo enfrenta necessidades concretas, reclama contra os líderes e, repetidamente, relembra o Egito de forma idealizada.

Em Êxodo 15, logo após a travessia do mar, o povo encontra águas impróprias para beber em Mara e reclama contra Moisés. Em Êxodo 16, a falta de comida produz a lembrança das “panelas de carne” do Egito; a narrativa, então, introduz o maná. Em Êxodo 17, a escassez de água em Refidim leva a novo confronto com Moisés, e o lugar recebe os nomes Massá e Meribá, ligados a “prova” e “contenda” no relato.

Números amplia esse tema. Em Números 11, há queixa pelas adversidades e desejo por alimentos associados ao Egito. Em Números 14, após o relatório dos espias sobre Canaã, a comunidade chora, deseja voltar ao Egito e se opõe a Moisés e Arão. Esse capítulo é decisivo porque relaciona a reação do povo à recusa em confiar na promessa de entrada na terra.

Já Números 16 descreve a revolta de Corá, Datã e Abirão contra Moisés e Arão. Depois do desfecho dessa rebelião, o texto afirma que a comunidade voltou a murmurar contra Moisés e Arão, acusando-os de terem causado mortes entre o povo. O caso associa murmuração a uma disputa explícita sobre autoridade e liderança.

Passagem Situação narrada Alvo imediato da queixa Resposta registrada no texto
Êxodo 15 Águas amargas em Mara Moisés Deus mostra como as águas se tornam potáveis
Êxodo 16 Falta de alimento no deserto Moisés e Arão Envio de codornizes e maná
Êxodo 17 Falta de água em Refidim Moisés Água é provida da rocha
Números 14 Medo diante da entrada em Canaã Moisés, Arão e a proposta de conquista A geração é impedida de entrar na terra, segundo a narrativa
Números 16 Conflito após a revolta de Corá Moisés e Arão Praga e intercessão de Arão encerram a crise

O que o texto bíblico afirma e o que é interpretação posterior

O texto bíblico afirma que Israel reclamou repetidas vezes durante a jornada, que essas reclamações foram endereçadas a Moisés e Arão e que Deus as avaliou como falta de confiança, rebelião ou teste indevido em contextos específicos. Números 14 é especialmente claro ao conectar a queixa à recusa em confiar no Deus que, segundo o próprio relato, havia libertado o povo do Egito.

Também é dado textual que as necessidades mencionadas não são imaginárias. Havia fome, sede, deslocamento em ambiente árido, insegurança e temor. O texto não nega essas circunstâncias; a crítica narrativa recai sobre a maneira como a comunidade responde a elas, sobre o desejo de retornar à escravidão egípcia e sobre a rejeição da liderança apresentada como legitimada por Deus.

Já algumas conclusões comuns pertencem à interpretação posterior e devem ser identificadas como tal. Por exemplo, a ideia de que toda reclamação cotidiana é pecado de murmuração é uma aplicação religiosa difundida, mas não é uma definição formulada dessa maneira em um único versículo. Da mesma forma, a afirmação de que murmurar sempre provoca uma punição imediata é uma generalização: os relatos do deserto contêm respostas variadas, incluindo provisão de alimento e água, advertências, juízos e intercessão.

Outra interpretação frequente entende os eventos do deserto como modelo universal de comportamento comunitário. Essa leitura se apoia em releituras posteriores, sobretudo em 1 Coríntios 10, mas vai além da descrição histórica e literária dos episódios em Êxodo e Números. É uma leitura teológica tradicional, não uma informação neutra que o texto histórico permita verificar de forma independente.

Murmuração, lamento e questionamento: não são exatamente a mesma coisa

A diferença entre murmuração e lamento é importante para uma leitura precisa. Nos Salmos, há orações que perguntam “até quando?”, descrevem abandono, pedem justiça e expressam medo. O Salmo 13, por exemplo, começa com uma queixa direta sobre a ausência percebida de Deus. O Salmo 88 termina em tom sombrio, sem a resolução positiva presente em muitos outros salmos.

Jó também questiona sua condição e deseja apresentar sua causa diante de Deus, especialmente em Jó 23. Habacuque pergunta por que a violência e a injustiça persistem em Habacuque 1. Esses textos mostram que a Bíblia preserva vozes de perplexidade e dor, não apenas declarações de conformidade.

A principal diferença, segundo uma leitura literária comum, está no contexto e na direção do discurso. O lamento bíblico frequentemente é uma fala dirigida a Deus, que apresenta sofrimento e pede resposta. A murmuração do deserto, por sua vez, é retratada como fala da comunidade contra seus líderes e contra o propósito da libertação, acompanhada de acusações e nostalgia do Egito.

Contudo, a fronteira não é matemática. Os termos hebraicos e gregos possuem campos de sentido amplos, e cada passagem precisa ser lida no seu próprio contexto. Não existe uma regra linguística simples pela qual toda queixa dirigida a pessoas seja murmuração e toda queixa dirigida a Deus seja lamento. A avaliação depende da narrativa, do vocabulário e da função do episódio.

Como o Novo Testamento usa o tema

O Novo Testamento retoma a memória do deserto como advertência e como referência interpretativa. Em 1 Coríntios 10, Paulo relembra acontecimentos ligados à travessia de Israel e afirma que eles servem de exemplo. No versículo 10, ele menciona que não se deve “murmurar”, em referência a episódios da tradição do deserto.

Filipenses 2 traz outro emprego muito citado: “Fazei tudo sem murmurações nem contendas” (Filipenses 2). Nesse contexto, a exortação aparece em uma seção sobre conduta coletiva, humildade e testemunho no mundo. O texto não oferece uma lista de situações específicas que constituiriam murmuração; ele contrapõe esse comportamento à convivência sem disputas destrutivas.

Em João 6, o verbo traduzido por “murmurar” descreve a reação de alguns judeus ao ensinamento de Jesus, quando questionam sua origem e suas palavras. O termo, nesse caso, não se refere ao acampamento de Israel no deserto, embora o capítulo dialogue amplamente com o tema do maná. Trata-se de contestação e debate em torno da identidade de Jesus.

Há uma divergência entre intérpretes sobre a força dessas referências. Muitos comentaristas veem uma ligação deliberada entre Filipenses 2 e a história de Israel, pois o texto fala de viver “sem murmurações” e de brilhar em meio a uma geração corrompida, linguagem que pode lembrar Deuteronômio 32. Outros consideram a alusão possível, mas não conclusiva, sustentando que “murmurações” e “contendas” também eram termos correntes para conflitos comunitários. O texto não declara explicitamente: “Paulo está citando Números”; por isso, a relação é interpretativa e debatida.

Palavras originais e limites das traduções

No Antigo Testamento, um dos verbos associados ao tema é lun, empregado em narrativas do deserto para a ação de reclamar ou resmungar. Em algumas ocorrências, as traduções portuguesas usam “murmurar”; em outras, preferem “queixar-se” ou “reclamar”. A escolha varia conforme a edição bíblica e sua filosofia de tradução.

No Novo Testamento, aparecem termos gregos da família de gongyzō e gongysmos, frequentemente traduzidos por “murmurar” e “murmuração”. Eles podem comunicar resmungo, reclamação em voz baixa, descontentamento ou protesto coletivo. O vocabulário não contém, por si só, uma definição moderna fechada de fofoca, pessimismo ou crítica.

Por isso, convém evitar conclusões baseadas apenas em uma palavra de tradução. “Murmuração” é uma escolha tradicional e expressiva no português religioso, mas o significado concreto vem do contexto: quem fala, contra quem fala, qual é o problema, como a narrativa avalia a fala e qual consequência é apresentada.

Por que a murmuração é tratada com tanta gravidade?

Dentro da narrativa do Êxodo e de Números, a gravidade da murmuração está ligada à memória da libertação. O povo que reclama é o mesmo povo que, segundo o relato, viu sinais no Egito, atravessou o mar e recebeu provisão no deserto. Assim, a repetição das queixas funciona como recurso narrativo para mostrar a fragilidade da confiança da comunidade.

Além disso, alguns episódios envolvem mais do que desabafo. Em Números 14, a população cogita constituir outro líder para voltar ao Egito. Em Números 16, o conflito questiona diretamente o lugar de Moisés e Arão. Nesses casos, a murmuração se aproxima de rebelião política e religiosa dentro da própria comunidade israelita.

Leituras judaicas e cristãs tradicionais geralmente entendem esses textos como advertência contra a ingratidão e a desconfiança. Elas divergem, porém, na extensão prática dessa advertência. Algumas enfatizam a submissão à liderança; outras ressaltam que a Bíblia não proíbe crítica responsável, pois profetas como Natã, Elias, Amós e Jeremias confrontaram reis, sacerdotes e o próprio povo. Esses confrontos proféticos não são apresentados simplesmente como murmuração, mas como denúncia baseada em uma mensagem atribuída a Deus.

Portanto, o uso bíblico do termo não permite equiparar, sem análise, questionamento ético, denúncia de injustiça, pedido de socorro e resistência a abusos com os episódios narrados no deserto. São situações literárias e históricas distintas.

Perguntas frequentes

Murmuração na Bíblia é o mesmo que reclamar?

Em muitas traduções, “murmuração” pode ser entendida como reclamar ou resmungar. Mas, nos principais relatos bíblicos, o termo carrega um sentido mais específico de protesto persistente, desconfiança e contestação contra Deus ou contra líderes ligados à ação divina na narrativa. Nem toda reclamação comum recebe essa classificação.

Qual é o principal exemplo de murmuração na Bíblia?

Os episódios do deserto após a saída do Egito são os exemplos principais, especialmente Êxodo 16 e Números 14. Em Êxodo 16, o povo reclama pela comida; em Números 14, reage com medo ao relato sobre Canaã e expressa desejo de retornar ao Egito.

Os Salmos de queixa são murmuração?

Não necessariamente. Os Salmos incluem lamentos e protestos que são preservados como oração. Embora haja linguagem de dor e questionamento, o gênero do lamento tem características próprias. A Bíblia não trata automaticamente toda queixa dirigida a Deus como equivalente à murmuração de Israel no deserto.

Filipenses 2 fala sobre os mesmos acontecimentos de Números?

Filipenses 2, especialmente o versículo 14, usa o vocabulário de murmurações e contendas. Muitos intérpretes percebem uma possível alusão à história de Israel no deserto, mas essa ligação não é afirmada de modo explícito no texto e continua sendo uma questão interpretativa.

Resumo

  • Na Bíblia, murmuração normalmente significa queixa, resmungo ou protesto marcado por descontentamento.
  • Os exemplos mais importantes estão em Êxodo e Números, durante a caminhada de Israel pelo deserto.
  • O texto bíblico reconhece fome, sede e medo, mas critica a resposta de desconfiança, acusação e desejo de voltar ao Egito.
  • Murmuração não é sinônimo automático de lamento, dúvida, pedido de ajuda ou denúncia de injustiça.
  • O Novo Testamento retoma o tema em passagens como 1 Coríntios 10, Filipenses 2 e João 6.
  • Aplicações que condenam toda crítica como murmuração são interpretações posteriores e precisam ser examinadas à luz do contexto de cada passagem.

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