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Por que a Bíblia tem livros apócrifos e por que as listas variam?

Por que a Bíblia tem livros apócrifos? Veja a origem das listas, as diferenças entre cânones e o que cada tradição reconhece.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
Por que a Bíblia tem livros apócrifos? Entenda as diferenças
Manuscritos antigos e um códice aberto evocam a formação histórica dos cânones bíblicos.
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Por que a Bíblia tem livros apócrifos? A resposta depende da lista de livros adotada por cada tradição cristã: algumas Bíblias os incluem no Antigo Testamento, enquanto outras os separam ou não os consideram parte do cânon. Essa diferença nasceu de processos históricos de transmissão, tradução e reconhecimento dos escritos sagrados.

O que significa “apócrifo” neste assunto?

O termo “apócrifo” vem do grego apókryphos, palavra associada ao que é oculto ou reservado. Porém, no debate bíblico, ele não possui um único uso. A mesma obra pode ser chamada de “apócrifa” por uma tradição e de “deuterocanônica” por outra. Por isso, é importante definir os termos antes de concluir que determinado livro seria falso, secreto ou sem qualquer valor histórico.

Em muitas edições protestantes, “Apócrifos” designa um conjunto de livros judaicos antigos presentes em manuscritos gregos da Bíblia e em antigas Bíblias cristãs, mas que não integra o cânon do Antigo Testamento protestante. Na Igreja Católica, grande parte desse mesmo conjunto recebe o nome de deuterocanônicos: livros reconhecidos como canônicos em uma etapa posterior de definição formal, em comparação com os livros chamados protocanônicos.

Também há escritos frequentemente chamados de apócrifos que não entram em nenhuma dessas listas usuais, como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro, 1 Enoque e o Apocalipse de Pedro. Eles pertencem a períodos e gêneros diversos. Portanto, falar genericamente em “os livros apócrifos” pode misturar obras muito diferentes entre si.

O texto bíblico não apresenta uma tabela única, dentro de suas páginas, definindo todos os livros que compõem a Bíblia. A formação do cânon foi um processo histórico de reconhecimento e delimitação de coleções de escritos.

O que a Bíblia registra e o que ela não registra

O próprio Antigo Testamento menciona documentos, crônicas e registros que não aparecem na Bíblia atual. Entre os exemplos estão o “Livro das Guerras do Senhor”, citado em Números 21, e o “Livro do Justo”, mencionado em Josué 10 e 2 Samuel 1. Reis e Crônicas também remetem repetidamente a registros dos reis de Israel e Judá, como em 1 Reis 14 e 2 Crônicas 16.

Essas referências mostram que existiram outros textos em circulação no antigo Israel e em Judá. Mas a Bíblia não informa que esses documentos devam fazer parte das Escrituras. Nem preserva, em geral, seu conteúdo completo. A simples citação ou menção de uma fonte não equivale à sua canonização; autores bíblicos também empregam fontes históricas, poemas e tradições anteriores.

No Novo Testamento, Jesus e os apóstolos citam ou aludem frequentemente às Escrituras de Israel. Há referências à Lei, aos Profetas e aos Salmos, como em Lucas 24. Contudo, essas passagens não fornecem uma lista detalhada de todos os livros bíblicos nem resolvem, por si só, a discussão sobre os livros presentes nas coleções gregas.

Assim, o que o texto bíblico registra é a existência de um corpo de Escrituras reverenciado e de outros documentos usados como fonte. O que ele não registra é um decreto interno com a lista final de 66, 73 ou outro número de livros. As listas precisas são conhecidas por meio da história judaica e cristã posterior.

Como surgiram listas diferentes do Antigo Testamento

A principal razão para a diferença está no encontro entre duas grandes formas de transmissão das Escrituras judaicas: os textos em hebraico e aramaico, ligados ao que mais tarde se consolidou no Tanakh judaico, e as coleções em grego associadas à Septuaginta, tradução das Escrituras hebraicas iniciada antes da era cristã.

A Septuaginta não foi um volume único produzido de uma vez. Ela corresponde a um amplo conjunto de traduções gregas feitas em épocas diferentes, ao qual se ligaram outros escritos judaicos em grego ou preservados nessa língua. Códices cristãos antigos, como o Vaticano, o Sinaítico e o Alexandrino, apresentam coleções que incluem livros além daqueles encontrados no Tanakh, embora não tragam todos exatamente a mesma lista.

Depois da destruição do templo de Jerusalém, em 70 d.C., e das transformações do judaísmo rabínico, a coleção hebraica tornou-se a referência do cânon judaico. A ideia antiga de que um único “Concílio de Jâmnia”, por volta do ano 90, teria fechado definitivamente o cânon judeu é hoje bastante questionada por muitos pesquisadores. Há evidências de debates e processos graduais, mas não uma prova clara de um concílio formal que tenha definido de uma vez todos os livros.

No cristianismo, comunidades de língua grega utilizaram largamente a Septuaginta. Com o passar dos séculos, surgiram diferenças entre o uso litúrgico, a leitura devocional e a definição de quais escritos possuíam autoridade normativa. A diversidade inicial ajuda a explicar por que tradições posteriores estabeleceram cânones diferentes.

Os livros que mais aparecem na discussão

Nas Bíblias católicas, os principais deuterocanônicos são Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico ou Sirácida, Baruque, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além de acréscimos gregos a Ester e Daniel. Esses acréscimos incluem as partes conhecidas como oração de Azarias e cântico dos três jovens, Susana e Bel e o Dragão, em Daniel 3, 13 e 14 nas edições católicas.

As Bíblias ortodoxas, porém, não seguem uma única lista idêntica. Algumas incluem ainda 3 Macabeus, Salmo 151, a Oração de Manassés, 1 Esdras e, em certos contextos, 4 Macabeus como apêndice. Já a tradição etíope possui uma coleção mais ampla, que inclui 1 Enoque e Jubileus. Portanto, não existe apenas uma resposta cristã para o número de livros do Antigo Testamento.

Comparação entre as principais coleções bíblicas

Os números abaixo ajudam a visualizar as diferenças. Eles exigem uma observação: o total pode variar conforme o modo de contar livros combinados ou separados. Por exemplo, a Bíblia hebraica reúne Samuel, Reis e Crônicas como conjuntos, enquanto Bíblias cristãs os dividem em volumes.

Tradição ou coleçãoAntigo TestamentoTotal mais comumLivros em debate ou adicionais
Tanakh judaico24 livros, contados em coleções24Não inclui Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque ou Macabeus
Bíblia protestante39 livros, com divisão diferente da hebraica66Os deuterocanônicos podem aparecer em seção separada, mas não como cânon
Bíblia católica46 livros73Inclui sete deuterocanônicos e acréscimos a Ester e Daniel
Tradições ortodoxasLista variável conforme a igrejaGeralmente superior a 73Pode incluir 3 Macabeus, Salmo 151, Oração de Manassés e outros
Cânon etíope tradicionalLista mais ampla81, em uma contagem comumInclui escritos como 1 Enoque e Jubileus

A tabela não estabelece qual cânon seria correto; ela descreve diferenças históricas entre comunidades. Cada tradição articula seus critérios com base na língua dos textos, no uso antigo, na recepção comunitária e em entendimentos distintos sobre autoridade religiosa.

Por que católicos e protestantes divergem?

A divergência moderna ganhou forma mais nítida no período da Reforma do século XVI. Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão e colocou os livros chamados Apócrifos em uma seção própria, entre o Antigo e o Novo Testamento. Na edição de 1534, ele os descreveu como livros que não eram considerados iguais às Escrituras, mas eram úteis e bons para leitura. Outras Bíblias protestantes antigas também os imprimiram em seção separada.

A Confissão de Fé de Westminster, de 1646, declarou que os Apócrifos não eram inspirados e não deveriam ser usados de outra forma que não como escritos humanos. Esse posicionamento influenciou fortemente parte do protestantismo de língua inglesa. A partir dos séculos XVIII e XIX, muitas edições protestantes passaram a omitir integralmente esses livros por razões editoriais, econômicas e confessionais.

Do lado católico, o Concílio de Trento, em 1546, listou como canônicos Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 Macabeus, 2 Macabeus e os acréscimos de Ester e Daniel. O concílio respondeu, em parte, às controvérsias do período, mas não criou do nada o uso desses livros: eles já estavam presentes em manuscritos, traduções e práticas cristãs antigas, especialmente no Ocidente latino.

Portanto, a diferença não se reduz à ideia de que um lado “acrescentou” ou outro lado “retirou” livros em um momento simples da história. Essa é uma interpretação polêmica comum, mas insuficiente. O quadro histórico envolve coleções antigas diversas, transmissão em hebraico, aramaico, grego e latim, além de decisões institucionais tomadas em contextos distintos.

Onde estão os principais pontos de discordância?

  • Critério linguístico: muitos protestantes deram prioridade aos livros preservados no cânon hebraico judaico; católicos e ortodoxos atribuem maior peso à recepção cristã antiga ligada à Septuaginta.
  • Uso da Igreja antiga: as tradições divergem sobre como avaliar citações, leituras públicas e listas patrísticas, que não foram uniformes.
  • Autoridade para definir o cânon: cada grupo entende de modo diferente o papel da comunidade judaica, da igreja antiga e dos concílios posteriores.
  • Termos empregados: “apócrifo” pode significar “não canônico” para protestantes, mas “deuterocanônico” indica canonicidade para católicos.

Os apócrifos são citados no Novo Testamento?

Há possíveis alusões do Novo Testamento a obras deuterocanônicas e a outros textos judaicos antigos. Um caso frequentemente lembrado é Hebreus 11, que fala de pessoas torturadas e que recusaram o livramento para alcançar uma ressurreição superior. Muitos estudiosos veem aí uma referência à narrativa do martírio em 2 Macabeus 7. Judas 14-15 contém uma profecia atribuída a Enoque, semelhante a 1 Enoque 1.

Essas conexões, contudo, não encerram a discussão. Uma alusão não é necessariamente uma declaração de canonicidade. O Novo Testamento também cita autores não bíblicos: Paulo menciona poetas gregos em Atos 17 e cita expressões conhecidas em 1 Coríntios 15 e Tito 1. Por outro lado, quem reconhece os deuterocanônicos como Escritura entende que seu uso no ambiente do Novo Testamento é coerente com uma coleção mais ampla de textos judaicos.

O dado seguro é que autores cristãos do primeiro século conheciam um mundo literário judaico mais amplo que a lista estrita de livros encontrada em muitas Bíblias protestantes atuais. O dado disputado é se as alusões apostólicas devem ser tomadas como confirmação formal de cada obra citada ou lembrada.

O que os manuscritos e descobertas antigas mostram

Os Manuscritos do Mar Morto, encontrados em Qumran e datados aproximadamente entre o século III a.C. e o século I d.C., preservam cópias ou fragmentos de muitos livros bíblicos e de outros escritos judaicos. Entre os textos relacionados aos deuterocanônicos, foram encontrados fragmentos de Tobias, Eclesiástico e da Carta de Jeremias, esta última ligada a Baruque em muitas Bíblias católicas.

Essa descoberta corrige uma simplificação frequente: não é exato afirmar que todos os deuterocanônicos existiam somente em grego e eram desconhecidos em ambientes judaicos de língua semítica. Ao mesmo tempo, encontrar um manuscrito em Qumran não prova automaticamente que o grupo local o considerava Escritura no mesmo sentido atribuído à Lei ou aos Profetas. A biblioteca de Qumran contém também obras comunitárias e outros textos não canônicos.

Os manuscritos revelam diversidade de leitura e circulação textual no judaísmo do Segundo Templo. Eles não oferecem uma lista final e inequívoca que elimine as diferenças posteriores entre judeus, católicos, protestantes e ortodoxos.

Perguntas frequentes

Os livros apócrifos foram escondidos da Bíblia?

Não há base histórica para dizer que foram simplesmente escondidos. Muitos desses livros circularam amplamente em grego, latim e traduções cristãs durante séculos. A questão central é se deveriam ser considerados canônicos, isto é, parte das Escrituras com autoridade normativa. Diferentes tradições responderam de maneiras diferentes.

Quantos livros apócrifos existem?

Não há um número único, porque “apócrifo” abrange coleções variadas. Em muitas edições protestantes, a seção dos Apócrifos reúne obras correspondentes aos deuterocanônicos católicos e outros textos. Além disso, existem evangelhos, atos, cartas e apocalipses antigos que também recebem essa designação, mas não pertencem ao mesmo grupo.

Por que a Bíblia católica tem 73 livros e a protestante 66?

A Bíblia católica inclui sete livros deuterocanônicos e porções adicionais de Ester e Daniel, totalizando 73 livros. A Bíblia protestante segue, no Antigo Testamento, uma coleção correspondente ao cânon hebraico, embora organizada em 39 livros em vez dos 24 da contagem judaica. Ambas possuem os mesmos 27 livros no Novo Testamento.

Os apócrifos contradizem a Bíblia?

Essa é uma avaliação interpretativa, não um fato aceito por todos. Leitores protestantes apontam diferenças teológicas e históricas como razões para não lhes atribuir autoridade canônica. Católicos e ortodoxos entendem que esses livros pertencem à Escritura e os leem em continuidade com o restante da Bíblia. Há também questões textuais e históricas discutidas por pesquisadores em livros aceitos por todas as tradições.

Resumo

  • A expressão “livros apócrifos” não tem o mesmo significado em todas as tradições cristãs.
  • A Bíblia não traz uma lista interna e definitiva de todos os livros que deveriam compor seu cânon.
  • As diferenças surgiram da transmissão das Escrituras em hebraico, aramaico, grego e latim, bem como da recepção histórica dessas coleções.
  • Católicos chamam vários desses escritos de deuterocanônicos e os incluem no cânon; protestantes geralmente os tratam como não canônicos; igrejas ortodoxas possuem listas que podem ser mais amplas.
  • Manuscritos antigos mostram que o judaísmo e o cristianismo primitivo conviveram com uma literatura religiosa diversa, mas não resolvem sozinhos a questão do cânon.

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