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Quem foi Filipe na Bíblia: os dois personagens do Novo Testamento

Quem foi Filipe na Bíblia? Entenda as diferenças entre Filipe, o apóstolo dos Doze, e Filipe, o evangelista de Atos.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quem foi Filipe na Bíblia? O Novo Testamento apresenta pelo menos dois homens com esse nome: Filipe, um dos doze apóstolos de Jesus, e Filipe, o evangelista, destacado no livro de Atos. Embora tenham missões diferentes nos relatos bíblicos, a tradição posterior por vezes aproximou suas histórias.

Por que existem dois Filipos no Novo Testamento?

O nome Filipe vem do grego Philippos, geralmente entendido como “amigo dos cavalos” ou “aquele que gosta de cavalos”. Era um nome conhecido no ambiente helenístico, o que ajuda a explicar sua presença entre judeus da Palestina do século I. No Novo Testamento, o nome aparece principalmente ligado a dois personagens diferentes.

O primeiro é Filipe, o apóstolo, incluído nas listas dos Doze e mencionado sobretudo no Evangelho de João. O segundo é Filipe, o evangelista, um dos sete homens escolhidos pela comunidade de Jerusalém em Atos 6 e protagonista de episódios missionários em Atos 8 e Atos 21.

A distinção é importante porque os textos bíblicos não identificam o evangelista como integrante dos Doze. Em Atos 21, 8, Lucas o chama explicitamente de “Filipe, o evangelista, um dos sete”, formulação que o diferencia do apóstolo. Portanto, tratar todos os episódios como se fossem vividos por um único Filipe mistura personagens que o próprio Novo Testamento apresenta em contextos distintos.

Filipe, o apóstolo: o que os Evangelhos registram

Filipe, o apóstolo, aparece nas quatro listas dos Doze: Mateus 10, Marcos 3, Lucas 6 e Atos 1. Nessas relações, ele costuma vir depois de André e Pedro ou próximo deles. O Evangelho de João oferece informações que não aparecem com a mesma riqueza nos Evangelhos sinóticos.

Chamado por Jesus e ligação com Betsaida

Em João 1, 43-44, Jesus encontra Filipe e lhe diz: “Segue-me”. O texto acrescenta que Filipe era de Betsaida, cidade de André e Pedro. Essa indicação geográfica situa o apóstolo na região da Galileia, próxima ao lago, em uma área marcada por contato entre populações judaicas e helenizadas.

Logo depois de ser chamado, Filipe procura Natanael e lhe anuncia: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e a quem se referiram os Profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (João 1, 45). Quando Natanael demonstra dúvida sobre Nazaré, Filipe responde: “Vem e vê” (João 1, 46). O episódio apresenta Filipe como alguém que transmite o que entendeu sobre Jesus e convida outro homem a verificar a afirmação diretamente.

Os episódios próprios do Evangelho de João

Filipe volta a aparecer em momentos relevantes do ministério de Jesus. Em João 6, antes da multiplicação dos pães, Jesus pergunta a ele onde comprariam pão para alimentar a multidão. O evangelista explica que a pergunta tinha caráter de prova, pois Jesus já sabia o que faria (João 6, 5-6). Filipe calcula que duzentos denários não seriam suficientes para dar um pouco de pão a cada pessoa (João 6, 7). O relato não o condena formalmente, mas contrasta a limitação do cálculo humano com o sinal que Jesus realiza.

Em João 12, 20-22, alguns gregos desejam ver Jesus e se dirigem a Filipe, que então fala com André; os dois levam o pedido a Jesus. O texto não explica por que esses visitantes procuraram justamente Filipe. Alguns intérpretes observam que seu nome grego e sua origem em Betsaida poderiam facilitar esse contato, mas essa é uma inferência plausível, não uma informação declarada pelo evangelista.

Na última ceia, Filipe pede: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (João 14, 8). Jesus responde que quem o vê vê o Pai e pergunta há quanto tempo estava com eles sem que Filipe o conhecesse plenamente (João 14, 9). Esse diálogo integra o ensino de João 14 sobre a relação entre Jesus e o Pai. O texto registra a pergunta de Filipe e a resposta de Jesus; conclusões detalhadas sobre sua maturidade espiritual pertencem à interpretação do leitor.

“Filipe disse-lhe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” (João 14, 8)

Filipe, o evangelista: um dos sete em Jerusalém

O segundo personagem é introduzido em Atos 6, durante uma tensão interna da comunidade cristã em Jerusalém. Judeus de fala grega, chamados helenistas, reclamavam que suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimentos, em comparação com as viúvas dos hebreus (Atos 6, 1).

Os Doze orientam a comunidade a escolher sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para essa tarefa, enquanto eles se dedicariam à oração e ao ministério da palavra (Atos 6, 2-4). Filipe é o segundo nome da lista, após Estêvão: Estêvão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau (Atos 6, 5).

É comum chamar esses sete de “diáconos”, sobretudo porque sua seleção está ligada ao atendimento de necessidades materiais. Contudo, o termo técnico “diácono” não é aplicado diretamente a eles nesse capítulo. Atos 6, 2 usa uma forma verbal associada a serviço, e Atos 6, 4 fala do “ministério” da palavra. Assim, a identificação dos sete como os primeiros diáconos é uma interpretação tradicional muito difundida, mas não uma designação explícita do texto.

Da Samaria ao caminho de Gaza

Depois da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão, os cristãos dispersos saem de Jerusalém e anunciam a mensagem em outras regiões (Atos 8, 1-4). Filipe vai a uma cidade de Samaria e proclama Cristo ali. O relato associa sua pregação a sinais, curas e grande alegria na cidade (Atos 8, 5-8).

Atos 8 também narra o encontro de Filipe com Simão, um homem antes conhecido por práticas mágicas. Simão crê e é batizado, mas mais tarde tenta obter por dinheiro a autoridade ligada à imposição de mãos dos apóstolos Pedro e João (Atos 8, 9-24). Filipe participa da evangelização e do batismo inicial, enquanto Pedro e João chegam posteriormente a partir de Jerusalém. Essa sequência é relevante porque mostra funções distintas no próprio relato.

O episódio mais conhecido de Filipe, o evangelista, é o encontro com o eunuco etíope em Atos 8, 26-40. Um anjo o orienta a seguir pela estrada que desce de Jerusalém para Gaza. Ali ele encontra um oficial da rainha Candace, da Etiópia, lendo Isaías 53. Filipe pergunta se o homem entende o que lê; o oficial responde que precisa de orientação. A partir da passagem de Isaías, Filipe anuncia Jesus.

Ao chegarem a um lugar com água, o eunuco pede o batismo. O texto afirma que Filipe o batiza e, em seguida, não é mais visto pelo eunuco, que continua seu caminho com alegria. Filipe aparece depois em Azoto e segue anunciando a mensagem até chegar a Cesareia (Atos 8, 39-40). O relato não informa o nome do eunuco, não descreve o futuro de sua viagem nem afirma que ele fundou a igreja etíope. Essas afirmações pertencem a tradições e reconstruções posteriores, não ao conteúdo explícito de Atos.

Comparação entre Filipe, o apóstolo, e Filipe, o evangelista

Uma comparação direta ajuda a evitar a confusão, especialmente porque ambos atuam no período inicial do cristianismo e aparecem em textos relacionados à expansão da mensagem de Jesus.

AspectoFilipe, o apóstoloFilipe, o evangelista
Identificação bíblicaUm dos Doze“O evangelista, um dos sete”
Principais passagensMateus 10; João 1, 6, 12 e 14; Atos 1Atos 6, 8 e 21
Primeira menção narrativa detalhadaChamado em João 1, 43-46Escolha entre os sete em Atos 6, 5
Área de atuação registradaMinistério de Jesus, principalmente na Galileia e JudeiaJerusalém, Samaria, estrada de Gaza, Azoto e Cesareia
Família mencionadaNão há informação explícitaQuatro filhas solteiras que profetizavam, Atos 21, 9
Última referência no Novo TestamentoLista dos apóstolos em Atos 1, 13Hospedagem de Paulo em Cesareia, Atos 21, 8-9

Há um dado cronológico que também favorece a distinção. Atos 1, 13 menciona Filipe entre os Onze após a morte de Judas Iscariotes; mais adiante, Atos 6, 5 apresenta Filipe entre os sete escolhidos em uma situação administrativa e social da igreja de Jerusalém. Lucas teria meios simples de identificá-los como a mesma pessoa se essa fosse sua intenção, mas em Atos 21, 8 escolhe a expressão específica “Filipe, o evangelista, um dos sete”.

As quatro filhas de Filipe e a casa em Cesareia

Em Atos 21, Paulo e seus companheiros chegam a Cesareia e se hospedam na casa de Filipe, o evangelista. Lucas acrescenta uma informação singular: ele tinha quatro filhas virgens, ou solteiras, que profetizavam (Atos 21, 8-9).

O texto não registra os nomes dessas filhas, o conteúdo de suas profecias, sua idade ou o que ocorreu com elas depois. Também não explica por que Lucas destaca esse detalhe. O dado, porém, mostra que a casa de Filipe em Cesareia era um ponto de acolhimento para viajantes ligados à missão cristã e que suas filhas exerciam uma atividade profética reconhecida no relato.

Tradições cristãs antigas tentaram identificar essas quatro filhas com personagens mencionadas por autores posteriores, especialmente Papias e Eusébio de Cesareia. No entanto, as informações são fragmentárias, nem sempre coincidem e não permitem confirmar todas as identificações. É necessário separar esse material posterior do que Atos efetivamente declara.

O que a tradição posterior diz sobre os dois Filipos?

Depois do período do Novo Testamento, autores e tradições cristãs passaram a atribuir locais de missão, morte e sepultamento aos apóstolos. No caso de Filipe, o apóstolo, uma tradição antiga o associa à Frígia, especialmente à cidade de Hierápolis, na atual Turquia. Eusébio de Cesareia, escrevendo séculos mais tarde, preserva tradições ligadas a Filipe e a suas filhas em Hierápolis.

O problema histórico é que essas tradições não são uniformes. Alguns testemunhos antigos parecem relacionar as filhas profetisas ao apóstolo Filipe; Atos 21, porém, associa quatro filhas profetisas a Filipe, o evangelista. Por isso, estudiosos discutem se houve confusão de memória entre os dois homens ou se certas fontes empregaram o nome de modo impreciso.

Outra tradição afirma que Filipe, o apóstolo, morreu como mártir, às vezes por crucificação, em Hierápolis. O Novo Testamento não relata sua morte, nem define seu destino após Atos 1. Assim, não é possível tratar os detalhes de sua morte como fato bíblico comprovado.

Quanto a Filipe, o evangelista, Atos fornece a referência mais tardia: ele vivia em Cesareia quando Paulo passou pela cidade, provavelmente na década de 50 do século I. A data exata é debatida porque depende da reconstrução cronológica das viagens de Paulo. O livro de Atos não informa quando Filipe morreu nem onde foi sepultado.

Como ler os relatos de Filipe sem misturar texto e tradição

Uma leitura cuidadosa começa pela identificação que cada passagem oferece. Quando o Evangelho de João mostra Filipe em diálogo com Jesus, o contexto é o grupo dos discípulos e dos Doze. Quando Atos fala da missão na Samaria ou do encontro com o eunuco, o personagem é o homem escolhido entre os sete em Jerusalém.

Também é útil observar os limites das fontes. A Bíblia registra o chamado do apóstolo, algumas de suas perguntas e sua presença entre os Onze após a ressurreição. Registra ainda a escolha do evangelista, sua pregação fora de Jerusalém, o batismo do oficial etíope e sua residência em Cesareia. Fora disso, há lacunas reais.

  • O texto bíblico afirma: havia um Filipe entre os Doze e outro Filipe entre os sete.
  • O texto bíblico afirma: Filipe, o evangelista, pregou na Samaria e batizou o eunuco etíope.
  • O texto bíblico não afirma: que o eunuco tenha fundado a igreja da Etiópia.
  • O texto bíblico não afirma: como, onde ou quando Filipe, o apóstolo, morreu.
  • A tradição posterior diverge: sobre os destinos dos dois Filipos e sobre a ligação das quatro filhas com Hierápolis.

Perguntas frequentes

Filipe, o apóstolo, é o mesmo Filipe que batizou o eunuco?

Não. O batismo do eunuco é atribuído a Filipe, o evangelista, em Atos 8. Atos 21, 8 o identifica como “um dos sete”, enquanto Filipe, o apóstolo, pertence ao grupo dos Doze.

Filipe foi um dos primeiros diáconos?

Ele foi um dos sete escolhidos em Atos 6 para atender uma necessidade da comunidade de Jerusalém. Muitas tradições os chamam de primeiros diáconos, mas o capítulo não lhes dá diretamente esse título técnico.

Quem eram as filhas de Filipe?

Atos 21, 9 diz apenas que Filipe, o evangelista, tinha quatro filhas que profetizavam. Seus nomes, mensagens e destinos não aparecem no Novo Testamento.

Onde Filipe, o apóstolo, morreu?

A Bíblia não informa. Tradições posteriores o ligam a Hierápolis, na Frígia, e frequentemente falam de martírio, mas os detalhes não podem ser confirmados pelo texto bíblico.

Resumo

  • O Novo Testamento apresenta dois personagens principais chamados Filipe.
  • Filipe, o apóstolo, foi um dos Doze e tem destaque especial no Evangelho de João.
  • Filipe, o evangelista, foi um dos sete de Atos 6 e atuou na Samaria, no caminho de Gaza e em Cesareia.
  • Atos 21, 8 distingue expressamente Filipe, o evangelista, como “um dos sete”.
  • As histórias sobre morte, martírio e locais de missão dos dois Filipos vêm sobretudo de tradições posteriores e possuem pontos disputados.

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