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Quais são as viagens missionárias de Paulo e o que aconteceu em cada uma

Quais são as viagens missionárias de Paulo? Entenda os trajetos narrados em Atos, suas cidades, datas aproximadas e interpretações.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 13 min de leitura
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Quais são as viagens missionárias de Paulo? A divisão mais conhecida apresenta três viagens missionárias, narradas principalmente em Atos dos Apóstolos 13–21, seguidas pela viagem de Paulo a Roma como prisioneiro, em Atos 27–28. Essa classificação é tradicional: o livro de Atos descreve os deslocamentos, mas não os numera como “primeira”, “segunda” e “terceira” viagem.

O que o livro de Atos efetivamente registra

Paulo, inicialmente chamado Saulo, aparece em Atos como um judeu de Tarso e perseguidor dos seguidores de Jesus antes de sua experiência no caminho de Damasco, relatada em Atos 9. Depois disso, ele passa a anunciar Jesus em diferentes lugares. O texto também informa que Paulo realizou viagens, enfrentou oposição, formou equipes e visitou comunidades já existentes ou recém-estabelecidas.

O ponto de partida das grandes expedições relatadas em Atos é, em geral, Antioquia da Síria. Essa cidade era um centro relevante da província romana da Síria e abrigava uma comunidade formada por judeus e não judeus. Em Atos 13, a igreja local separa Barnabé e Saulo para uma obra específica; esse episódio costuma marcar o começo da chamada primeira viagem missionária.

É importante distinguir duas coisas. O texto bíblico registra rotas, cidades, discursos e acontecimentos, sobretudo em Atos. Já a organização dessas rotas em três “viagens missionárias” é uma ferramenta posterior de leitura, usada em estudos bíblicos, mapas e materiais didáticos. Ela ajuda a acompanhar a narrativa, mas não é uma numeração dada pelo próprio autor de Atos.

“Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.” A ordem é atribuída ao Espírito Santo no relato de Atos 13, 2, em um contexto de oração e jejum da comunidade de Antioquia.

Além de Atos, as cartas atribuídas a Paulo contêm referências a cidades e colaboradores, mas não oferecem um diário completo e fácil de harmonizar com todos os trechos de Atos. Por isso, reconstituir cada deslocamento com precisão absoluta nem sempre é possível.

Visão geral das viagens tradicionalmente enumeradas

A tabela abaixo resume a divisão mais difundida. As datas são aproximadas, pois dependem de reconstruções históricas feitas a partir de dados do Novo Testamento, de inscrições e da cronologia dos governadores romanos. Não há consenso total entre os pesquisadores em todos os anos.

Etapa tradicionalPassagens principaisPeríodo aproximadoRegiões e cidades de destaqueCompanheiros mencionados
Primeira viagemAtos 13–14c. 46–48 d.C.Chipre, Perge, Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e DerbeBarnabé e João Marcos
Concílio e visita a JerusalémAtos 15c. 48–49 d.C.Antioquia e JerusalémBarnabé, Paulo e outros
Segunda viagemAtos 15, 36–18, 22c. 49–52 d.C.Galácia, Macedônia, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas e CorintoSilas, Timóteo, Lucas em parte do relato, Áquila e Priscila
Terceira viagemAtos 18, 23–21, 17c. 53–57 d.C.Galácia, Frígia, Éfeso, Macedônia, Grécia, Trôade, Mileto e JerusalémTimóteo, Erasto e vários delegados de igrejas
Viagem a Roma sob custódiaAtos 27–28c. 59–60 d.C.Cesareia, Sidom, Creta, Malta, Siracusa, Régio, Putéoli e RomaLucas e Aristarco

Alguns esquemas acrescentam uma quarta viagem, geralmente baseada em indícios das Cartas Pastorais — 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito — e na hipótese de uma libertação de Paulo após sua primeira prisão em Roma. Essa proposta será examinada mais adiante, porque não é narrada por Atos e depende de debates sobre cronologia e autoria.

A primeira viagem: Chipre e cidades do sul da Galácia

A primeira viagem tradicional começa em Antioquia da Síria. Segundo Atos 13, 4–5, Barnabé e Saulo seguem para Selêucia, porto de Antioquia, e dali navegam para Chipre. Na ilha, passam por Salamina e depois por Pafos. É em Pafos que ocorre o encontro com o procônsul Sérgio Paulo e com Elimas, também chamado Barjesus, episódio narrado em Atos 13, 6–12.

Depois, o grupo parte de Pafos para Perge, na Panfília. Atos 13, 13 informa que João Marcos se separa deles e retorna a Jerusalém, sem explicar plenamente sua motivação. Mais tarde, essa saída se tornará um ponto de desacordo entre Paulo e Barnabé, conforme Atos 15, 36–40.

De Perge, Paulo e Barnabé seguem para Antioquia da Pisídia, cidade localizada na região interiorana da Anatólia, atual Turquia. Ali, Atos 13 relata um discurso de Paulo em uma sinagoga e a reação dividida do público. O texto apresenta uma formulação decisiva para a narrativa: diante da rejeição de parte dos ouvintes, Paulo e Barnabé afirmam que se voltariam aos não judeus, em Atos 13, 46.

O trajeto continua por Icônio, Listra e Derbe, descritas em Atos 14. Em Listra, após a cura de um homem que não andava, habitantes identificam Barnabé com Zeus e Paulo com Hermes. Os missionários rejeitam essa identificação e procuram impedir sacrifícios em sua honra, segundo Atos 14, 8–18. Pouco depois, Paulo é apedrejado por adversários vindos de Antioquia e Icônio; o texto diz que ele foi arrastado para fora da cidade, dado como morto, mas se levantou e retornou à cidade (Atos 14, 19–20).

Na volta, eles revisitam Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia, fortalecendo os discípulos e designando presbíteros nas comunidades, conforme Atos 14, 21–23. A viagem termina com o retorno a Antioquia da Síria, onde relatam o que havia ocorrido.

Jerusalém e a questão dos não judeus

Entre a primeira e a segunda viagens, Atos 15 situa uma reunião em Jerusalém frequentemente chamada de Concílio de Jerusalém. A discussão gira em torno de uma questão concreta: os não judeus que aderiam ao movimento cristão precisavam ser circuncidados e guardar a Lei de Moisés para serem salvos?

O texto apresenta intervenções de Pedro, Paulo, Barnabé e Tiago. A carta enviada às comunidades pede que os não judeus se abstenham de práticas ligadas à idolatria, de sangue, de animais estrangulados e de imoralidade sexual (Atos 15, 20 e 29). A redação de Atos não apresenta essa decisão como a eliminação de toda prática judaica entre judeus seguidores de Jesus; trata especificamente das exigências impostas aos não judeus.

Há uma discussão acadêmica sobre a relação entre esse encontro de Atos 15 e a reunião descrita por Paulo em Gálatas 2. Alguns estudiosos os identificam como o mesmo evento; outros entendem que se trata de visitas diferentes a Jerusalém. A Bíblia não fornece uma informação que resolva a questão de modo inequívoco.

A segunda viagem: a passagem para a Macedônia e a permanência em Corinto

Atos 15, 36 mostra Paulo propondo uma nova visita às cidades alcançadas anteriormente. Barnabé desejava levar João Marcos, mas Paulo não concordou por causa da partida de Marcos durante a primeira viagem. O resultado foi a separação da equipe: Barnabé seguiu para Chipre com Marcos, enquanto Paulo partiu com Silas pela Síria e Cilícia (Atos 15, 39–41).

Paulo encontra Timóteo em Listra e o incorpora ao grupo, segundo Atos 16, 1–3. O relato segue pela Frígia e Galácia e descreve impedimentos para entrar na Ásia e na Bitínia. Em Trôade, Paulo tem uma visão de um homem macedônio que pede ajuda. Tradicionalmente, esse momento é entendido como a passagem da missão para a Europa, embora “Europa” não seja a categoria usada pelo texto.

Na Macedônia, a equipe chega a Filipos. Atos 16 registra a conversão de Lídia, vendedora de púrpura, e a prisão de Paulo e Silas após a libertação de uma jovem explorada por seus donos. O terremoto, a abertura das portas da prisão e o encontro com o carcereiro fazem parte desse capítulo. Em seguida, os viajantes passam por Tessalônica e Bereia, onde enfrentam oposição e precisam deixar as cidades (Atos 17).

Em Atenas, Paulo discursa no Areópago, conforme Atos 17, 22–31. O discurso menciona um altar “ao Deus desconhecido” e dialoga com ouvintes ligados à cultura filosófica da cidade. Atos informa reações variadas: alguns zombam, outros desejam ouvir mais, e alguns aderem à mensagem (Atos 17, 32–34).

O ponto mais longo dessa viagem é Corinto. Atos 18 relata que Paulo trabalha com Áquila e Priscila, apresentados como fabricantes de tendas ou artesãos do couro, dependendo da tradução. Ele permanece ali “um ano e seis meses” (Atos 18, 11). O procônsul Gálio recusa julgar uma acusação contra Paulo, fato usado com frequência para situar a cronologia paulina no início da década de 50 d.C. Ao final, Paulo segue por Cencreia, Éfeso e Cesareia, encerrando o percurso com retorno a Antioquia (Atos 18, 18–22).

A terceira viagem: Éfeso, Macedônia e a chegada a Jerusalém

A terceira viagem é introduzida de forma breve em Atos 18, 23: Paulo sai de Antioquia e percorre sucessivamente a região da Galácia e da Frígia, fortalecendo os discípulos. Seu principal centro de atuação, porém, será Éfeso, importante cidade portuária da província romana da Ásia.

Atos 19 descreve Paulo em Éfeso durante cerca de três anos, conforme a soma de períodos mencionados no capítulo e em Atos 20, 31. Ele ensina primeiro na sinagoga e depois na escola de Tirano. O texto associa esse período a curas e exorcismos, incluindo o episódio dos filhos de Ceva. Também relata que alguns praticantes de magia queimaram livros avaliados em cinquenta mil moedas de prata, em Atos 19, 19. O valor exato em termos modernos não pode ser calculado com segurança, pois a unidade monetária e o poder de compra antigo são debatidos.

O ministério em Éfeso termina em meio a um tumulto promovido por Demétrio, fabricante de objetos ligados ao culto de Ártemis. A preocupação do artesão, conforme Atos 19, 24–27, é econômica e religiosa: a atividade de Paulo ameaçaria tanto o comércio local quanto o prestígio do santuário da deusa.

Depois de Éfeso, Paulo passa pela Macedônia e chega à Grécia, onde fica três meses (Atos 20, 2–3). O texto não detalha todas as cidades. Muitos leitores relacionam esse período a Corinto, em parte devido às referências da carta aos Romanos, mas Atos 20 fala apenas em “Grécia”; a identificação mais precisa é uma inferência histórica, não uma declaração explícita do capítulo.

No retorno, Paulo passa por Trôade, onde o jovem Êutico cai de uma janela durante uma longa reunião noturna e é levado como morto; Atos 20, 7–12 relata que ele foi reanimado. Em Mileto, Paulo chama os presbíteros de Éfeso e lhes dirige uma despedida, registrada em Atos 20, 17–38. A viagem continua por Tiro, Ptolemaida e Cesareia antes da chegada a Jerusalém, em Atos 21.

A viagem a Roma: deve ser chamada de quarta viagem missionária?

Após chegar a Jerusalém, Paulo é preso em meio a uma agitação no templo, conforme Atos 21. Ele permanece sob custódia em Cesareia e comparece diante de autoridades como Félix, Festo e o rei Agripa II, nos capítulos 23–26. Por ser cidadão romano e apelar a César, é enviado a Roma.

Atos 27–28 narra a travessia marítima com grande detalhe. Paulo viaja acompanhado, entre outros, por Lucas e Aristarco. O navio enfrenta uma tempestade, naufraga perto de Malta e todos os ocupantes chegam à terra. Após três meses na ilha, o grupo retoma a rota por Siracusa, Régio e Putéoli até Roma (Atos 28, 11–16).

Em Roma, Paulo fica sob guarda, mas recebe visitantes e expõe sua mensagem “com toda a intrepidez, sem impedimento algum”, segundo o encerramento de Atos 28, 30–31. Por ter caráter judicial e ocorrer sob prisão, muitos estudiosos evitam classificá-la simplesmente como quarta viagem missionária. Outros a incluem em mapas de viagens de Paulo porque a narrativa mostra Paulo anunciando sua mensagem durante o percurso e em Roma.

Portanto, há consenso quanto à existência da viagem a Roma no texto de Atos, mas não quanto ao rótulo. Chamar esse deslocamento de “quarta viagem missionária” é uma convenção possível, não uma designação bíblica.

Houve uma quarta viagem depois de Roma?

Uma tradição bastante difundida propõe que Paulo foi libertado após a prisão narrada no fim de Atos, realizou novos deslocamentos e depois foi preso novamente e executado em Roma. Essa hipótese costuma usar 1 Timóteo, Tito e 2 Timóteo, que mencionam lugares como Creta, Nicópolis, Éfeso, Macedônia e Trôade.

O problema é que Atos termina sem informar se Paulo foi absolvido, condenado ou libertado. Além disso, a autoria paulina das Cartas Pastorais é discutida entre pesquisadores: há quem as considere cartas autênticas de Paulo; há quem defenda composição posterior em seu nome; e há posições intermediárias. A resposta sobre uma quarta viagem posterior a Roma, portanto, varia conforme a leitura adotada.

  • Leitura tradicional: Paulo teria sido libertado, viajado novamente — possivelmente à Espanha, Creta, Ásia Menor e Macedônia —, sofrido nova prisão e morrido em Roma.
  • Leitura crítica: não há evidência suficiente no Novo Testamento para reconstruir uma nova viagem completa; as referências das Pastorais não devem ser usadas automaticamente como roteiro biográfico.
  • Ponto comum: Atos 28 não narra uma quarta expedição posterior. Qualquer reconstrução além desse final depende de fontes e interpretações posteriores.

A ideia de uma viagem de Paulo à Espanha também aparece em Romanos 15, 24 e 28 como plano ou intenção: Paulo diz esperar passar por Roma em direção à Espanha. O texto não confirma que esse projeto tenha sido realizado. Fontes cristãs posteriores foram interpretadas por alguns como apoio a essa possibilidade, mas o dado continua incerto.

Perguntas frequentes

Quantas viagens missionárias Paulo fez?

A resposta mais comum é três viagens missionárias, seguidas de uma viagem a Roma como prisioneiro. Essa contagem organiza Atos 13–21 em três grandes percursos. Algumas tradições falam em uma quarta viagem após Roma, mas ela não é narrada no livro de Atos e permanece debatida.

Quais cidades Paulo visitou em suas viagens?

Entre as cidades mais conhecidas estão Salamina, Pafos, Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra, Derbe, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas, Corinto, Éfeso, Trôade, Mileto, Jerusalém e Roma. A lista completa é maior e varia conforme se incluam portos, escalas e deslocamentos indicados apenas de modo geral.

Paulo escreveu cartas durante essas viagens?

Muitas cartas do Novo Testamento são tradicionalmente situadas em períodos das viagens de Paulo, como 1 e 2 Tessalonicenses, Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Filipenses e Filemom. Porém, as datas, os lugares de composição e, em alguns casos, a autoria são objeto de discussão acadêmica. Atos não informa a data de redação da maioria delas.

Por que Paulo viajava tanto?

Atos apresenta Paulo anunciando Jesus em sinagogas, praças, casas e reuniões de comunidades, além de retornar a cidades já visitadas para fortalecer grupos locais. Suas cartas também mostram uma rede de colaboradores e igrejas em várias regiões do Mediterrâneo oriental. O texto, contudo, não fornece um plano de viagem detalhado para toda a sua vida.

Resumo

  • A classificação tradicional fala em três viagens missionárias de Paulo: Atos 13–14, Atos 15, 36–18, 22 e Atos 18, 23–21, 17.
  • O livro de Atos não numera essas jornadas; a divisão é uma organização posterior e amplamente usada.
  • A primeira viagem percorre Chipre e cidades do sul da Galácia; a segunda alcança Macedônia, Atenas e Corinto; a terceira tem Éfeso como principal centro.
  • Atos 27–28 narra a viagem de Paulo a Roma sob custódia romana, que alguns chamam de quarta viagem, mas esse rótulo não é unânime.
  • Uma possível viagem posterior à libertação em Roma é hipótese tradicional, não fato confirmado pelo texto de Atos.
  • As datas e a reconstituição de cada rota são aproximadas, pois dependem de interpretação histórica e de dados externos ao texto bíblico.

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