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Quem escreveu o livro de Marcos segundo a Bíblia e a tradição antiga

Quem escreveu o livro de Marcos? Veja o que o Novo Testamento informa, o testemunho cristão antigo e os debates sobre sua autoria.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quem escreveu o livro de Marcos? O texto do evangelho não identifica seu autor pelo nome, mas a tradição cristã antiga o atribui a João Marcos, colaborador de Paulo, Barnabé e Pedro. Essa atribuição é antiga e amplamente aceita, embora não possa ser demonstrada de modo conclusivo apenas pelo próprio livro.

O que o Evangelho de Marcos diz sobre seu autor

O Evangelho de Marcos é anônimo em seu conteúdo. Diferentemente de cartas do Novo Testamento que começam com o nome de quem escreve, como Romanos 1 ou Gálatas 1, Marcos inicia diretamente com a apresentação de Jesus: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo” (Marcos 1). Em nenhum ponto o narrador afirma: “Eu, Marcos, escrevi este relato”.

Por isso, é importante separar dois níveis de informação. O que o texto bíblico registra é um evangelho narrativo sem assinatura interna explícita. O que a tradição posterior afirma é que esse evangelho foi escrito por Marcos, ligado ao apóstolo Pedro.

Os títulos presentes em manuscritos antigos, normalmente traduzidos como “Segundo Marcos”, mostram que, quando os quatro evangelhos passaram a circular como coleção identificada, este foi associado a Marcos. Contudo, os títulos não pertencem à narrativa original tal como ela se apresenta; são identificações transmitidas na tradição manuscrita.

O dado central é simples: o livro não se nomeia, mas foi recebido muito cedo pela igreja antiga como um evangelho ligado a Marcos e, por meio dele, ao testemunho de Pedro.

Quem foi João Marcos no Novo Testamento

O personagem mais frequentemente identificado com o autor tradicional é João Marcos. Atos 12 menciona “João, chamado Marcos”, cuja mãe, Maria, possuía uma casa em Jerusalém onde um grupo de cristãos estava reunido em oração após a prisão de Pedro. Esse detalhe coloca Marcos em um ambiente ligado à comunidade de Jerusalém e, no próprio relato, próximo de Pedro.

Em Atos 12, Marcos acompanha Barnabé e Saulo quando eles retornam de Jerusalém para Antioquia. Mais adiante, ele parte com os dois na primeira viagem missionária, mas deixa o grupo em Perge, na Panfília, e volta para Jerusalém (Atos 13). Esse abandono se torna motivo de desacordo: em Atos 15, Barnabé deseja levar Marcos outra vez, enquanto Paulo discorda por causa da desistência anterior. Barnabé segue com Marcos para Chipre, e Paulo parte com Silas.

As referências posteriores sugerem que Marcos voltou a ser considerado um colaborador útil. Colossenses 4 o chama de primo de Barnabé e o situa entre cooperadores relacionados a Paulo. Filemom 1 também o lista entre os colaboradores do apóstolo. Em 2 Timóteo 4, Paulo pede que Timóteo leve Marcos, afirmando que ele é útil para o ministério. Há debate acadêmico sobre autoria e data de algumas cartas atribuídas a Paulo, mas, no texto canônico, essas são as referências que vinculam Marcos ao círculo paulino.

Uma passagem especialmente relevante é 1 Pedro 5, onde o autor envia saudações de “Marcos, meu filho”. A expressão pode ser entendida como relação espiritual ou de discipulado, não como paternidade biológica. A tradição antiga conectou justamente esse Marcos a Pedro e ao segundo evangelho.

As referências bíblicas a Marcos

PassagemComo Marcos é apresentadoRelevância para a autoria tradicional
Atos 12“João, chamado Marcos”, ligado à casa de sua mãe em JerusalémMostra sua presença na comunidade cristã primitiva e no contexto de Pedro.
Atos 13Companheiro de Barnabé e Saulo, que retorna de PergeRelaciona Marcos às primeiras missões narradas em Atos.
Atos 15Motivo de desacordo entre Paulo e BarnabéConfirma que era uma figura conhecida entre os missionários.
Colossenses 4Colaborador e primo de BarnabéIndica sua integração no círculo de cooperadores paulinos.
1 Pedro 5“Marcos, meu filho”É a principal base bíblica para a ligação tradicional entre Marcos e Pedro.

O testemunho dos escritores cristãos antigos

A atribuição a Marcos depende sobretudo de fontes cristãs dos séculos II e III. A mais citada é uma tradição preservada por Eusébio de Cesareia, historiador do século IV, ao reproduzir declarações atribuídas a Papias, bispo de Hierápolis, no início do século II. Segundo esse testemunho, Marcos teria sido “intérprete de Pedro” e registrado cuidadosamente aquilo de que se lembrava sobre as palavras e ações de Jesus, ainda que não em ordem organizada.

O texto original de Papias não chegou completo até hoje; o que existe são fragmentos citados por autores posteriores. Isso limita o grau de certeza histórica. Ainda assim, sua importância é grande porque representa uma tradição relativamente antiga sobre a origem do evangelho.

Irineu de Lião, escrevendo no final do século II, afirmou que Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu por escrito a pregação de Pedro depois da partida de Pedro e Paulo. Outros autores antigos, como Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e Jerônimo, também associaram o evangelho a Marcos e à memória apostólica de Pedro, embora nem todos descrevam as circunstâncias da redação da mesma maneira.

Esses testemunhos não são contemporâneos à composição do livro. Eles não equivalem a uma assinatura do próprio autor. Porém, formam uma cadeia de tradição antiga, consistente em seu ponto principal: Marcos escreveu um evangelho relacionado à pregação de Pedro.

O que Papias realmente permite afirmar

É preciso evitar duas conclusões exageradas. A primeira seria dizer que Papias prova, sem possibilidade de dúvida, a autoria de Marcos. Não prova: trata-se de uma fonte externa, preservada indiretamente e escrita décadas depois dos acontecimentos narrados. A segunda seria descartá-lo como se não tivesse valor algum. Isso também não corresponde ao debate histórico, pois Papias é uma das testemunhas mais antigas disponíveis sobre a formação dos evangelhos.

Além disso, a palavra traduzida como “intérprete” pode ter sentidos diferentes. Ela pode indicar alguém que traduzia idiomas, alguém que explicava a mensagem de outro pregador ou, de modo mais amplo, um mediador literário de tradições recebidas. O fragmento não esclarece exatamente qual função Marcos desempenhava junto a Pedro.

Marcos escreveu a partir da pregação de Pedro?

Essa é a leitura tradicional mais conhecida. Ela se apoia principalmente em 1 Pedro 5 e nos relatos de Papias e Irineu. Nessa perspectiva, Marcos não foi um dos Doze apóstolos nem é apresentado no Novo Testamento como testemunha direta de todos os fatos da vida de Jesus. Sua autoridade estaria em registrar, de forma organizada para leitores posteriores, a pregação de Pedro.

Alguns aspectos literários do evangelho foram frequentemente usados em favor dessa ligação. Pedro aparece com destaque em momentos decisivos: é chamado entre os primeiros discípulos em Marcos 1, confessa Jesus como Cristo em Marcos 8, presencia eventos marcantes e também nega Jesus em Marcos 14. O relato não disfarça suas falhas, o que alguns leitores entendem como sinal de uma memória associada ao próprio apóstolo.

Entretanto, esse argumento é interpretativo, não uma declaração do livro. O destaque de Pedro pode decorrer de seu papel narrativo e histórico entre os discípulos, sem necessariamente provar que ele foi a principal fonte do autor. Da mesma forma, detalhes vívidos em certas cenas não demonstram por si só que o narrador registrou lembranças pessoais de Pedro.

Portanto, a formulação mais precisa é esta: a tradição antiga afirma que Marcos escreveu a partir da pregação ou das recordações de Pedro; o evangelho, em si, não declara essa dependência.

Quando e onde o Evangelho de Marcos foi escrito

O livro não fornece uma data nem informa claramente seu lugar de composição. Essas questões são discutidas por estudiosos a partir de indícios internos, da relação com outros evangelhos e de tradições antigas. A maioria das propostas situa Marcos entre os anos 60 e 70 d.C., embora existam defensores de datas um pouco anteriores ou posteriores.

Uma razão para datá-lo perto de 70 d.C. é Marcos 13, discurso em que Jesus fala da destruição do templo. Alguns intérpretes entendem que a forma do texto sugere uma escrita no contexto da guerra judaico-romana e da queda de Jerusalém, ocorrida em 70 d.C. Outros sustentam que o evangelho pode ter sido escrito antes desse evento, tratando a fala como uma previsão de Jesus. O texto, sozinho, não resolve definitivamente a questão.

Roma é a localização tradicional mais mencionada, sobretudo porque autores antigos associam Marcos a Pedro e porque o evangelho explica certos costumes judaicos e preserva alguns termos latinos. Ainda assim, esses elementos não constituem prova conclusiva de uma redação em Roma. Síria, Galileia e outras regiões do Império Romano também foram sugeridas no estudo moderno.

  • Data tradicional aproximada: década de 60 d.C., em conexão com Pedro.
  • Data acadêmica frequente: entre 65 e 75 d.C., muitas vezes em torno de 70 d.C.
  • Local tradicional: Roma.
  • Grau de certeza: nenhum desses dados é informado diretamente pelo evangelho.

Principais leituras sobre a autoria de Marcos

Há concordância ampla de que o evangelho foi originalmente anônimo. A divergência está no valor dado à atribuição tradicional. Não existe uma única conclusão aceita por todos os pesquisadores ou por todas as tradições cristãs.

Leitura tradicional

A leitura tradicional identifica o autor com João Marcos de Atos 12, companheiro de Barnabé e Paulo e associado a Pedro em 1 Pedro 5. Ela considera o testemunho de Papias e de Irineu suficientemente antigo e coerente para apoiar a autoria. Nessa visão, Marcos teria escrito para preservar a proclamação de Pedro, provavelmente para cristãos de origem não judaica.

Leitura histórico-crítica

Muitos estudos histórico-críticos mantêm a designação prática “Marcos” para o livro, mas ressaltam que ela não pode ser comprovada. Essa leitura entende que o autor foi um cristão de língua grega, bem informado sobre tradições a respeito de Jesus e capaz de explicar práticas judaicas a parte de seus leitores. Alguns pesquisadores aceitam que ele poderia ser João Marcos; outros consideram a identificação possível, mas incerta; outros suspendem qualquer identificação pessoal.

Onde as leituras divergem

As duas posições não divergem sobre o anonimato formal do texto: ambas reconhecem que o evangelho não traz uma assinatura no corpo da obra. Elas divergem sobre a confiabilidade histórica da tradição externa. A leitura tradicional vê nessa tradição uma base suficiente para uma identificação responsável. A leitura mais cética considera que a distância temporal e a ausência de confirmação interna impedem uma conclusão firme.

Também há discussões sobre o idioma. O evangelho foi composto em grego, como mostra sua forma textual preservada. Isso não impede que seu autor conhecesse tradições aramaicas ou tivesse origem judaica; apenas significa que a redação final conhecida foi produzida em grego.

Por que a autoria importa para a leitura do livro

Saber quem escreveu um texto ajuda a compreender seu contexto, mas não deve levar a afirmar mais do que as fontes permitem. Se a tradição sobre João Marcos e Pedro estiver correta, o evangelho ganha uma conexão próxima com uma testemunha apostólica. Se essa identificação não puder ser estabelecida com certeza, o livro continua sendo um documento antigo que apresenta Jesus por meio de tradições recebidas e organizadas por um autor cristão do século I.

O próprio Evangelho de Marcos concentra sua atenção menos no nome de seu escritor e mais na identidade, nas ações, nos ensinamentos, na morte e na ressurreição de Jesus. O ritmo narrativo é direto; Jesus é mostrado em atividade desde Marcos 1, e os discípulos são retratados com compreensão parcial e falhas recorrentes. A paixão ocupa uma parte extensa do relato, especialmente de Marcos 11 a 15.

Por isso, atribuir o livro a Marcos não significa tratar cada detalhe sobre sua redação como conhecido. A informação segura deve ser apresentada em níveis: o texto é anônimo; a tradição antiga o atribui a Marcos; a identificação com João Marcos e sua relação literária com Pedro são plausíveis e tradicionais, mas discutidas em termos de comprovação histórica.

Perguntas frequentes

Marcos foi um dos doze apóstolos?

Não. O Novo Testamento não inclui Marcos na lista dos Doze em Marcos 3, Mateus 10, Lucas 6 ou Atos 1. A tradição o apresenta como colaborador de líderes apostólicos, especialmente de Pedro, e não como apóstolo do grupo dos Doze.

O próprio livro afirma que Pedro contou a história a Marcos?

Não. O Evangelho de Marcos não diz que Pedro foi sua fonte. Essa associação vem de 1 Pedro 5 e de escritores cristãos antigos, sobretudo da tradição atribuída a Papias e do testemunho de Irineu.

João Marcos e Marcos evangelista são certamente a mesma pessoa?

Não há uma afirmação direta que una todos os dados de forma definitiva. A identificação é a posição tradicional e é considerada possível por muitos estudiosos, mas o nome Marcos era comum no mundo romano. Portanto, ela não pode ser provada com certeza absoluta.

Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito?

Muitos estudiosos entendem que sim e datam Marcos antes de Mateus e Lucas, pois esses dois evangelhos compartilham grande quantidade de material e formulações com ele. Essa hipótese é chamada de prioridade de Marcos. Ela é majoritária no estudo moderno, mas não é afirmada pelo próprio Novo Testamento.

Resumo

  • O Evangelho de Marcos não informa, em seu próprio texto, o nome de quem o escreveu.
  • A tradição cristã antiga atribui o livro a Marcos, geralmente identificado com João Marcos de Atos 12.
  • As passagens de Atos, Colossenses, Filemom e 1 Pedro mostram Marcos ligado a Barnabé, Paulo e Pedro.
  • Papias, Irineu e outros escritores antigos relacionam o evangelho à pregação de Pedro.
  • A autoria tradicional é antiga e relevante, mas não é demonstrável de modo conclusivo por uma assinatura interna.
  • Data, local de composição e o grau exato da participação de Pedro permanecem temas debatidos.

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