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Perguntas e respostas sobre os Salmos: autoria, temas e contexto

Perguntas e respostas sobre os Salmos: entenda autoria, estrutura, usos, gêneros literários e o que o texto bíblico afirma sobre esse livro.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
Perguntas e respostas sobre os Salmos: guia bíblico completo
Um rolo antigo aberto ao lado de uma harpa, evocando a poesia e a música dos Salmos.
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Perguntas e respostas sobre os Salmos ajudam a situar um dos livros mais lidos da Bíblia. O Saltério reúne 150 poemas e cânticos que expressam louvor, lamento, confiança, memória histórica e expectativa, em contextos diversos da vida de Israel.

O que é o Livro dos Salmos?

O Livro dos Salmos é uma coleção de poemas religiosos presente na Bíblia Hebraica e no Antigo Testamento cristão. Em hebraico, seu nome tradicional é Tehillim, termo ligado a “louvores”. A designação grega Psalmoí, da qual deriva “Salmos”, está relacionada a canções acompanhadas por instrumentos de corda.

Embora seja chamado de livro, o Saltério não foi escrito como uma obra única, de uma vez só, por um único autor. Ele é uma antologia formada e organizada ao longo de tempo considerável. Seus textos refletem circunstâncias pessoais, celebrações comunitárias, cultos no templo, crises políticas, recordações da história nacional e reflexões sobre a justiça de Deus.

O próprio texto apresenta o conjunto dividido em cinco partes: Salmos 1–41, 42–72, 73–89, 90–106 e 107–150. Cada uma termina com uma doxologia, isto é, uma breve fórmula de louvor. Essa estrutura é frequentemente comparada, em leituras posteriores, aos cinco livros da Torá; porém, a Bíblia não explica expressamente que a divisão foi criada para imitar o Pentateuco.

“Todo ser que respira louve o Senhor. Aleluia!” (Salmo 150).

O livro contém orações dirigidas a Deus, mas também textos de instrução, proclamação e memória. Por isso, não é correto reduzi-lo a um manual de cânticos alegres. Há salmos que perguntam, protestam, descrevem medo, reconhecem culpa e lamentam perdas.

Quantos salmos existem e como o livro é organizado?

Na numeração mais comum nas Bíblias em português, há 150 salmos. Essa é a contagem do texto hebraico massorético e da maior parte das edições protestantes. Nas tradições católica e ortodoxa, algumas edições seguem ou indicam também a numeração da Septuaginta, antiga tradução grega do Antigo Testamento. Nela, certos salmos aparecem unidos ou divididos de modo diferente.

Isso não significa que uma tradição tenha “mais” ou “menos” conteúdo no Saltério. Trata-se principalmente de uma diferença de numeração. Por exemplo, o Salmo 23 na numeração hebraica corresponde ao Salmo 22 na Septuaginta. A partir de determinado ponto, a diferença precisa ser observada com cuidado nas referências.

ElementoTexto hebraico / maioria das Bíblias em portuguêsSeptuaginta / numeração litúrgica em algumas tradições
Total tradicional150 salmos150 salmos na coleção principal
Exemplo inicial de diferençaSalmos 9 e 10 são separadosSalmos 9 e 10 formam um só salmo
Salmo do “Senhor é meu pastor”Salmo 23Salmo 22
Salmos 114 e 115Dois salmos distintosUnidos como Salmo 113
Salmo finalSalmo 150Salmo 150, após ajustes anteriores de numeração

Além da divisão em cinco livros, há agrupamentos identificáveis por temas ou fórmulas. Os Salmos 120–134, por exemplo, são chamados “Cânticos de Romagem” ou “Cânticos dos Degraus”, conforme a tradução. Seus títulos os associam a peregrinações, mas o texto bíblico não explica detalhadamente onde, quando ou em qual rito cada um era cantado.

Os Salmos 113–118 formam o chamado Hallel egípcio, usado em celebrações judaicas posteriores, especialmente na Páscoa. Essa vinculação litúrgica é antiga e relevante para a história da recepção, mas os próprios salmos não apresentam instruções completas sobre todas as ocasiões de uso.

Quem escreveu os Salmos?

A Bíblia associa muitos salmos a Davi, mas não afirma que ele escreveu os 150. Diversos títulos apresentam expressões tradicionalmente traduzidas como “Salmo de Davi”, e o Novo Testamento também atribui textos específicos a ele, como o Salmo 110 em Marcos 12 e Atos 2. Ao mesmo tempo, outros salmos são ligados a Asafe, aos filhos de Corá, a Salomão, a Moisés, a Hemã e a Etã.

Há ainda numerosos poemas sem autor identificado. O Salmo 90 traz o título “oração de Moisés”; o Salmo 72 é associado a Salomão; e os Salmos 73–83 são associados a Asafe. Os títulos fazem parte da tradição textual recebida e devem ser levados em conta, mas seu sentido exato nem sempre é simples. A preposição hebraica normalmente traduzida por “de” também pode indicar dedicação, pertencimento a uma coletânea ou associação musical, e não necessariamente autoria literária direta.

O que o texto registra e o que a pesquisa discute

O texto bíblico registra títulos e associações de nomes. Também apresenta Davi como músico: em 1 Samuel 16, ele toca harpa diante de Saul; em 2 Samuel 1, compõe uma lamentação por Saul e Jônatas; e 1 Crônicas 16 o mostra envolvido na organização do louvor diante da arca. Esses dados explicam por que a tradição vinculou Davi de modo tão forte ao Saltério.

Já a afirmação de que Davi compôs todos os salmos é uma interpretação tradicional ampla, não uma declaração do próprio livro. A pesquisa histórica e literária costuma entender que a coleção reúne materiais de épocas diferentes, alguns possivelmente muito anteriores ou posteriores ao período davídico. As datas individuais são debatidas: em vários casos, não há dados internos suficientes para uma data precisa.

  • Davi: associado nos títulos a 73 salmos no texto hebraico tradicional.
  • Asafe: associado aos Salmos 50 e 73–83.
  • Filhos de Corá: associados aos Salmos 42–49, 84–85 e 87–88.
  • Salomão: associado aos Salmos 72 e 127.
  • Moisés: associado ao Salmo 90.
  • Sem atribuição no título: uma parcela significativa da coleção.

Quais são os principais tipos de salmos?

Os Salmos empregam formas poéticas variadas. Classificar os poemas por gênero é uma ferramenta de leitura moderna, baseada em características recorrentes; não é uma lista de categorias apresentada pelo próprio Saltério. Ainda assim, ela ajuda a perceber que os textos têm finalidades distintas.

Salmos de louvor

Esses poemas convocam a comunidade ou toda a criação a reconhecer a grandeza de Deus. O Salmo 8 contempla a criação e a posição humana nela. Os Salmos 146–150 encerram o livro com repetidos convites ao louvor. Em muitos casos, o motivo do louvor é apresentado: criação, libertação, governo, fidelidade ou cuidado com os vulneráveis.

Salmos de lamento

Há lamentos individuais, como os Salmos 13 e 22, e lamentos coletivos, como os Salmos 44 e 74. Eles podem incluir invocação, descrição de sofrimento, pedido de intervenção e expressão de confiança. Não devem ser lidos como falta de fé no sentido moderno; literariamente, são orações que colocam a crise diante de Deus.

Salmos de ação de graças e confiança

O Salmo 30 agradece por livramento, enquanto o Salmo 23 usa a imagem do pastor para expressar segurança. O Salmo 46 declara confiança em meio a abalos e guerras. Nem todos esses textos permitem reconstruir o evento histórico que lhes deu origem; o poema geralmente prioriza a linguagem de adoração, e não um relato cronológico.

Salmos reais, sapienciais e históricos

Salmos como 2, 72 e 110 tratam do rei ou da realeza e são frequentemente chamados de reais. Os Salmos 1, 19 e 119 têm afinidades com a literatura de sabedoria e enfatizam a instrução e a lei. Já os Salmos 78, 105 e 106 retomam episódios da história de Israel. Essas classificações podem se sobrepor: um único salmo pode reunir louvor, instrução, memória e súplica.

Os Salmos são poesia? Como devem ser lidos?

Sim. Os Salmos são poesia hebraica, e seu modo de expressão difere da prosa narrativa encontrada, por exemplo, em partes de Samuel, Reis e Crônicas. A poesia usa imagens, paralelismos, repetições, contrastes e hipérboles. Por isso, interpretar cada frase como uma descrição literal pode ignorar seu gênero literário.

O paralelismo é um recurso central. Em vez de depender de rimas como na poesia portuguesa, o poema hebraico frequentemente coloca duas ou mais linhas em relação. Elas podem repetir uma ideia com outras palavras, desenvolvê-la ou estabelecer contraste. O Salmo 19, por exemplo, inicia afirmando que os céus proclamam a glória de Deus e que o firmamento anuncia a obra de suas mãos.

Também existem salmos acrósticos, organizados conforme as letras do alfabeto hebraico. O Salmo 119 é o caso mais conhecido: possui 176 versículos, distribuídos em 22 estrofes de oito versos, correspondentes às 22 letras do alfabeto hebraico. Essa estrutura é visível de maneira plena no idioma original, embora muitas traduções preservem os nomes das letras como indicação editorial.

Há imagens que pedem atenção ao contexto. Quando o Salmo 91 fala de proteção, por exemplo, emprega linguagem poética de refúgio e abrigo. O texto não fornece uma fórmula para prever ou impedir todo sofrimento. Essa leitura de garantia absoluta é uma interpretação posterior e entra em tensão com os próprios salmos de lamento, nos quais pessoas fiéis enfrentam perigo, doença, oposição e morte.

Os títulos dos Salmos explicam suas circunstâncias históricas?

Alguns títulos vinculam um salmo a episódios da vida de Davi narrados em 1 Samuel e 2 Samuel. O título do Salmo 3, por exemplo, o relaciona à fuga de Davi diante de Absalão, episódio contado em 2 Samuel 15–18. O Salmo 51 é ligado ao confronto de Natã com Davi após o caso com Bate-Seba, narrado em 2 Samuel 11–12.

Entretanto, esses títulos não aparecem como parte dos versículos poéticos em todas as formas antigas do texto, e seu grau de antiguidade ou sua função editorial é discutido. Algumas leituras tradicionais os recebem como descrições históricas diretas. Muitos estudiosos entendem que podem preservar memória antiga, orientar a leitura ou refletir organização posterior da coletânea. Não há consenso que permita provar, caso a caso, a data exata de composição ou a situação concreta de cada poema.

Portanto, é prudente distinguir duas afirmações. O texto recebido contém títulos que fazem associações históricas. Já dizer que cada título comprova definitivamente o momento em que o salmo foi escrito é uma conclusão interpretativa disputada.

Instrumentos e indicações musicais

Vários títulos trazem termos técnicos, como “para o mestre de canto”, “com instrumentos de cordas”, “sobre a oitava” ou palavras hebraicas como selá. O significado de alguns desses termos é incerto. Selá aparece muitas vezes nos Salmos e também em Habacuque 3, mas a Bíblia não define o que a palavra quer dizer. Hipóteses incluem uma pausa musical, uma indicação de interlúdio ou um sinal litúrgico. É importante declarar a incerteza, em vez de apresentar uma única explicação como fato estabelecido.

Como os Salmos são citados em outras partes da Bíblia?

Os Salmos são amplamente reutilizados e citados no restante da Bíblia. Em 1 Crônicas 16, há uma composição de louvor que reúne trechos semelhantes aos Salmos 96, 105 e 106. Os profetas compartilham temas do Saltério, como justiça, confiança e realeza divina, ainda que não sejam simplesmente reproduções dos mesmos poemas.

No Novo Testamento, os Salmos estão entre os livros mais citados. Jesus cita o Salmo 22 na narrativa da crucificação em Mateus 27 e Marcos 15. O Salmo 110 é citado ou aludido em discussões sobre o Messias, por exemplo em Mateus 22 e Hebreus 1. Em Atos 2, Pedro interpreta o Salmo 16 em relação à ressurreição de Jesus.

Essa é uma área em que leituras judaicas e cristãs divergem de modo importante. No judaísmo, os Salmos são lidos em seu contexto da Bíblia Hebraica e de sua tradição interpretativa. No cristianismo, muitos textos são compreendidos também em relação a Jesus e ao Novo Testamento. Ambas as abordagens reconhecem a centralidade do Saltério, mas diferem em suas conclusões sobre passagens consideradas messiânicas, especialmente os Salmos 2, 22 e 110.

O texto dos salmos, em sua forma original, nem sempre identifica explicitamente o personagem ou o evento futuro que intérpretes posteriores associam a ele. Assim, convém separar a formulação poética do poema de sua recepção em tradições religiosas posteriores.

Perguntas frequentes

Davi escreveu todos os 150 Salmos?

Não. A Bíblia associa diversos salmos a Davi, mas também nomeia Asafe, os filhos de Corá, Salomão, Moisés, Hemã e Etã em títulos específicos. Muitos salmos não trazem autor identificado. A autoria integral davídica é uma tradição interpretativa, não uma afirmação explícita do Saltério.

Por que algumas Bíblias apresentam números diferentes para os Salmos?

A diferença vem principalmente da relação entre o texto hebraico e a Septuaginta grega. Alguns poemas que são separados em uma tradição aparecem unidos em outra, e vice-versa. O conteúdo geral da coleção é equivalente, mas as referências podem mudar, como no caso do Salmo 23 hebraico, correspondente ao Salmo 22 na numeração grega.

Qual é o maior salmo da Bíblia?

É o Salmo 119, com 176 versículos. Ele é um acróstico alfabético hebraico organizado em 22 seções de oito versículos. Seu tema predominante é a valorização da lei, dos mandamentos e dos ensinamentos de Deus.

O que significa “Selá” nos Salmos?

Não existe definição conclusiva no próprio texto bíblico. A palavra ocorre em diversos salmos e em Habacuque 3. As explicações mais comuns a tratam como indicação musical ou litúrgica, talvez uma pausa ou interlúdio, mas seu significado preciso permanece discutido.

Resumo

  • O Livro dos Salmos reúne 150 poemas e cânticos organizados em cinco livros.
  • Davi é a figura mais associada ao Saltério, mas não é apresentado como autor de todos os salmos.
  • A coleção contém louvor, lamento, gratidão, confiança, ensino, memória histórica e poemas ligados à realeza.
  • Os Salmos usam recursos da poesia hebraica, como paralelismo, imagens e acrósticos.
  • Diferenças de numeração entre Bíblias decorrem sobretudo da tradição grega da Septuaginta e do texto hebraico.
  • Os títulos e as aplicações posteriores são relevantes, mas nem sempre permitem determinar com certeza a ocasião ou a data de cada composição.

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