O que significa targum na Bíblia e por que esses textos importam
Entenda o que significa targum na Bíblia, sua origem aramaica, seu uso nas sinagogas e como ele ajuda a ler o Antigo Testamento.
O que significa targum na Bíblia? Targum é o nome dado a traduções e explicações em aramaico das Escrituras Hebraicas, usadas sobretudo quando o aramaico se tornou mais compreensível que o hebraico para parte da população judaica. Esses textos não fazem parte da Bíblia hebraica, mas são fontes importantes para conhecer sua recepção antiga.
O sentido da palavra targum
A palavra targum vem de uma raiz semítica associada a “traduzir” ou “interpretar”. Em seu uso histórico mais conhecido, ela designa uma tradução para o aramaico de livros do que os cristãos costumam chamar de Antigo Testamento. O plural hebraico é targumim.
É importante observar que um targum não corresponde, em geral, a uma tradução moderna feita com o objetivo de reproduzir frase por frase o texto de partida. Muitos targumim traduzem, mas também esclarecem expressões, identificam personagens, resumem ambiguidades e, em alguns casos, desenvolvem interpretações religiosas presentes nas tradições judaicas de seu tempo.
Em sentido amplo, targum é uma tradução interpretativa das Escrituras para o aramaico; em sentido histórico, é o conjunto de versões aramaicas judaicas preservadas de vários livros bíblicos.
Por isso, ao encontrar a expressão “o targum diz”, é preciso perguntar qual targum está em vista. Não existe um único livro chamado Targum, nem todos os targumim foram escritos no mesmo lugar, na mesma época ou com o mesmo grau de liberdade interpretativa.
Por que a tradução para o aramaico se tornou necessária
O hebraico era a principal língua das Escrituras de Israel, embora partes de livros bíblicos estejam em aramaico, como Esdras 4–6, Esdras 7 e Daniel 2–7. Após os períodos assírio, babilônico e persa, o aramaico ganhou ampla circulação no Oriente Próximo. Ele passou a ser usado na administração, no comércio e em muitas comunidades judaicas.
O texto bíblico registra um episódio frequentemente relacionado, por analogia, à necessidade de explicação pública da Lei. Em Neemias 8, Esdras lê o livro da Lei diante do povo, e levitas ajudam os ouvintes a compreender a leitura. O capítulo afirma que eles “explicavam o sentido” para que o povo entendesse o que era lido (Neemias 8). Contudo, Neemias 8 não usa a palavra targum nem afirma que a explicação foi uma tradução aramaica. Essa associação é uma interpretação posterior, baseada no contexto linguístico e na prática sinagogal conhecida por outras fontes.
Também no Novo Testamento aparecem palavras aramaicas preservadas em narrativas gregas, como “Talita cumi” em Marcos 5 e “Eloí, Eloí, lemá sabactâni?” em Marcos 15. Esses exemplos mostram a presença do aramaico no ambiente da Palestina do primeiro século, mas não provam por si mesmos que os targumim hoje conhecidos já circulassem em sua forma final naquele período.
Da leitura pública à transmissão escrita
A tradição judaica posterior descreve a leitura da Torá acompanhada de uma interpretação oral em aramaico na sinagoga. O intérprete era chamado de meturgeman. Segundo regras rabínicas preservadas no Talmude, ele não deveria simplesmente ler sua explicação em um rolo, mas transmiti-la oralmente. Isso ajuda a explicar por que a origem dos targumim é normalmente ligada a uma longa fase oral, antes de sua fixação por escrito.
Os estudiosos divergem sobre datas e processos. Há evidência de versões aramaicas ou de atividade tradutória em épocas antigas, mas a datação dos textos targúmicos preservados é complexa. A forma final de muitos deles costuma ser situada entre os primeiros séculos da Era Comum e o início da Idade Média, ainda que possam incorporar tradições bem mais antigas.
O que o texto bíblico registra e o que vem da tradição posterior
Uma distinção cuidadosa evita atribuir à própria Bíblia informações que pertencem a fontes posteriores. A Bíblia hebraica contém trechos em aramaico e descreve leituras e explicações da Lei, mas não apresenta uma coleção identificada como “Targum Onkelos”, “Targum Jônatas” ou “Targum Pseudo-Jônatas”. Esses nomes pertencem à história posterior da interpretação judaica.
| Questão | O que as passagens bíblicas dizem | O que fontes e tradições posteriores acrescentam |
|---|---|---|
| Língua aramaica | Esdras 4–6 e 7; Daniel 2–7 contêm seções escritas em aramaico. | O aramaico tornou-se uma língua de explicação litúrgica em comunidades judaicas. |
| Compreensão da leitura | Neemias 8 relata leitura da Lei e explicação de seu sentido. | Algumas leituras relacionam esse quadro à prática que originou o targum oral. |
| Targumim específicos | A Bíblia não cita Targum Onkelos nem Targum Jônatas. | Tradições rabínicas e manuscritos identificam coleções aramaicas com esses nomes. |
| Uso no século I | Marcos 5 e Marcos 15 preservam expressões aramaicas. | Pesquisadores discutem quanto dos targumim preservados reflete tradições anteriores ou posteriores a esse período. |
Assim, afirmar que “Jesus lia determinado targum” ou que “Esdras criou os targumim” vai além do que os textos bíblicos dizem. Podem existir hipóteses históricas e argumentos acadêmicos para discutir tais possibilidades, mas elas não são dados explícitos da Escritura.
Principais targumim e os livros que abrangem
Os targumim não têm todos a mesma extensão nem a mesma importância na tradição manuscrita. Os mais conhecidos estão ligados ao Pentateuco, aos Profetas e, em diversos casos, aos Escritos. Alguns são mais literais; outros apresentam amplificações extensas.
Targum Onkelos
O Targum Onkelos é a versão aramaica do Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Em comparação com outros targumim palestinos, costuma ser relativamente contido e próximo do texto hebraico, embora também interprete. Ele foi especialmente valorizado no judaísmo babilônico e tornou-se um texto tradicionalmente associado ao estudo semanal da Torá.
O nome “Onkelos” foi ligado por tradições rabínicas a um convertido romano. Essa identificação e a biografia transmitida sobre ele pertencem à tradição posterior; a autoria individual do targum, tal como hoje se conhece, não é um fato historicamente demonstrado.
Targum de Jônatas
O chamado Targum de Jônatas abrange os Profetas Anteriores e Posteriores na organização judaica: Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze Profetas. Apesar do nome, ele não é uma obra composta diretamente pelo apóstolo João nem pelo pai de João Batista, e tampouco sua autoria por Jônatas ben Uziel pode ser estabelecida com segurança histórica.
Em geral, essa versão apresenta uma tradução aramaica acompanhada de esclarecimentos interpretativos. Pode explicitar referências geográficas, tornar mais direta uma identificação histórica ou formular ideias teológicas com linguagem mais desenvolvida que a do hebraico bíblico.
Targum Pseudo-Jônatas e targumim palestinos
Para o Pentateuco existem outras versões, frequentemente reunidas sob a designação de targumim palestinos. O Targum Pseudo-Jônatas é conhecido por expansões narrativas e comentários mais amplos. Ele recebeu esse nome porque no passado foi indevidamente associado a Jônatas; hoje, “Pseudo-Jônatas” deixa claro que essa atribuição é considerada equivocada.
Há ainda o Targum Neofiti, preservado em um manuscrito importante, e materiais fragmentários chamados de Targum Fragmentário. A relação exata entre eles, suas fontes e suas datas é debatida. Portanto, não há consenso completo sobre uma sequência simples de origem, como se todos derivassem de uma única versão inicial.
Como os targumim interpretam o texto bíblico
Os targumim podem conservar uma tradução muito próxima do hebraico em certos versículos e, em outros, acrescentar explicações. Essas intervenções não devem ser tratadas automaticamente como alterações arbitrárias: elas refletem maneiras antigas de ler passagens que exigiam esclarecimento para ouvintes aramaicófonos.
Um traço frequente é a preocupação em evitar descrições excessivamente corporais de Deus. Onde o hebraico usa imagens humanas, alguns targumim podem falar da “glória”, da “Palavra” ou da “presença” de Deus. Essas escolhas são interpretativas e variam de acordo com o texto. Não é correto transformar cada uma delas em uma doutrina uniforme ou supor que todas tenham o mesmo sentido técnico.
Outro traço é a explicitação de elementos que o texto hebraico deixa implícitos. Uma promessa pode ser relacionada ao reino futuro, uma expressão geográfica pode receber identificação mais compreensível ao leitor posterior, ou uma narrativa pode incorporar tradições interpretativas. Por exemplo, certas versões targúmicas de passagens do Pentateuco ampliam histórias de Gênesis e Êxodo com detalhes ausentes do texto hebraico.
Tradução, comentário ou reescrita?
As classificações variam. Alguns pesquisadores destacam que o targum é essencialmente uma tradução para uso comunitário; outros ressaltam que ele funciona também como comentário. As duas observações são compatíveis, desde que se reconheça a diversidade dos documentos. O Onkelos tende a parecer mais literal em muitas passagens, enquanto o Pseudo-Jônatas é mais expansivo.
A divergência está no grau em que se deve chamar essas expansões de “comentário”. Uma leitura mais restrita reserva o termo para notas externas ao texto; uma leitura mais ampla entende a própria tradução interpretativa como comentário incorporado. Em ambos os casos, o ponto central permanece: o targum não é idêntico ao texto hebraico que traduz.
Os targumim fazem parte da Bíblia?
Não, os targumim não fazem parte do cânon da Bíblia hebraica nem do cânon usual das Bíblias cristãs. Eles são traduções e interpretações judaicas antigas de livros bíblicos. Isso não diminui seu valor histórico, linguístico e interpretativo, mas define corretamente sua posição.
O texto-base do Antigo Testamento em traduções modernas costuma ser o texto hebraico massorético, comparado quando necessário com outras testemunhas antigas, como os manuscritos do Mar Morto, a Septuaginta grega, o Pentateuco Samaritano e versões antigas. Os targumim entram nessa conversa como testemunhas relevantes da recepção do texto e, em alguns casos, de tradições textuais ou interpretativas antigas.
Entretanto, eles não devem ser usados sem atenção ao seu contexto. Quando um targum oferece um detalhe inexistente em Gênesis, Isaías ou outro livro, esse detalhe não pode ser apresentado como se estivesse no texto bíblico hebraico. Ele deve ser identificado como uma expansão targúmica ou uma interpretação judaica posterior.
Qual é a importância dos targumim para o estudo bíblico
Os targumim ajudam a responder como comunidades judaicas entendiam palavras, promessas, leis e narrativas bíblicas em diferentes períodos. Eles também iluminam a transição entre o hebraico bíblico e o aramaico, além de preservarem vocabulário e formas de interpretação relevantes para o estudo do judaísmo antigo.
Para leitores cristãos, eles podem ser úteis na comparação com o ambiente linguístico e interpretativo do Novo Testamento. Mas é necessário evitar simplificações. A presença de uma ideia semelhante em um targum e no Novo Testamento não prova dependência direta. Pode haver herança comum, desenvolvimento paralelo, contato indireto ou mera semelhança de linguagem. Cada caso exige análise de data, idioma, manuscritos e contexto.
Também é inadequado dizer que os targumim revelam o “sentido oculto” definitivo de toda passagem bíblica. Eles revelam, antes, como certos intérpretes e comunidades traduziram e explicaram as Escrituras. Seu valor está justamente em serem testemunhas históricas de leitura, não em substituírem o texto bíblico.
Perguntas frequentes
Targum é uma tradução da Bíblia inteira?
Não existe um único targum que corresponda, de forma simples, a uma tradução completa de toda a Bíblia. Há targumim de vários conjuntos de livros, especialmente da Torá e dos Profetas, além de versões aramaicas de parte dos Escritos. A cobertura e o estilo variam conforme a obra.
O Targum Onkelos foi escrito por uma única pessoa?
Não há comprovação histórica de autoria individual. O nome Onkelos é tradicional, mas o texto provavelmente resultou de transmissão e edição ao longo do tempo. A tradição que o associa a uma pessoa específica deve ser distinguida daquilo que a pesquisa histórica consegue demonstrar.
Os targumim existiam no tempo de Jesus?
Havia uso do aramaico e provavelmente tradições orais de tradução e explicação das Escrituras antes e durante o primeiro século. Porém, a data exata da forma escrita final dos targumim preservados é discutida. Não é possível afirmar, sem qualificação, que as versões atuais já existiam integralmente naquele tempo.
Targum e Septuaginta são a mesma coisa?
Não. A Septuaginta é uma coleção de traduções gregas das Escrituras Hebraicas, enquanto os targumim são versões aramaicas judaicas. Ambas são importantes para o estudo do texto bíblico, mas surgiram em contextos linguísticos, históricos e interpretativos distintos.
Resumo
- Targum significa, em geral, tradução ou interpretação aramaica das Escrituras Hebraicas.
- Os targumim surgiram em um contexto no qual o aramaico era amplamente compreendido por comunidades judaicas.
- Neemias 8 registra explicação da Lei, mas não menciona explicitamente um targum.
- Entre os textos mais conhecidos estão o Targum Onkelos, sobre o Pentateuco, e o Targum de Jônatas, sobre os Profetas.
- Essas obras não pertencem ao cânon bíblico; são fontes antigas para estudar tradução, linguagem e interpretação judaica.
- Suas datas, autores e relações com tradições anteriores são, em vários casos, assuntos debatidos.