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Quem escreveu o livro de 1 Reis e o que a Bíblia informa

Quem escreveu o livro de 1 Reis? Veja o que o texto bíblico diz, as tradições sobre Jeremias e a análise histórica de sua composição.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
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Quem escreveu o livro de 1 Reis? O próprio livro não identifica um autor individual. A tradição judaica posterior atribuiu sua redação ao profeta Jeremias, enquanto muitos estudiosos entendem que 1 Reis foi compilado por um ou mais editores anônimos, usando fontes antigas e escrevendo a partir de uma perspectiva teológica comum.

O que 1 Reis afirma sobre sua própria autoria

O texto de 1 Reis não começa com o nome de um autor, nem contém uma declaração final que revele quem reuniu e redigiu o material. Isso o diferencia, por exemplo, de livros proféticos que trazem o nome de seu personagem principal no título ou na abertura. Portanto, dizer que a Bíblia identifica diretamente o escritor de 1 Reis seria incorreto: essa informação não existe no próprio livro.

O que o livro faz é mencionar documentos e registros que teriam sido consultados para narrar os acontecimentos de cada reinado. Em diversas fórmulas, o narrador remete o leitor a obras hoje perdidas, como o “Livro da História de Salomão” (1 Reis 11), o “Livro da História dos Reis de Israel” (1 Reis 14; 1 Reis 15; 1 Reis 16) e o “Livro da História dos Reis de Judá” (1 Reis 14; 1 Reis 15; 1 Reis 22).

Essas referências não significam que tais escritos sejam partes sobreviventes da Bíblia. Elas indicam, antes, que o autor ou editor final trabalhou com tradições documentais anteriores, provavelmente registros reais, anais administrativos ou compilações históricas. Nenhum desses livros citados foi preservado de modo identificável.

“Quanto aos demais atos de Salomão, e a tudo quanto fez, e à sua sabedoria, porventura não estão escritos no Livro da História de Salomão?” (1 Reis 11).

A frase mostra uma característica importante da obra: ela não pretende registrar cada evento ocorrido, mas seleciona episódios para contar a história de Israel e Judá sob uma avaliação religiosa e moral. Os reinados são frequentemente julgados conforme a fidelidade ao Senhor, a rejeição da idolatria e a relação com o culto centralizado em Jerusalém.

A tradição que atribui 1 Reis ao profeta Jeremias

Uma antiga tradição judaica atribui a Jeremias a autoria de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis. Essa associação aparece no Talmude Babilônico, no tratado Baba Batra 14b–15a. Nessa lista tradicional, Jeremias teria escrito o livro de Reis, e o profeta Esdras seria associado a outros livros históricos.

Há razões pelas quais essa atribuição pareceu plausível para leitores antigos. Jeremias atuou nos últimos anos do reino de Judá, antes e durante a queda de Jerusalém para a Babilônia, em 586 a.C. Sua mensagem critica a idolatria, a injustiça e a infidelidade da liderança — temas também centrais em 1 e 2 Reis. Além disso, o final de 2 Reis alcança o período do exílio babilônico e registra a libertação do rei Joaquim da prisão, em Babilônia (2 Reis 25).

Entretanto, é necessário separar tradição e prova textual. O texto bíblico não afirma que Jeremias escreveu 1 Reis, e o livro de Jeremias também não reivindica essa autoria. Assim, a atribuição é uma interpretação tradicional posterior, respeitada em parte da literatura judaica e em leituras religiosas, mas não demonstrável pela evidência interna de 1 Reis.

Também há dificuldades cronológicas. A narrativa de 1 Reis começa com a velhice e morte de Davi e segue até o reinado de Acazias, em Israel, e de Josafá, em Judá (1 Reis 1; 1 Reis 22). Esses fatos são muito anteriores ao ministério de Jeremias. Isso não impediria Jeremias de ter usado arquivos e relatos passados, mas exigiria que ele atuasse como compilador de fontes antigas, não como testemunha ocular de toda a narrativa.

Como a pesquisa histórica entende a composição

Na pesquisa bíblica moderna, uma explicação amplamente adotada é que 1 e 2 Reis formavam originalmente uma única obra e foram produzidos por redatores anônimos. Na Bíblia Hebraica, os dois livros são tratados como uma sequência literária; a divisão entre 1 Reis e 2 Reis se consolidou posteriormente, em razão do tamanho do texto e de tradições de cópia e tradução.

Muitos pesquisadores relacionam Reis à chamada História Deuteronomista. Esse é o nome dado a uma hipótese acadêmica segundo a qual Deuteronômio, Josué, Juízes, Samuel e Reis receberam uma organização editorial marcada por ideias semelhantes. Entre elas estão a aliança entre Deus e Israel, a condenação de cultos a outras divindades, a importância da obediência à Lei e a explicação da ruína política como consequência da infidelidade nacional.

Essa hipótese não é uma afirmação do texto bíblico, nem existe consenso absoluto sobre seus detalhes. Alguns estudiosos defendem uma primeira edição perto do fim do reino de Judá, no século VII a.C., seguida de revisão durante o exílio babilônico, no século VI a.C. Outros propõem mais etapas editoriais, ou avaliam de modo diferente a extensão dessa obra histórica. O ponto de maior concordância é que Reis utiliza materiais mais antigos e reflete uma edição final posterior a muitos dos acontecimentos narrados.

O vocabulário e a estrutura ajudam a explicar essa conclusão. Repetidamente, os reis são avaliados por expressões como “fez o que era mau aos olhos do Senhor” ou “fez o que era reto aos olhos do Senhor”. A comparação não é apenas política: o narrador mede os governos à luz de critérios religiosos. Jeroboão, por exemplo, é apresentado como referência negativa para diversos reis do Norte devido aos santuários de Betel e Dã (1 Reis 12; 1 Reis 13; 1 Reis 14).

Fontes mencionadas e o trabalho do compilador

Embora não saibamos o nome do escritor final, 1 Reis deixa pistas sobre o modo como a narrativa foi construída. O autor reúne relatos de sucessão real, conflitos militares, dados sobre construção, episódios proféticos e resumos de reinados. A variedade de material sugere consulta e reelaboração de fontes diferentes.

Fonte ou elementoPassagens em 1 ReisO que registraSituação atual
Livro da História de Salomão1 Reis 11Atos, obras e sabedoria de SalomãoNão preservado de forma identificável
Livro da História dos Reis de Israel1 Reis 14; 1 Reis 15; 1 Reis 16; 1 Reis 22Outros atos dos reis do reino do NorteNão preservado de forma identificável
Livro da História dos Reis de Judá1 Reis 14; 1 Reis 15; 1 Reis 22Outros atos dos reis do reino do SulNão preservado de forma identificável
Relatos proféticos1 Reis 17–19; 1 Reis 21; 1 Reis 22Ministério de Elias, Micaías e confrontos com reisIncorporados à narrativa; fontes separadas são desconhecidas

O compilador não apenas listou dados. Ele organizou a história de forma interpretativa. A construção do templo por Salomão recebe atenção extensa em 1 Reis 5–8, e a divisão do reino é apresentada logo depois do afastamento religioso do rei (1 Reis 11–12). Da mesma forma, os confrontos de Elias com Acabe e Jezabel ocupam espaço muito maior do que vários acontecimentos administrativos. A seleção revela o interesse teológico do livro.

Isso não permite identificar automaticamente cada fonte nem reconstruir seu texto original. Por exemplo, é razoável supor que os registros dos reis tivessem informações cronológicas e administrativas, mas não se sabe sua extensão, seu idioma exato, sua forma literária ou quem os escreveu. Qualquer reconstrução detalhada além dessas referências permanece hipotética.

Datação: quando 1 Reis recebeu sua forma final?

A data de composição depende da compreensão adotada sobre 1 e 2 Reis. Como os livros constituem uma narrativa contínua e 2 Reis termina com acontecimentos do exílio, a edição final da obra é geralmente situada depois de 561 a.C., ano tradicionalmente associado à elevação de Joaquim na Babilônia, descrita em 2 Reis 25. Essa data não aparece numerada no texto bíblico; ela decorre da correlação entre a narrativa e cronologias babilônicas conhecidas.

Isso não quer dizer que todo o conteúdo tenha sido escrito após 561 a.C. Vários materiais podem ser anteriores, inclusive registros feitos durante os próprios reinados. A questão é distinguir a data dos documentos utilizados da data da montagem literária que chegou até nós. Uma crônica da época de Salomão, se existiu na forma indicada em 1 Reis 11, seria muito anterior à edição final de Reis.

Há também uma leitura que enfatiza uma edição no período do rei Josias, no final do século VII a.C., por causa da importância dada à centralização do culto e à reforma religiosa descrita em 2 Reis 22–23. Nessa proposta, o material teria sido ampliado ou atualizado depois da queda de Jerusalém. Outros estudiosos preferem falar em um processo editorial mais longo, sem atribuir tudo a uma única campanha de redação.

  • Data dos eventos narrados: de aproximadamente o fim do século X a.C. até o século IX a.C., no caso de 1 Reis.
  • Data de possíveis fontes reais: varia conforme o reinado a que cada documento se referia; não pode ser estabelecida com precisão.
  • Data provável da forma final de Reis: após eventos do exílio relatados em 2 Reis 25, segundo a leitura predominante na pesquisa histórica.

Por que a autoria anônima é relevante para a leitura do livro

A ausência de um nome não reduz, por si só, o valor histórico ou literário de 1 Reis. Na Antiguidade, obras históricas podiam circular como compilações baseadas em arquivos e tradições, sem a identificação do editor final. Além disso, o interesse do livro não é o mesmo de uma biografia moderna de autores ou de uma crônica política neutra.

O narrador apresenta uma interpretação da história da monarquia. Salomão é lembrado por sua sabedoria e pelo templo, mas também por seu afastamento final em relação ao mandamento divino (1 Reis 3; 1 Reis 8; 1 Reis 11). Jeroboão funda o reino do Norte, mas seu governo é avaliado negativamente por instituir centros de culto rivais (1 Reis 12). Acabe possui peso político significativo, mas é retratado sobretudo em associação à idolatria e ao conflito com Elias (1 Reis 16–22).

Por isso, é importante não confundir duas perguntas. “Quem escreveu?” busca o responsável humano pela forma final do texto. “Qual é a mensagem do livro?” pergunta como o narrador organiza e avalia os acontecimentos. A primeira não recebe uma resposta nominal segura; a segunda pode ser investigada diretamente pela estrutura, pelas repetições e pelas passagens preservadas.

As leituras tradicionais e acadêmicas divergem principalmente no grau de confiança atribuído a Jeremias e no modelo de composição. A tradição identifica um autor específico; a pesquisa histórica costuma falar em editores anônimos e fontes múltiplas. Ambas reconhecem que o livro preserva memória sobre a monarquia israelita e judaíta, mas chegam a conclusões diferentes quanto ao responsável pela redação final.

Perguntas frequentes

Jeremias escreveu 1 Reis?

Uma tradição judaica posterior atribui o livro de Reis a Jeremias, mas 1 Reis não declara isso e não há prova textual conclusiva. Por essa razão, a autoria de Jeremias deve ser apresentada como tradição, não como fato comprovado pelo próprio texto bíblico.

1 Reis e 2 Reis foram originalmente um único livro?

Sim. Na tradição da Bíblia Hebraica, Reis é normalmente entendido como uma obra contínua. A divisão em 1 Reis e 2 Reis ocorreu posteriormente, ligada à transmissão manuscrita e às traduções antigas, que precisavam acomodar um texto longo em rolos separados.

Quais fontes o autor de 1 Reis cita?

O livro cita o Livro da História de Salomão, o Livro da História dos Reis de Israel e o Livro da História dos Reis de Judá. Essas obras são mencionadas como fontes de informações adicionais, mas não foram preservadas de forma identificável.

O livro foi escrito na época de Salomão?

Não é possível afirmar isso. Alguns dados podem ter vindo de registros contemporâneos a Salomão, mas a obra de Reis, considerada em conjunto com 2 Reis, inclui acontecimentos muito posteriores, inclusive do exílio babilônico. A forma final é geralmente datada depois desses eventos.

Resumo

  • O livro de 1 Reis não informa o nome de seu autor.
  • A tradição judaica posterior atribui 1 e 2 Reis ao profeta Jeremias, mas essa atribuição não é confirmada pelo texto bíblico.
  • O livro cita registros hoje perdidos sobre Salomão e sobre os reis de Israel e Judá.
  • Muitos estudiosos entendem que 1 e 2 Reis foram compilados por redatores anônimos, com uso de fontes antigas.
  • A narrativa avalia os reis segundo critérios teológicos, especialmente fidelidade ao Senhor e rejeição da idolatria.
  • A edição final de Reis é geralmente situada no período do exílio babilônico ou após ele, embora haja debate sobre suas etapas de composição.

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