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Quais são os mares citados na Bíblia e o que cada um representa nos textos

Saiba quais são os mares citados na Bíblia, onde aparecem, seus nomes históricos e as diferenças entre o registro bíblico e tradições posteriores.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quais são os mares citados na Bíblia? Os principais são o Mar Grande, identificado normalmente com o Mediterrâneo; o Mar Vermelho; o Mar da Galileia; o Mar Morto; e, em algumas traduções, o Mar de Juncos. A Bíblia também usa a palavra “mar” para grandes lagos, águas orientais e ocidentais e até para uma grande bacia do templo.

O que a Bíblia chama de “mar”?

Para responder com precisão, é importante observar que os textos bíblicos foram escritos em contextos linguísticos e geográficos diferentes. No Antigo Testamento, o hebraico yam pode designar mar, grande massa de água, lago ou, em certos casos, uma bacia. No Novo Testamento, o grego thalassa também é usado de maneira ampla, inclusive para o lago conhecido como Mar da Galileia.

Por isso, uma lista dos mares citados na Bíblia não deve supor que todos sejam mares no sentido geográfico moderno. O Mar da Galileia, por exemplo, é um lago de água doce. Já o Mar Morto é um lago salgado fechado. Apesar disso, ambos recebem o nome de “mar” em traduções bíblicas tradicionais e no próprio uso antigo.

Também há nomes que descrevem a posição de uma água em relação à terra de Israel. “Mar Ocidental”, em textos como Deuteronômio 11, refere-se ao Mediterrâneo, situado a oeste. “Mar Oriental”, em Joel 2 e Zacarias 14, geralmente se refere ao Mar Morto, a leste das regiões centrais de Judá.

“Todo lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso; desde o deserto até o Líbano, desde o rio, o rio Eufrates, até ao mar ocidental será o vosso termo.” (Deuteronômio 11)

A citação acima ilustra como a expressão “mar ocidental” funciona como referência geográfica. O texto não está apresentando um novo mar, mas nomeando o Mediterrâneo a partir da perspectiva israelita.

Os principais mares mencionados nas Escrituras

Embora haja variações de nomenclatura entre traduções, os mares abaixo são os mais importantes para compreender a geografia das narrativas bíblicas. Alguns aparecem em acontecimentos centrais; outros delimitam territórios ou servem de imagens poéticas e proféticas.

Mar Grande ou Mar Ocidental: o Mediterrâneo

O Mar Grande é a designação mais recorrente para o Mediterrâneo no Antigo Testamento. Ele aparece, por exemplo, nas delimitações da terra em Números 34, Josué 1, Josué 15 e Ezequiel 47. Como a costa mediterrânea ficava a oeste, ele também é chamado de “mar ocidental” em Deuteronômio 11.

O Mediterrâneo tinha importância comercial, militar e política para os povos da região. Cidades costeiras como Tiro, Sidom, Jope e Cesareia se relacionavam com rotas marítimas que conectavam o Levante ao Egito, à Ásia Menor, à Grécia e a Roma. Em Jonas 1, o profeta embarca em Jope rumo a Társis, atravessando esse mar. Em Atos 27, a viagem de Paulo a Roma se desenvolve no cenário marítimo do Mediterrâneo.

O texto bíblico registra viagens, tempestades e portos associados a esse espaço. A identificação do Mar Grande com o Mediterrâneo é amplamente aceita por estudiosos, pois corresponde à geografia e ao vocabulário das passagens.

Mar Vermelho e Mar de Juncos

O Mar Vermelho é conhecido sobretudo pela travessia de Israel depois da saída do Egito, narrada em Êxodo 14. Na maior parte das Bíblias em português, a passagem diz que os israelitas atravessaram o Mar Vermelho, enquanto o exército egípcio foi alcançado pelas águas.

Contudo, há uma questão de tradução importante. O hebraico usa a expressão yam suf, normalmente traduzida como “Mar Vermelho”, mas cujo sentido mais literal é frequentemente entendido como “Mar de Juncos” ou “Mar de Canas”. A Septuaginta, antiga tradução grega das Escrituras Hebraicas, verteu a expressão como Erythra Thalassa, “Mar Vermelho”; essa tradição influenciou traduções posteriores.

O texto de Êxodo 14 não fornece coordenadas suficientes para identificar com certeza o ponto da travessia. Assim, a localização exata é disputada. Algumas propostas situam o evento em áreas pantanosas e lagunares a leste do delta do Nilo; outras defendem regiões ligadas aos golfos de Suez ou de Ácaba. Nenhuma dessas hipóteses é determinada de forma explícita pelo relato bíblico.

Mar da Galileia, mar de Tiberíades e lago de Genesaré

O corpo de água mais presente nos Evangelhos é conhecido por vários nomes. Ele aparece como Mar da Galileia em Mateus 4, Marcos 1 e João 6; como Mar de Tiberíades em João 6 e João 21; e como lago de Genesaré em Lucas 5. Esses nomes se referem ao mesmo lago, localizado no norte da atual Israel, pelo qual passa o rio Jordão.

Essa é uma situação em que a tradução moderna pode causar estranhamento: não se trata de mar aberto, mas de um lago de água doce. O uso de “mar” é coerente com o vocabulário antigo e com sua grande extensão em comparação com outras águas da região.

Várias cenas dos Evangelhos ocorrem nele ou em suas margens: o chamado de pescadores em Mateus 4, a tempestade acalmada em Marcos 4, a caminhada de Jesus sobre as águas em Mateus 14 e a pesca relatada em João 21. O texto bíblico registra a atividade pesqueira, as travessias de barco e os ventos fortes no lago; interpretações religiosas sobre o significado de cada episódio pertencem à leitura posterior de cada tradição.

Mar Morto, Mar Salgado e Mar Oriental

O chamado Mar Morto aparece sob outros nomes no Antigo Testamento. Em Gênesis 14, é denominado “Mar Salgado”; em Deuteronômio 3 e Josué 3, o texto também usa “mar da Arabá” ou “mar da Planície”; em Joel 2 e Zacarias 14, a referência ao “mar oriental” costuma ser entendida como uma alusão a ele.

O nome moderno “Mar Morto” não é o mais frequente nas traduções tradicionais da Bíblia em português. Seu uso se consolidou em épocas posteriores por causa da elevada salinidade, que impede a presença de muitas formas de vida aquática comuns. Biblicamente, sua relevância é geográfica: ele integra os limites territoriais de tribos e regiões e fica próximo à área associada ao vale de Sidim em Gênesis 14.

Ezequiel 47 descreve uma visão na qual águas saem do templo e seguem até o “mar”, tornando saudáveis as suas águas. Muitos intérpretes identificam esse mar com o Mar Morto. Essa identificação é bastante provável pelo percurso geográfico descrito, mas a passagem integra uma visão profética, e suas leituras — literal, simbólica ou escatológica — divergem entre as tradições.

Quadro comparativo dos mares e seus nomes bíblicos

A tabela organiza as principais designações, as passagens representativas e a identificação geográfica mais aceita. Ela também mostra onde há incerteza relevante.

Nome nas traduções bíblicas Outras designações Passagens exemplares Identificação atual ou provável
Mar Grande Mar Ocidental Números 34; Josué 1; Ezequiel 47 Mar Mediterrâneo
Mar Vermelho Mar de Juncos, conforme tradução de yam suf Êxodo 13–15; 1 Reis 9 Região marítima a leste do Egito; local exato da travessia é disputado
Mar da Galileia Mar de Tiberíades; lago de Genesaré Mateus 4; Marcos 4; Lucas 5; João 6 Lago de água doce atravessado pelo rio Jordão
Mar Salgado Mar da Arabá; Mar Oriental; Mar Morto Gênesis 14; Deuteronômio 3; Josué 3; Zacarias 14 Mar Morto
Mar dos Filisteus Possível referência à costa mediterrânea meridional Êxodo 23 Faixa do Mediterrâneo junto ao território filisteu

Outras referências ao mar na Bíblia

Além dos quatro grandes nomes mais conhecidos, a Bíblia contém expressões que precisam ser lidas conforme seu contexto. Nem toda ocorrência da palavra “mar” acrescenta um novo acidente geográfico à lista.

O Mar dos Filisteus

Em Êxodo 23, a promessa de limites territoriais menciona “o mar dos filisteus”. A expressão é geralmente entendida como uma parte do Mediterrâneo próxima à planície costeira ocupada pelos filisteus. Não há consenso de que se trate de uma massa de água distinta; o mais provável é que seja um nome regional para o mesmo mar ocidental.

Os mares “oriental” e “ocidental”

Como já observado, “mar oriental” e “mar ocidental” são nomes relacionais. O primeiro normalmente aponta para o Mar Morto, a leste de Jerusalém; o segundo, para o Mediterrâneo, a oeste. Zacarias 14 fala de águas vivas que correrão em direção aos dois lados: metade para o mar oriental e metade para o mar ocidental.

O texto registra uma visão profética. Se a descrição deve ser lida como transformação geográfica futura, linguagem simbólica de renovação ou combinação das duas coisas é uma questão de interpretação posterior, sobre a qual não há unanimidade entre leitores judeus e cristãos.

O “mar de bronze” no templo

Em 1 Reis 7 e 2 Crônicas 4, aparece o “mar de fundição” ou “mar de bronze”, uma grande bacia construída para o templo de Salomão. Ela não era um mar natural. Seu nome decorre do tamanho e da forma do objeto em comparação com recipientes comuns.

Esse detalhe mostra por que uma busca simples pelo termo “mar” pode produzir uma lista enganosa. O texto descreve uma peça cultual: uma bacia circular sustentada por figuras de bois, destinada às abluções dos sacerdotes conforme 2 Crônicas 4. Não há motivo geográfico para incluí-la entre os mares da terra bíblica, embora seja uma ocorrência relevante da palavra.

O que é registro bíblico e o que é interpretação posterior

Uma resposta responsável distingue as informações presentes no texto das conclusões obtidas por estudos históricos, tradições de tradução e interpretações religiosas. A Bíblia registra nomes, rotas, limites e acontecimentos associados às águas. Já a forma de localizar certos pontos ou atribuir sentidos simbólicos específicos frequentemente depende de leitura posterior.

  • Registro textual: Êxodo 14 narra uma travessia pelo yam suf; Josué 3 cita o Mar Salgado; os Evangelhos situam episódios no Mar da Galileia.
  • Identificação geográfica consolidada: Mar Grande corresponde ao Mediterrâneo; Mar da Galileia, Mar de Tiberíades e lago de Genesaré são o mesmo lago; Mar Salgado corresponde ao Mar Morto.
  • Ponto debatido: o local exato da travessia de Êxodo 14 não é informado de modo inequívoco e continua sendo discutido.
  • Tradição de tradução: “Mar Vermelho” é a forma tradicional, mas “Mar de Juncos” reflete uma tradução literal defendida por muitos especialistas para yam suf.
  • Interpretação posterior: leituras sobre o simbolismo das águas, a natureza das visões de Ezequiel 47 e Zacarias 14 e o significado teológico das travessias variam entre comunidades e estudiosos.

Assim, não é correto afirmar que a Bíblia estabelece sem debate a rota moderna do êxodo ou que todos os termos traduzidos por “mar” se referem a oceanos. A terminologia antiga é mais ampla, e o contexto de cada passagem é decisivo.

Por que os mares são importantes na narrativa bíblica?

Os mares aparecem como fronteiras, vias de circulação, fontes de sustento e cenários de risco. O Mediterrâneo define o limite ocidental de diversas descrições territoriais. O Mar da Galileia está associado à pesca e à circulação entre cidades da Galileia. O Mar Morto delimita regiões da Transjordânia e de Judá. O Mar Vermelho ou Mar de Juncos está ligado ao enredo de saída do Egito.

Na poesia e na profecia, o mar pode ainda ser retratado como força indomável ou como parte da criação submetida à ação divina, como em Salmo 104 e Jó 38. Em Apocalipse 13, o mar é o lugar de onde emerge uma besta em linguagem visionária; em Apocalipse 21, a frase “o mar já não existe” pertence à descrição simbólica de novos céus e nova terra. Há leituras literais e simbólicas dessa imagem, sem consenso universal.

Em outras palavras, a importância dos mares não é apenas cartográfica. Ela também é narrativa e literária. Mas os sentidos teológicos construídos a partir dessas imagens devem ser identificados como interpretação, não confundidos com uma informação geográfica explícita.

Perguntas frequentes

Quantos mares são citados na Bíblia?

Não existe um número único e indiscutível, porque um mesmo corpo de água recebe vários nomes e porque “mar” pode designar lagos ou uma bacia do templo. Considerando os principais acidentes naturais, destacam-se o Mediterrâneo, o Mar Vermelho ou Mar de Juncos, o Mar da Galileia e o Mar Morto.

O Mar da Galileia é realmente um mar?

Geograficamente, é um lago de água doce. Os Evangelhos e traduções bíblicas usam “mar” de acordo com o vocabulário antigo. Lucas 5 também o chama de lago de Genesaré, confirmando a diferença em relação a um mar aberto.

Mar Vermelho e Mar de Juncos são a mesma coisa?

“Mar Vermelho” é a tradução tradicional de yam suf, influenciada pela antiga tradução grega. “Mar de Juncos” é uma tradução mais literal proposta para o termo hebraico. A relação exata entre o nome e a localização da travessia de Êxodo 14 é debatida.

O Mar Morto aparece com esse nome na Bíblia?

Em geral, as passagens bíblicas usam nomes como Mar Salgado, mar da Arabá e Mar Oriental. “Mar Morto” é a designação moderna mais difundida para esse lago de alta salinidade.

Resumo

  • Os principais mares citados na Bíblia são o Mediterrâneo, o Mar Vermelho ou Mar de Juncos, o Mar da Galileia e o Mar Morto.
  • Mar Grande e Mar Ocidental se referem normalmente ao Mediterrâneo.
  • Mar da Galileia, Mar de Tiberíades e lago de Genesaré são nomes para o mesmo lago de água doce.
  • Mar Salgado, mar da Arabá e Mar Oriental são designações bíblicas ligadas ao atual Mar Morto.
  • A tradução e a localização do yam suf de Êxodo 14 permanecem objeto de discussão acadêmica e tradicional.
  • O “mar de bronze” do templo é uma bacia ritual, não um acidente geográfico.

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