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Quem foi Hazael na Bíblia e por que seu nome marcou Israel

Quem foi Hazael na Bíblia? Entenda sua ascensão ao trono da Síria, os conflitos com Israel e as profecias de Elias e Eliseu.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
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Quem foi Hazael na Bíblia? Hazael foi rei de Arã-Damasco, reino também chamado de Síria em muitas traduções, e aparece como um dos mais importantes adversários militares dos reis de Israel e Judá no século IX a.C. Os livros de Reis o apresentam como um homem que chegou ao trono após uma profecia ligada a Elias e um encontro decisivo com Eliseu.

Hazael: rei de Arã-Damasco e adversário de Israel

Hazael governou Arã-Damasco, uma potência regional situada ao norte e nordeste de Israel, cuja capital era Damasco. Nas narrativas bíblicas, seu nome está associado a guerras, invasões, cobrança de tributos e perdas territoriais sofridas pelo reino do Norte. Ele é mencionado principalmente em 1 Reis 19 e em 2 Reis 8, 10, 12, 13 e 15.

O texto bíblico não informa a origem familiar de Hazael nem oferece uma biografia anterior à sua chegada ao poder. Quando ele entra diretamente na narrativa, ainda é um oficial enviado pelo rei Ben-Hadade para consultar o profeta Eliseu. Portanto, qualquer afirmação segura sobre sua infância, linhagem ou posição exata na corte antes desse episódio vai além do que os textos bíblicos registram.

O nome Hazael costuma ser entendido como um nome teofórico semítico, com sentido aproximado de “Deus vê” ou “Deus tem visto”. Contudo, a explicação etimológica não é apresentada pela Bíblia e pode variar conforme a análise linguística adotada.

A profecia dada a Elias

A primeira referência a Hazael ocorre em 1 Reis 19. Depois de fugir para Horebe, Elias recebe instruções para voltar e realizar três unções: Hazael como rei sobre a Síria, Jeú como rei sobre Israel e Eliseu como seu sucessor profético.

“Também ungirás Hazael como rei sobre a Síria; e Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel; e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar.” (1 Reis 19)

Essa passagem liga Hazael ao juízo anunciado contra a casa de Acabe. O capítulo afirma que escaparia da espada de Hazael quem fosse morto por Jeú, e que Eliseu atingiria quem escapasse da espada de Jeú. A linguagem constrói um quadro no qual diferentes agentes seriam usados para enfrentar a idolatria e a violência atribuídas à dinastia de Acabe.

Entretanto, 1 Reis 19 não narra Elias realizando pessoalmente a unção de Hazael. A cena concreta aparece mais tarde, em 2 Reis 8, conduzida por Eliseu. Muitos intérpretes entendem que Eliseu cumpre ou dá continuidade à incumbência recebida por Elias. Outros observam que o texto não descreve uma unção com óleo: Eliseu anuncia o futuro reinado de Hazael e determina que ele diga a Ben-Hadade que o rei se recuperaria da enfermidade, embora fosse morrer. A divergência, portanto, está em chamar o episódio de “unção” literal ou de designação profética para o trono.

O encontro entre Eliseu e Hazael em Damasco

Em 2 Reis 8, Eliseu vai a Damasco quando Ben-Hadade está doente. O rei envia Hazael com presentes para perguntar ao profeta se sobreviveria à enfermidade. Hazael leva uma grande oferta: “quarenta camelos carregados de todo bem de Damasco”, conforme 2 Reis 8. O detalhe ressalta a riqueza da corte e a importância atribuída à consulta.

Eliseu manda Hazael dizer que Ben-Hadade certamente se recuperaria; em seguida, porém, acrescenta que o Senhor lhe havia mostrado que o rei morreria. O profeta fixa os olhos em Hazael e chora. Quando questionado, explica que havia visto os males que ele causaria aos israelitas: incendiar fortalezas, matar jovens à espada, esmagar crianças e violentar mulheres grávidas (2 Reis 8).

Hazael reage com aparente surpresa: “Pois quem é teu servo, este cão, para fazer tão grandes coisas?” Eliseu responde que o Senhor lhe mostrara que ele seria rei da Síria. No dia seguinte, segundo a narrativa, Hazael pega uma coberta, molha-a em água e a estende sobre o rosto de Ben-Hadade até que ele morra; então Hazael passa a reinar em seu lugar.

O que o texto afirma e o que se interpreta

O texto bíblico registra uma sucessão após a morte de Ben-Hadade e descreve Hazael usando uma coberta molhada sobre o rosto do rei. A forma como a ação é relatada leva grande parte dos leitores a entendê-la como assassinato por sufocamento.

Como interpretação posterior, comentaristas discutem se Hazael agiu por iniciativa própria, se o episódio apresenta uma ordem divina direta ou se a profecia apenas antecipava aquilo que ocorreria. O texto diz que Eliseu recebeu uma revelação sobre o reinado de Hazael, mas não contém uma ordem explícita para que Hazael matasse Ben-Hadade. Essa diferença é importante: previsão profética e mandamento moral não são necessariamente a mesma coisa na narrativa.

As guerras de Hazael contra Israel e Judá

Depois de subir ao trono, Hazael se torna uma ameaça constante para Israel. Seus confrontos envolvem os reinados de Jorão, Jeú, Jeoacaz e Jeoás no reino do Norte, além de Acazias e Joás no reino de Judá. A Bíblia apresenta esses conflitos como parte de uma fase de grande fragilidade política israelita.

PassagemEvento relacionado a HazaelPersonagens e dados concretos
1 Reis 19Hazael é indicado para ser rei da Síria.Elias recebe a instrução no Horebe.
2 Reis 8Morte de Ben-Hadade e ascensão de Hazael.Eliseu está em Damasco; Hazael leva presentes em 40 camelos.
2 Reis 8–9Combate em Ramote-Gileade.Jorão de Israel é ferido lutando contra Hazael; Jeú é proclamado rei.
2 Reis 10Domínio arameu sobre áreas de Israel.Hazael conquista regiões a leste do Jordão, de Gileade a Basã.
2 Reis 12Ameaça contra Jerusalém.Joás de Judá entrega objetos preciosos do templo e do palácio.
2 Reis 13Opressão durante o reinado de Jeoacaz.O exército israelita fica reduzido a 50 cavaleiros, 10 carros e 10 mil soldados.

Em 2 Reis 8, Jorão, rei de Israel, luta contra Hazael em Ramote-Gileade e sai ferido. Ele retorna a Jezreel para se recuperar, e Acazias, rei de Judá, vai visitá-lo. É nesse cenário que Jeú recebe a unção real e inicia a derrubada da casa de Acabe em 2 Reis 9. Assim, Hazael não participa diretamente do golpe de Jeú, mas a guerra contra ele forma o pano de fundo imediato dos acontecimentos.

Em 2 Reis 10, o autor declara que, naquele período, o Senhor começou a reduzir o território de Israel por meio de Hazael. São citadas terras de Gileade, Gade, Rúben, Manassés, Aroer, Basã e Gileade. Essa lista descreve especialmente perdas israelitas na Transjordânia, região estratégica a leste do rio Jordão.

O ataque a Judá e os tesouros entregues por Joás

Hazael também aparece em conexão com o reino de Judá. Segundo 2 Reis 12, ele ataca Gate, cidade filisteia, e a conquista. Depois dirige sua atenção a Jerusalém. Para evitar o ataque, Joás, rei de Judá, recolhe objetos consagrados por seus antepassados, bem como ouro dos tesouros do templo e do palácio, e os entrega ao rei da Síria.

O texto de 2 Reis 12 afirma que Hazael então se retira de Jerusalém. A passagem não detalha uma batalha dentro da cidade nem diz que Jerusalém foi conquistada. O dado objetivo é o pagamento de tesouros para afastar a ameaça. Em 2 Crônicas 24, há uma narrativa paralela que relaciona a invasão arameia ao julgamento contra os líderes de Judá e acrescenta a derrota de um grande exército judaíta por uma força síria menor.

As duas versões são frequentemente lidas em conjunto, mas possuem ênfases diferentes. 2 Reis destaca a entrega dos tesouros e a retirada de Hazael; 2 Crônicas desenvolve a interpretação teológica da derrota e a conecta à infidelidade de Judá após a morte do sacerdote Joiada. Não há necessidade de tratar os relatos como descrições idênticas: cada obra seleciona e organiza seus dados com propósitos literários próprios.

Hazael, Jeoacaz e a redução do exército de Israel

O período mais duro da pressão síria sobre Israel é descrito em 2 Reis 13. Jeoacaz, filho de Jeú, reina em Samaria e, conforme o relato, o Senhor entrega Israel nas mãos de Hazael e de seu filho Ben-Hadade. Aqui, Ben-Hadade provavelmente designa o sucessor de Hazael, não o rei anterior morto em 2 Reis 8; o nome parece ter sido usado por mais de um monarca damasceno.

O exército de Israel fica drasticamente enfraquecido. O autor fornece números específicos: restam a Jeoacaz apenas cinquenta cavaleiros, dez carros e dez mil soldados de infantaria, pois o rei da Síria os destruíra “como pó ao debulhar” (2 Reis 13). A imagem comunica devastação militar e perda de capacidade defensiva.

Apesar disso, o mesmo capítulo diz que Jeoacaz suplica ao Senhor, que lhe dá um libertador; Israel obtém alívio temporário, embora os conflitos continuem. O texto não identifica quem foi esse libertador. Algumas interpretações o associam a reis assírios que pressionaram Damasco externamente; outras o relacionam a ações posteriores de Joás, filho de Jeoacaz. A Bíblia não esclarece a identidade, de modo que qualquer identificação deve ser apresentada como hipótese, não como fato explícito.

O que fontes históricas externas acrescentam

Além da Bíblia, Hazael é conhecido por inscrições assírias do século IX a.C. Nelas, ele aparece como rei de Damasco e como adversário do rei assírio Salmaneser III. Essas fontes externas são relevantes porque situam Hazael no cenário político maior do antigo Oriente Próximo, marcado pela expansão assíria e pelas alianças variáveis entre cidades e reinos do Levante.

Uma inscrição de Salmaneser III menciona que Hazael se entrincheirou em Damasco depois de uma campanha assíria. Registros assírios também relatam ataques a territórios associados à região de Israel e da costa fenícia. Tais documentos não repetem a narrativa de 2 Reis e não têm o mesmo objetivo religioso ou literário, mas corroboram que um rei chamado Hazael governou Damasco e teve destaque militar no período.

Quanto às datas, a cronologia dos reis de Israel, Judá e Damasco envolve debates técnicos. Em linhas gerais, Hazael costuma ser situado entre meados e o fim do século IX a.C., aproximadamente de 842 a.C. a 800 a.C. Essas datas são estimativas históricas modernas, e não números fornecidos diretamente pela Bíblia.

Perguntas frequentes

Hazael foi ungido por Elias ou por Eliseu?

Em 1 Reis 19, Elias recebe a ordem de ungir Hazael. Porém, a realização narrativa ocorre em 2 Reis 8, quando Eliseu anuncia que Hazael será rei. O texto não descreve o derramamento de óleo sobre Hazael; por isso, há debate se houve uma unção literal ou uma designação profética cumprindo a ordem dada a Elias.

Hazael matou Ben-Hadade?

2 Reis 8 relata que Hazael colocou uma coberta molhada sobre o rosto de Ben-Hadade até que ele morresse e, depois, assumiu o reino. A narrativa é geralmente entendida como descrição de um assassinato. Ainda assim, ela não registra uma ordem explícita de Eliseu para Hazael cometer esse ato.

Hazael conquistou Jerusalém?

Não. Segundo 2 Reis 12, Hazael avançou contra Jerusalém, mas Joás enviou a ele ouro e objetos preciosos do templo e do palácio. Depois disso, Hazael se afastou da cidade. O texto não afirma que Jerusalém tenha sido tomada.

Hazael era sírio?

Ele era rei de Arã-Damasco. Muitas traduções bíblicas chamam esse reino de Síria e seus habitantes de sírios. No contexto antigo, porém, “Arã” ou “arameu” é uma designação mais precisa para o reino cuja capital era Damasco.

Resumo

  • Hazael foi rei de Arã-Damasco, potência vizinha e rival de Israel no século IX a.C.
  • 1 Reis 19 o inclui na ordem dada a Elias, enquanto 2 Reis 8 narra sua ascensão ao trono durante a enfermidade de Ben-Hadade.
  • Eliseu prevê que Hazael causaria graves danos a Israel, e o relato posterior associa seu reinado a guerras e perdas territoriais.
  • Hazael enfrentou Jorão em Ramote-Gileade, pressionou Israel na Transjordânia e recebeu tesouros de Joás de Judá diante da ameaça a Jerusalém.
  • Inscrições assírias mencionam um rei Hazael de Damasco, oferecendo confirmação externa de sua relevância histórica.
  • Alguns detalhes, como a identidade do libertador de Israel em 2 Reis 13 e a cronologia exata de seu reinado, permanecem discutidos.

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