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Quem foi Artaxerxes na Bíblia e qual foi seu papel em Jerusalém?

Quem foi Artaxerxes na Bíblia: conheça os reis persas citados em Esdras e Neemias, seus decretos e as questões de identificação histórica.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quem foi Artaxerxes na Bíblia? Esse nome designa um rei persa mencionado especialmente nos livros de Esdras e Neemias, ligado a decisões imperiais que afetaram Jerusalém após o exílio babilônico. O texto bíblico o apresenta como autoridade sobre uma vasta região; a identificação exata de todas as ocorrências com reis conhecidos da história, porém, é objeto de debate.

Artaxerxes no contexto do Império Persa

Artaxerxes é a forma grega, adotada em muitas traduções portuguesas, de um nome real persa. No mundo antigo, reis do Império Aquemênida governavam territórios extensos, do Egito a áreas da Ásia Central, por meio de províncias, funcionários locais, tributos e correspondência oficial. Judá fazia parte desse domínio depois da conquista da Babilônia pelos persas, em 539 a.C.

Na narrativa bíblica pós-exílica, a população de Judá e Jerusalém não aparece como politicamente independente. A reconstrução do templo, a organização religiosa, a situação das muralhas e a administração local dependiam, em diferentes níveis, de permissões da corte persa. É nesse cenário que os livros de Esdras e Neemias citam reis como Ciro, Dario e Artaxerxes.

O nome Artaxerxes ocorre em contextos distintos. Em Esdras 4, ele aparece numa troca de cartas sobre a reconstrução da cidade. Em Esdras 7, o rei envia Esdras a Jerusalém com uma carta que autoriza medidas relativas ao culto e à Lei. Em Neemias 1–2, Neemias serve na corte e recebe permissão para viajar a Jerusalém e restaurar suas muralhas. O texto não oferece uma biografia do monarca, nem descreve sua ascensão ao trono, família ou morte.

O que os textos bíblicos registram diretamente

Para entender quem foi Artaxerxes na Bíblia, é importante distinguir o que as passagens efetivamente dizem daquilo que historiadores e leitores posteriores concluíram. Os textos o retratam sobretudo como o rei que recebe acusações, emite ordens e concede autorizações administrativas.

A ordem para interromper a obra em Esdras 4

Em Esdras 4, 6–23, opositores dos habitantes de Judá enviam uma acusação ao rei. A carta sustenta que Jerusalém seria uma cidade rebelde e prejudicial aos interesses imperiais. Depois de mandar verificar registros, Artaxerxes responde que a obra deve parar até uma nova ordem. Os adversários, então, vão a Jerusalém e fazem cessar o trabalho “à força e com violência”, segundo a narrativa.

Um ponto relevante é que a seção de Esdras 4 não trata simplesmente da construção do templo. O conteúdo da acusação menciona a reedificação da cidade, seus muros e fundamentos. Isso ajuda a explicar por que a ordem régia se concentra no risco político de uma cidade fortificada e historicamente associada a revoltas.

A carta em favor de Esdras

Em Esdras 7, 11–26, Artaxerxes é apresentado como emissor de uma carta dirigida a Esdras, descrito como sacerdote e escriba versado na Lei de Moisés. O documento permite que israelitas dispostos retornem a Jerusalém com Esdras, autoriza a entrega de prata, ouro e provisões para o templo e estabelece isenções tributárias para certos servidores do santuário.

A carta também prevê que Esdras nomeie magistrados e juízes e ensine a lei do Deus de Israel àqueles que não a conhecessem. A formulação combina interesses religiosos e administrativos: o rei favorece o culto local e, ao mesmo tempo, busca ordem em uma província de seu império. O texto bíblico não explica os motivos pessoais de Artaxerxes nem afirma que ele tenha aderido à fé israelita.

Neemias, copeiro do rei

Em Neemias 1–2, Artaxerxes é o rei para quem Neemias trabalha como copeiro. Ao saber que Jerusalém está com muralhas derrubadas e portas queimadas, Neemias demonstra tristeza diante do soberano. O rei pergunta a razão de sua aparência e, após ouvir o pedido, permite que ele vá reconstruir a cidade.

Neemias recebe cartas para governadores da região além do Eufrates, a fim de garantir sua passagem, e outra para Asafe, guarda da floresta real, para obter madeira. Em Neemias 2, 6, o relato acrescenta que a rainha estava sentada ao lado do rei e que Artaxerxes perguntou quanto tempo Neemias ficaria ausente. A passagem registra a autorização, mas não identifica a rainha nem detalha a política interna persa.

“Se é do agrado do rei, e se o teu servo é aceito em tua presença, peço que me envies a Judá, à cidade dos sepulcros de meus pais, para que eu a reedifique.” (Neemias 2)

Qual Artaxerxes é mencionado nos livros de Esdras e Neemias?

A identificação mais comum entre historiadores e em grande parte dos comentários bíblicos é que o Artaxerxes de Esdras 7 e Neemias 2 seja Artaxerxes I, rei persa que governou de 465 a 424 a.C. Essa conclusão se apoia, principalmente, na compatibilidade entre os anos de reinado citados nas narrativas e a cronologia persa geralmente aceita.

Esdras chega a Jerusalém no sétimo ano de Artaxerxes (Esdras 7, 7–8), e Neemias recebe sua missão no vigésimo ano do rei (Neemias 2, 1). Se o monarca for Artaxerxes I, esses marcos corresponderiam aproximadamente a 458/457 a.C. e 445/444 a.C., dependendo do método utilizado para contar os anos régios. Mais adiante, Neemias 13, 6 menciona o trigésimo segundo ano de Artaxerxes, usualmente situado em 433/432 a.C.

Apesar disso, não há consenso absoluto sobre cada referência. Alguns estudiosos propõem que o Artaxerxes de Esdras 4, 7–23 possa ser Artaxerxes I, entendendo a passagem como um episódio anterior aos eventos de Neemias. Outros levantam questões sobre a organização literária de Esdras 4, pois o capítulo reúne exemplos de oposição em períodos diferentes e interrompe temporariamente a sequência do reinado de Dario.

Também existem leituras minoritárias que tentam associar determinadas passagens a Artaxerxes II, que reinou de 404 a 358 a.C. Essa hipótese altera as datas de Esdras e Neemias e procura harmonizar indícios internos com reconstruções históricas específicas. Ela não é a posição predominante na pesquisa histórica, mas mostra que a cronologia do período pós-exílico continua discutida em alguns detalhes.

Datas e referências: o que se pode comparar

A tabela a seguir reúne os principais dados mencionados no texto bíblico e a identificação histórica mais frequentemente proposta. As datas são aproximadas, pois calendários antigos, formas de contar o primeiro ano de reinado e a composição literária dos livros geram variações de um ano em algumas reconstruções.

PassagemAno citadoEvento narradoIdentificação mais comumData aproximada
Esdras 4, 7–23Não informadoOrdem para cessar a reconstrução da cidadeGeralmente Artaxerxes IAntes de 445 a.C.; data disputada
Esdras 7, 7–87º anoMissão de Esdras a JerusalémArtaxerxes I458/457 a.C.
Neemias 2, 120º anoAutorização dada a NeemiasArtaxerxes I445/444 a.C.
Neemias 5, 1420º ao 32º anoPeríodo do governo de Neemias em JudáArtaxerxes I445/444 a 433/432 a.C.
Neemias 13, 632º anoRetorno de Neemias à corte realArtaxerxes I433/432 a.C.

Por que Esdras 4 parece interromper a cronologia?

Esdras 4 é uma das razões pelas quais a pergunta sobre Artaxerxes exige cautela. O capítulo começa falando da oposição à reconstrução do templo nos dias de Ciro e continua até o reinado de Dario. Em seguida, menciona Assuero e Artaxerxes, para então voltar, em Esdras 4, 24, à obra do templo no segundo ano de Dario.

Muitos intérpretes entendem que Esdras 4, 6–23 funciona como uma digressão: o autor apresentaria exemplos posteriores da persistência da oposição, não uma sequência contínua dos acontecimentos anteriores. Nessa leitura, a menção a Artaxerxes antecipa uma controvérsia posterior sobre os muros e a cidade, e o versículo 24 retoma o período de Dario.

Outros leitores tentam organizar o capítulo como uma cronologia mais direta, o que torna mais difícil conciliar os reinados e as obras mencionadas. A divergência não decorre de uma falta de atenção ao texto, mas de diferentes avaliações de sua estrutura literária e do alcance de termos como “casa”, “cidade”, “muros” e “fundamentos”.

O que pode ser dito com segurança é que Esdras 4 associa Artaxerxes a uma ordem de suspensão emitida após acusações políticas contra Jerusalém. O texto não fornece uma data exata, não nomeia o ano de reinado e não esclarece de maneira inequívoca a relação daquela ordem com cada etapa das reconstruções descritas em Esdras e Neemias.

Artaxerxes e os decretos persas

As autorizações reais de Artaxerxes costumam ser chamadas de “decretos” nas discussões sobre Esdras e Neemias. É preciso, contudo, observar que a Bíblia apresenta documentos com objetivos diferentes. Em Esdras 7, a carta favorece Esdras, o templo e a organização judicial. Em Neemias 2, as cartas tratam da passagem de Neemias e do fornecimento de madeira. Já em Esdras 4, há uma decisão que interrompe uma obra ligada à cidade.

Esses documentos se encaixam no retrato bíblico de uma administração imperial que atuava por correspondência e por intermediários regionais. A própria expressão “além do Eufrates”, presente em Esdras 7, 21, reflete a perspectiva persa sobre as províncias situadas a oeste do grande rio.

Algumas interpretações religiosas associam o decreto de Artaxerxes a cálculos proféticos baseados em Daniel 9. Essa aplicação é posterior ao texto de Esdras e Neemias: os livros não conectam explicitamente a carta de Artaxerxes às “setenta semanas” de Daniel. Além disso, há divergência considerável sobre qual decreto deveria iniciar esses cálculos — o de Ciro em Esdras 1, o de Dario em Esdras 6, a carta a Esdras em Esdras 7 ou a autorização a Neemias em Neemias 2. Portanto, não existe uma interpretação única aceita por todas as tradições.

O que a história externa acrescenta — e o que não resolve

Fontes históricas extrabíblicas conhecem vários reis persas chamados Artaxerxes. Artaxerxes I sucedeu Xerxes I e reinou durante boa parte do século V a.C.; Artaxerxes II e Artaxerxes III reinaram posteriormente. Inscrições e documentos administrativos persas ajudam a confirmar a existência dessa dinastia e o funcionamento de seu império, mas não registram todos os personagens e episódios narrados em Esdras e Neemias.

Em particular, não há uma inscrição persa conhecida que descreva diretamente a audiência de Neemias ou reproduza a carta de Esdras 7. Isso não permite provar cada detalhe narrativo por documentação externa, nem autoriza concluir automaticamente que os episódios não ocorreram. Significa apenas que as fontes disponíveis são limitadas e têm propósitos próprios.

Também é importante não confundir Artaxerxes com Assuero. Em Esdras 4, 6–7, os dois nomes aparecem em sequência, mas o texto os distingue como reis diferentes. Na identificação histórica mais aceita, Assuero corresponde a Xerxes I, e Artaxerxes corresponde a seu sucessor, Artaxerxes I. Ainda assim, o debate sobre nomes reais em textos antigos envolve idiomas diferentes — hebraico, aramaico, persa e grego — e recomenda evitar conclusões apressadas.

Perguntas frequentes

Artaxerxes era judeu?

Não. O texto bíblico o apresenta como rei da Pérsia, isto é, como governante do império que dominava Judá naquele período. Embora ele apoie certas medidas relacionadas ao templo e à administração de Jerusalém, Esdras e Neemias não afirmam que fosse judeu ou convertido à religião de Israel.

Artaxerxes autorizou a reconstrução do templo?

O início da reconstrução do templo é associado ao decreto de Ciro em Esdras 1, e sua conclusão ocorre no reinado de Dario, em Esdras 6. Artaxerxes, em Esdras 7, apoia o culto do templo e envia recursos; em Neemias 2, autoriza a missão ligada à cidade e às muralhas.

Quem era a rainha ao lado de Artaxerxes em Neemias 2?

Neemias 2, 6 menciona que a rainha estava sentada ao lado do rei, mas não informa seu nome. Propostas que a identificam com personagens conhecidos da história persa são hipóteses posteriores, não uma informação explícita do texto bíblico.

O Artaxerxes de Esdras é o mesmo de Neemias?

A resposta mais comum é sim: ambos seriam Artaxerxes I. A cronologia dos anos sétimo, vigésimo e trigésimo segundo se ajusta bem a esse reinado. Contudo, existem propostas minoritárias que datam as missões de modo diferente, de modo que a identificação é amplamente aceita, mas não unanimemente defendida.

Resumo

  • Artaxerxes é apresentado na Bíblia como um rei persa que exerceu autoridade sobre Judá no período pós-exílico.
  • Em Esdras 4, ele manda interromper uma obra relacionada à reconstrução da cidade após receber acusações contra Jerusalém.
  • Em Esdras 7, ele autoriza Esdras a ir a Jerusalém e apoia medidas ligadas ao templo, às ofertas e à administração da Lei.
  • Em Neemias 2, ele permite que Neemias viaje para restaurar Jerusalém e fornece documentos para a missão.
  • A identificação predominante é com Artaxerxes I, reinante entre 465 e 424 a.C., embora detalhes cronológicos continuem em debate.
  • As ligações entre seus decretos e interpretações proféticas são leituras posteriores e não são afirmadas explicitamente por Esdras ou Neemias.

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