Onde fica Samaria na Bíblia e por que essa região é importante?
Onde fica Samaria na Bíblia? Entenda sua localização entre Judeia e Galileia, sua história e o papel dos samaritanos nos Evangelhos.
Onde fica Samaria na Bíblia? Samaria ficava na região montanhosa central da antiga terra de Israel, entre a Judeia, ao sul, e a Galileia, ao norte. O nome pode designar tanto uma cidade específica quanto uma região e, em certos textos, o antigo Reino do Norte.
Samaria: cidade, região e reino
Para localizar Samaria corretamente nos relatos bíblicos, é preciso distinguir os sentidos que a palavra recebe. Em algumas passagens, ela é a cidade de Samaria, fundada como capital do Reino de Israel. Em outras, é a região de Samaria, situada no interior montanhoso da Palestina histórica. Há ainda textos em que “Samaria” funciona como uma referência ao próprio Reino do Norte, em contraste com Judá, cuja capital era Jerusalém.
Geograficamente, a região samaritana correspondia aproximadamente à área entre a Judeia e a Galileia. Ao sul, estava a Judeia, incluindo Jerusalém e Belém; ao norte, a Galileia, onde ficavam Nazaré, Caná e Cafarnaum. A leste havia o vale do Jordão, e a oeste a planície costeira mediterrânea. Sua paisagem era formada por colinas, vales férteis e caminhos que conectavam importantes centros urbanos.
Na divisão administrativa moderna, grande parte desse território se encontra na Cisjordânia, especialmente nas áreas próximas de Nablus, a antiga Siquém. Essa identificação geográfica contemporânea ajuda a situar o leitor, mas não deve ser confundida automaticamente com todas as fronteiras políticas e administrativas do período bíblico, que mudaram muitas vezes.
Como a cidade de Samaria foi fundada
O relato mais direto sobre a origem da cidade aparece em 1 Reis 16. Onri, rei de Israel, comprou de Semer um monte por dois talentos de prata, construiu ali uma cidade e deu a ela o nome de Samaria, em referência ao antigo proprietário do lugar. A cidade passou a ser a capital do Reino do Norte.
“Comprou Onri de Semer o monte de Samaria por dois talentos de prata; e edificou no monte e chamou o nome da cidade que edificou Samaria, do nome de Semer, dono do monte.” (1 Reis 16)
O texto bíblico registra, portanto, uma fundação associada ao reinado de Onri. Seu filho Acabe governou a partir dessa capital, e o local aparece nos episódios envolvendo o profeta Elias, o culto a Baal e os conflitos com os arameus, especialmente em 1 Reis 17–22.
A escolha do monte tinha importância estratégica. Cidades erguidas em elevações eram mais fáceis de defender e ofereciam boa visibilidade sobre os arredores. Além disso, a área possuía acesso a rotas internas da região central. Escavações arqueológicas identificaram no sítio tradicionalmente associado à antiga Samaria vestígios de edificações de diferentes épocas, incluindo fases israelitas, assírias, helenísticas, romanas e posteriores.
É necessário, porém, separar o que cada fonte afirma. O texto bíblico informa que Onri comprou o monte e fundou a cidade. A arqueologia investiga as estruturas e camadas de ocupação do local, mas nem sempre permite atribuir cada construção a um personagem mencionado na Bíblia com o mesmo grau de certeza que o relato literário apresenta.
Onde Samaria se encaixa na geografia bíblica
Uma forma simples de visualizar Samaria é pensar na rota terrestre entre a Judeia e a Galileia. Quem saía de Jerusalém em direção à Galileia atravessava, em termos gerais, a região samaritana. Essa posição explica por que Samaria aparece em narrativas de viagem, tensões religiosas e contatos entre diferentes comunidades no Novo Testamento.
| Área ou local | Posição em relação a Samaria | Exemplos de passagens | Observação bíblica |
|---|---|---|---|
| Judeia | Ao sul | João 4; Atos 1 | Região ligada a Jerusalém e ao templo. |
| Galileia | Ao norte | João 4; Lucas 17 | Região de Nazaré e de grande parte do ministério de Jesus. |
| Jerusalém | Ao sul de Samaria | 2 Reis 17; João 4 | Centro religioso de Judá e, depois, do judaísmo do Segundo Templo. |
| Siquém | No centro da região samaritana | Gênesis 12; Josué 24; João 4 | Local antigo associado à herança patriarcal e próximo ao monte Gerizim. |
| Monte Gerizim | Próximo de Siquém | Deuteronômio 11; Josué 8; João 4 | Montanha central para a tradição religiosa samaritana. |
| Vale do Jordão | A leste | Josué 3; 2 Reis 2 | Corredor geográfico que separa as montanhas centrais da Transjordânia. |
Os limites exatos da região variavam conforme a época e a fonte consultada. A Bíblia não oferece um mapa com fronteiras detalhadas equivalentes às modernas. Por isso, afirmar que Samaria ficava entre Judeia e Galileia é uma síntese geográfica útil, mas não significa que seus limites fossem sempre fixos ou idênticos em todos os séculos.
Samaria no Antigo Testamento
Depois da divisão do reino, narrada em 1 Reis 12, Israel ficou dividido entre o Reino do Norte, chamado Israel, e o Reino do Sul, chamado Judá. Samaria tornou-se a capital política do Norte a partir de Onri. Ao longo dos livros de Reis, a cidade é citada como cenário de governos, guerras, cercos, fome e confrontos proféticos.
Em 2 Reis 6–7, Samaria sofre um cerco dos arameus. A narrativa descreve uma crise extrema de fome e, em seguida, a retirada inesperada do exército inimigo. Mais tarde, em 2 Reis 17, a cidade é tomada pelos assírios durante o reinado de Oseias. Esse evento está ligado à queda do Reino do Norte, tradicionalmente datada em torno de 722 ou 721 a.C.
O texto de 2 Reis 17 apresenta uma interpretação teológica para a queda: associa o desastre à infidelidade religiosa de Israel. Também afirma que os assírios deportaram habitantes de Israel e trouxeram populações de outros lugares para viver nas cidades de Samaria. Essa passagem é essencial para entender a origem das relações posteriores entre judeus e samaritanos, mas requer cuidado histórico.
O que o texto de 2 Reis 17 diz e o que é debatido
O texto bíblico registra deportações, reassentamentos e conflitos religiosos no território depois da conquista assíria. Ele também afirma que novos habitantes passaram a cultuar o Deus de Israel juntamente com suas práticas anteriores, conforme a avaliação do narrador de 2 Reis 17.
Uma interpretação judaica posterior, refletida em parte na forma como samaritanos aparecem em certos textos antigos, enfatizou a mistura populacional e religiosa resultante da política assíria. A tradição samaritana, por outro lado, entende-se como continuidade do antigo Israel, ligada especialmente às tribos de Efraim, Manassés e Levi, e não como um grupo simplesmente formado por estrangeiros trazidos pela Assíria.
Historiadores e arqueólogos discutem a proporção das deportações, a permanência de populações locais e o processo pelo qual a identidade samaritana se consolidou. Não há consenso completo sobre todos esses pontos. Portanto, não é preciso concluir que uma única explicação moderna resolve integralmente a questão: o relato bíblico, as tradições comunitárias e a pesquisa histórica trabalham com perspectivas e objetivos distintos.
Samaritanos, Jerusalém e o monte Gerizim
A separação entre judeus e samaritanos não nasceu de um único evento simples. Ela se desenvolveu ao longo de séculos, envolvendo identidade étnica, administração imperial, práticas religiosas e a disputa sobre o lugar legítimo de adoração.
O monte Gerizim, perto de Siquém, possui importância desde textos antigos. Em Deuteronômio 11, ele é associado à bênção, em contraste com o monte Ebal, ligado à maldição. Em Josué 8, os dois montes aparecem no contexto da renovação da aliança. Mais tarde, a comunidade samaritana passou a considerar o Gerizim o lugar escolhido por Deus para o culto central.
Essa posição diverge da tradição judaica, para a qual Jerusalém e seu templo eram o centro legítimo do culto nacional. A divergência fica clara no diálogo entre Jesus e a mulher samaritana em João 4. Ela menciona que seus antepassados adoraram “neste monte”, enquanto os judeus afirmavam que Jerusalém era o lugar adequado.
Também existem diferenças textuais e religiosas. Os samaritanos preservam uma forma própria do Pentateuco, conhecido como Pentateuco Samaritano, e reconhecem a Torá como seu núcleo escriturístico. O judaísmo rabínico, por sua vez, reconhece uma coleção mais ampla de livros no Tanakh. A existência dessas tradições não autoriza reduzir um grupo ao outro: são comunidades relacionadas por uma história antiga, mas marcadas por diferenças reais.
Samaria e os samaritanos no Novo Testamento
No Novo Testamento, Samaria surge sobretudo como uma região atravessada por Jesus e, depois, alcançada pela missão cristã primitiva. Em João 4, Jesus passa pela Samaria e conversa com uma mulher junto ao poço de Jacó, nas proximidades de Sicar. O texto relaciona o local a Jacó e a José, reforçando a memória patriarcal compartilhada naquela área.
O Evangelho de João declara que “os judeus não se dão com os samaritanos” em João 4. A frase aponta para uma tensão social e religiosa, mas não deve ser entendida como ausência absoluta de todo contato entre os grupos. O próprio capítulo descreve uma conversa prolongada e a recepção de Jesus por habitantes de uma cidade samaritana.
Em Lucas 10, a parábola do bom samaritano coloca um samaritano como personagem que socorre um homem ferido, enquanto outras figuras passam adiante. O ponto central da narrativa é redefinir o próximo por meio da misericórdia demonstrada, e não fornecer uma descrição completa da história samaritana. Ainda assim, a escolha do personagem ganha força justamente porque o público conhecia a distância existente entre samaritanos e judeus.
Em Lucas 17, um dos dez homens curados de lepra volta para agradecer a Jesus, e ele é identificado como samaritano. Já em Atos 1, Samaria integra a sequência geográfica do testemunho: Jerusalém, Judeia, Samaria e os confins da terra. Em Atos 8, Filipe anuncia na cidade de Samaria, e o texto relata a adesão de muitos habitantes.
Jesus “tinha de passar” por Samaria?
João 4 afirma que Jesus “tinha de passar por Samaria”. Há duas leituras principais. Uma leitura geográfica observa que a passagem pela região era uma rota direta entre a Judeia e a Galileia. Outra leitura destaca o vocabulário do Evangelho de João e entende a expressão como uma necessidade ligada ao desenvolvimento narrativo e à missão de Jesus. O versículo não explica explicitamente qual dessas dimensões é exclusiva; as duas podem ser consideradas no contexto.
Por que a localização de Samaria importa para ler a Bíblia
Localizar Samaria ajuda a interpretar episódios que, sem geografia, parecem desconectados. Ela estava entre centros decisivos da narrativa bíblica: Jerusalém, na Judeia, e a Galileia dos Evangelhos. Era, ao mesmo tempo, um território de passagem e uma região com identidade própria, memória histórica e práticas religiosas particulares.
A cidade de Samaria recorda a monarquia do Reino do Norte e sua queda diante da Assíria. A região samaritana remete a Siquém, Gerizim, antigas tradições patriarcais e disputas do período posterior ao exílio. Os samaritanos dos Evangelhos evidenciam que a geografia bíblica não é apenas uma lista de lugares: ela envolve comunidades concretas, tensões sociais e heranças religiosas.
Convém evitar dois erros comuns. O primeiro é tratar Samaria apenas como uma cidade, ignorando que o nome também indica uma região. O segundo é imaginar os samaritanos como um grupo sem ligação com a história de Israel. As fontes antigas discordam sobre aspectos dessa origem, mas todas mostram que a relação entre samaritanos, judeus e a terra central de Israel era historicamente profunda e complexa.
Perguntas frequentes
Samaria ficava em Israel?
Na linguagem bíblica, Samaria foi capital do Reino de Israel, o Reino do Norte, e também designava uma região de sua área central. Em relação ao mapa moderno, a maior parte de seu território histórico está na Cisjordânia. Os termos bíblicos e as divisões políticas atuais, porém, não são equivalentes.
Samaria e Siquém eram a mesma cidade?
Não. Siquém era uma cidade antiga da região central, próxima aos montes Gerizim e Ebal, enquanto a cidade de Samaria foi fundada por Onri mais tarde, conforme 1 Reis 16. No período romano, Siquém estava associada à cidade chamada Neápolis, origem do nome atual Nablus.
Por que judeus e samaritanos não se davam?
As tensões envolveram história política, origem comunitária, tradições religiosas e a disputa pelo local legítimo de culto: Jerusalém para os judeus e o monte Gerizim para os samaritanos. João 4 menciona essa distância, mas o Novo Testamento também registra encontros e circulação entre os grupos.
Samaria ainda existe hoje?
O nome permanece em usos históricos, geográficos e arqueológicos. O sítio da antiga cidade de Samaria é geralmente identificado com Sebastia, perto de Nablus. A comunidade samaritana também continua existindo, embora seja numericamente pequena, com presença especialmente nas proximidades do monte Gerizim e em Holon, em Israel.
Resumo
- Samaria ficava na região central da antiga terra de Israel, entre a Judeia e a Galileia.
- O nome pode indicar uma cidade, uma região ou, em determinados contextos, o Reino do Norte.
- Segundo 1 Reis 16, Onri fundou a cidade de Samaria e a tornou capital de Israel.
- 2 Reis 17 liga a conquista assíria de Samaria a deportações e reassentamentos, mas a formação posterior da identidade samaritana é debatida.
- O monte Gerizim foi central para a tradição samaritana, em contraste com a centralidade de Jerusalém na tradição judaica.
- Nos Evangelhos e em Atos, Samaria aparece como território de encontros significativos e expansão da mensagem cristã.