Ir para o conteúdo
Perguntas e explicações bíblicas com clareza Como o site funciona
Bíblia

Quem escreveu o livro de Ester e o que se sabe sobre sua composição

Quem escreveu o livro de Ester? Veja o que a Bíblia informa, as tradições sobre autoria, o contexto persa e os debates atuais.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
Compartilhar WhatsApp Facebook X LinkedIn Telegram E-mail

Quem escreveu o livro de Ester? A Bíblia não identifica pelo nome o autor do livro. A tradição judaica atribuiu a obra principalmente a Mardoqueu, às vezes em associação com Ester, enquanto estudiosos modernos costumam entendê-la como uma narrativa anônima composta por um autor judeu familiarizado com o ambiente persa.

O que o texto bíblico diz sobre a autoria

O livro de Ester não começa com a identificação de seu escritor, diferentemente de livros proféticos como Isaías ou Jeremias, que apresentam seus personagens principais como porta-vozes da mensagem. Também não há, no encerramento, uma assinatura ou nota editorial que revele quem redigiu a narrativa. Portanto, a resposta mais segura, baseada apenas no texto bíblico, é clara: o nome do autor não é informado.

A história se passa em Susã, uma das capitais do Império Persa, durante o reinado de Assuero, nome pelo qual muitas traduções bíblicas designam o rei geralmente associado a Xerxes I. O enredo acompanha a ascensão de Ester à condição de rainha, a ameaça de extermínio contra os judeus promovida por Hamã e a atuação de Mardoqueu para reverter a situação. Os acontecimentos culminam na instituição da festa de Purim, explicada em Ester 9.

Há, porém, passagens que relacionam Mardoqueu à preservação da memória dos fatos. Ester 9,20 afirma que ele “escreveu estas coisas” e enviou cartas aos judeus de todas as províncias. Mais adiante, Ester 9,29 diz que a rainha Ester e Mardoqueu escreveram com plena autoridade para confirmar a celebração de Purim. Essas declarações são importantes, mas não afirmam diretamente que Mardoqueu ou Ester tenham redigido o livro inteiro em sua forma atual.

“Mardoqueu escreveu estas coisas e enviou cartas a todos os judeus...” (Ester 9,20).

Assim, o texto registra uma atividade documental ligada à instituição de Purim. A identificação desse documento com a obra completa de Ester é uma conclusão possível, mas pertence ao campo da interpretação.

Mardoqueu: a principal atribuição da tradição judaica

A atribuição mais conhecida aponta para Mardoqueu. Ela se apoia principalmente em Ester 9,20-23, onde ele redige uma comunicação para estabelecer a observância anual de Purim, e em Ester 10,2-3, texto que destaca sua posição de autoridade e seu cuidado pelo povo judeu. Mardoqueu aparece como personagem central, conhecedor da realidade administrativa do império e diretamente envolvido na preservação de documentos e decretos.

Uma antiga tradição rabínica, preservada no Talmude Babilônico, tratado Baba Batra 15a, atribui Ester aos “homens da Grande Assembleia”. Essa expressão é debatida e não se refere necessariamente a um único escritor. Em algumas leituras tradicionais, Mardoqueu teria sido o autor ou a fonte principal, e uma comunidade de sábios teria preservado, organizado ou reconhecido o relato.

É importante separar os níveis de evidência. A Bíblia apresenta Mardoqueu escrevendo cartas sobre Purim; a tradição posterior relaciona esse fato à autoria do livro; mas nenhuma passagem declara literalmente: “Mardoqueu escreveu o livro de Ester”. Por isso, dizer que ele é o autor como um dado indiscutível ultrapassa o que o texto permite afirmar.

Por que Mardoqueu é considerado um candidato plausível?

Além das cartas mencionadas em Ester 9, há elementos narrativos que tornam a hipótese compreensível. O livro demonstra interesse pelos procedimentos da corte, pelos decretos reais, pela organização das províncias e pela comunicação oficial em diversas línguas. Mardoqueu, depois de sua promoção, torna-se o segundo em importância no reino, conforme Ester 10,3. Ele teria, em tese, acesso a informações e documentos relevantes.

Mesmo assim, plausibilidade não é prova. Um autor posterior também poderia ter usado memórias, documentos comunitários ou tradições sobre Mardoqueu para escrever a narrativa. A obra menciona ainda os “livros das crônicas dos reis da Média e da Pérsia” em Ester 10,2, mas não cita o conteúdo dessas crônicas nem permite verificar se o autor as consultou diretamente.

Ester teria escrito o livro?

Ester também é associada à escrita no próprio relato. Ester 9,29 declara que ela e Mardoqueu enviaram uma carta para confirmar uma segunda mensagem sobre Purim. O versículo demonstra que a rainha participou formalmente da confirmação da celebração. Isso é um dado textual relevante, pois apresenta Ester como figura ativa na autoridade da correspondência.

No entanto, a passagem não resolve a questão da autoria literária. Escrever ou endossar uma carta oficial não equivale necessariamente a produzir toda a narrativa, que abrange desde o banquete de Assuero, em Ester 1, até a exaltação final de Mardoqueu, em Ester 10. Não há evidência bíblica de que Ester tenha composto essa narrativa completa.

Algumas leituras devocionais ou populares dizem que Ester foi a autora por causa de Ester 9,29. Essa ideia pode ser apresentada como hipótese, mas deve receber a qualificação adequada: não é uma conclusão explícita da Bíblia nem uma atribuição consensual nas tradições judaicas ou na pesquisa acadêmica.

Comparação entre o texto, as tradições e os estudos atuais

A discussão sobre a autoria mistura fontes de natureza diferente. O texto bíblico é a fonte primária; as tradições rabínicas são testemunhos posteriores de interpretação e transmissão; e os estudos históricos e literários modernos usam análise de linguagem, gênero narrativo e contexto. A tabela abaixo organiza as principais posições.

Posição ou dado Base principal O que pode ser afirmado Limite da evidência
Autor anônimo Livro de Ester, do capítulo 1 ao 10 O texto não nomeia seu redator. O anonimato não revela quem escreveu.
Mardoqueu como autor ou fonte Ester 9,20-23; Ester 10,2-3 Mardoqueu escreveu cartas e teve papel decisivo na memória de Purim. As passagens não dizem que ele redigiu o livro inteiro.
Ester como coautora de uma carta Ester 9,29 Ester participou da confirmação escrita da celebração. Não há declaração de que ela compôs a obra completa.
Grande Assembleia Talmude Babilônico, Baba Batra 15a Uma tradição judaica posterior atribui o livro a um grupo de sábios. A expressão e seu alcance histórico são discutidos.
Autor judeu posterior e anônimo Análise literária e histórica moderna É uma hipótese comum entre pesquisadores contemporâneos. Não há consenso sobre identidade, cidade ou data exata.

Quando o livro de Ester foi escrito?

A data de composição também é discutida, e a incerteza influencia a pergunta sobre autoria. O cenário narrativo é persa: Assuero reina sobre 127 províncias, da Índia à Etiópia, conforme Ester 1,1. Muitos identificam Assuero com Xerxes I, que governou o Império Persa entre 486 e 465 a.C. Se essa identificação estiver correta, os eventos narrados seriam situados no século V a.C.

Mas a data em que a história teria ocorrido não é automaticamente a data em que foi redigida. Uma obra pode narrar eventos contemporâneos, ser escrita pouco depois deles ou resultar de um processo posterior de preservação e edição. Alguns intérpretes defendem uma redação próxima ao período persa, entre os séculos V e IV a.C., por causa do conhecimento de costumes e vocabulário persas. Outros propõem uma data mais tardia, já no período helenístico, observando características literárias e o desenvolvimento da festa de Purim.

Não existe uma data universalmente aceita. Também não há manuscrito original datado que resolva o problema. Os manuscritos mais antigos disponíveis são cópias posteriores, e a forma grega de Ester contém acréscimos que não aparecem no texto hebraico tradicional. Esses acréscimos, presentes em versões ligadas à Septuaginta, ampliam elementos religiosos e narrativos; por isso, a discussão sobre a história textual do livro é mais complexa do que a pergunta sobre um único autor pode sugerir.

O conhecimento do mundo persa resolve a questão?

Não completamente. O livro menciona Susã, decretos reais, mensageiros, províncias, banquetes e práticas de corte. Tais detalhes são frequentemente usados para defender que o autor conhecia o ambiente persa. Mas os especialistas divergem quanto ao peso desses dados. Alguns os consideram sinais de familiaridade histórica; outros observam que narrativas posteriores também poderiam preservar tradições ou empregar convenções literárias sobre a realeza persa.

O mesmo vale para o nome Assuero e para a descrição do império. Há correspondências relevantes entre a narrativa e o contexto aquemênida, mas não há uma inscrição extrabíblica que cite Ester, Mardoqueu ou Hamã e confirme todos os episódios do livro. A ausência dessa confirmação não prova que a narrativa seja falsa; apenas impede que a autoria e cada detalhe histórico sejam demonstrados por fontes independentes.

Por que a autoria permanece debatida

O livro de Ester é uma narrativa cuidadosamente construída, com reversões de destino, banquetes, decretos, ironias e repetições. Esses traços favorecem o estudo literário, mas não fornecem o nome do escritor. O narrador conhece os acontecimentos e conduz a história de modo amplo, incluindo cenas do palácio, conversas privadas e decisões administrativas. Isso pode refletir acesso a tradições antigas, liberdade narrativa ou ambas as coisas.

Outro fator é que o nome de Deus não aparece explicitamente no texto hebraico de Ester. Esse aspecto gerou muitas interpretações sobre o propósito e a data da obra, mas não identifica seu autor. Alguns leem a ausência como recurso literário que destaca uma providência não nomeada; outros a relacionam ao caráter da narrativa de diáspora; outros ainda ressaltam que as versões gregas acrescentaram orações e referências explícitas a Deus. São interpretações posteriores e divergentes, não informações diretas sobre a autoria.

Também não se deve confundir autor, narrador, fonte e editor. Mardoqueu pode ter produzido cartas ou registros; uma tradição pode ter sido transmitida oralmente; e um redator anônimo pode ter dado à narrativa sua forma final. Em textos antigos, esses papéis nem sempre podem ser separados com precisão. No caso de Ester, não há documentação suficiente para estabelecer uma cadeia de composição comprovada.

O que muda entre o texto hebraico e as versões gregas

Para entender o debate, é útil observar que Ester chegou em mais de uma forma textual. O texto hebraico tradicional contém dez capítulos e não menciona Deus pelo nome. Já a versão grega antiga inclui passagens adicionais, tradicionalmente organizadas como acréscimos de A a F em muitas Bíblias. Elas trazem sonhos de Mardoqueu, orações, detalhes de decretos e explicações religiosas mais explícitas.

Essas diferenças não fornecem uma solução simples sobre quem escreveu o livro. Em vez disso, mostram que a obra teve uma história de transmissão e interpretação. Comunidades judaicas e cristãs não organizaram todos os seus cânones da mesma maneira, e a extensão de Ester pode variar conforme a tradição bíblica usada. Esse dado precisa ser reconhecido sem reduzir uma versão à outra.

  • Texto hebraico: apresenta a narrativa conhecida em Ester 1–10.
  • Versões gregas: preservam acréscimos narrativos e religiosos ausentes do texto hebraico.
  • Conclusão para a autoria: as variantes indicam transmissão textual complexa, não a identificação segura de um escritor.

Perguntas frequentes

Mardoqueu escreveu o livro de Ester?

Não é possível afirmar isso com certeza. Ester 9,20 diz que Mardoqueu escreveu sobre os acontecimentos e enviou cartas relacionadas a Purim. A tradição o considera um candidato importante, mas o livro não declara que ele foi o autor de toda a obra.

A Bíblia informa quem escreveu o livro de Ester?

Não. O livro é anônimo. Nenhum versículo identifica de modo direto o escritor responsável por sua redação final.

Ester e Mardoqueu escreveram juntos?

Ester 9,29 afirma que ambos escreveram uma carta para confirmar a observância de Purim. Isso comprova participação conjunta em uma comunicação oficial, mas não demonstra coautoria do livro inteiro.

O livro de Ester foi escrito durante o reinado de Xerxes?

Essa possibilidade é defendida por alguns intérpretes, sobretudo porque Assuero costuma ser identificado com Xerxes I. Contudo, a data de composição é debatida; outros estudiosos situam a redação em período posterior. Não há consenso nem prova conclusiva.

Resumo

  • A resposta direta para quem escreveu o livro de Ester é que o autor não é identificado pela Bíblia.
  • Mardoqueu é o principal nome associado à autoria porque escreveu cartas sobre Purim em Ester 9.
  • Ester também participou de uma carta oficial, segundo Ester 9,29, sem que isso prove que escreveu a narrativa completa.
  • A tradição judaica posterior associa o livro à Grande Assembleia, mas essa atribuição é interpretada de formas diferentes.
  • Pesquisadores modernos geralmente falam em um autor judeu anônimo, com propostas variadas de data e contexto.
  • As versões hebraica e grega de Ester mostram uma transmissão textual complexa e não resolvem a autoria de modo definitivo.

Continue lendo

Artigos relacionados

Mais em Bíblia