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Quem foi Joás na Bíblia: os dois reis chamados Joás

Quem foi Joás na Bíblia? Conheça os dois reis com esse nome, seus contextos, reformas, conflitos e o que os textos bíblicos registram.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quem foi Joás na Bíblia depende de qual reino está em questão: esse nome identifica dois reis diferentes, um de Judá e outro de Israel. O Joás de Judá foi salvo ainda bebê durante a usurpação de Atalia; o Joás de Israel governou em um período de guerras contra a Síria e aparece ligado ao profeta Eliseu.

Dois reis com o mesmo nome

Nas Bíblias em português, o nome Joás pode designar dois monarcas do século IX a.C., contemporâneos em parte de seus reinados. Para tornar a leitura mais complexa, o rei de Israel também é chamado de Jeoás em muitas traduções. A variação ocorre porque os nomes hebraicos são muito próximos e as tradições de transliteração não são uniformes.

O primeiro é Joás, rei de Judá, filho de Acazias e descendente da casa de Davi. Seu relato principal está em 2 Reis 11–12 e 2 Crônicas 22–24. Ele reinou em Jerusalém, no reino do Sul, e é particularmente lembrado pela restauração do templo.

O segundo é Joás ou Jeoás, rei de Israel, filho de Jeoacaz e membro da dinastia de Jeú. Sua narrativa está em 2 Reis 13–14. Ele reinou em Samaria, no reino do Norte, enfrentou a Síria e combateu Amazias, rei de Judá.

Portanto, não se deve reunir em uma única biografia episódios como o resgate de uma criança no templo, a influência do sacerdote Joiada, a morte de Eliseu e a conquista de cidades sírias. Os textos os atribuem a pessoas distintas.

Comparação entre Joás de Judá e Joás de Israel

AspectoJoás de JudáJoás ou Jeoás de Israel
Reino e capitalJudá, com capital em JerusalémIsrael, com capital em Samaria
FiliaçãoFilho de AcaziasFilho de Jeoacaz
DinastiaCasa de DaviDinastia de Jeú
Início do reinadoAos sete anos, segundo 2 Reis 11 e 2 Crônicas 24No 37º ano de Joás de Judá, segundo 2 Reis 13
Duração informada40 anos, segundo 2 Reis 12 e 2 Crônicas 2416 anos, segundo 2 Reis 13
Figura profética ou sacerdotal associadaJoiada, sacerdoteEliseu, profeta
Passagens principais2 Reis 11–12; 2 Crônicas 22–242 Reis 13–14
Fato mais destacadoReparo do templo de JerusalémVitórias sobre os sírios e guerra contra Judá

Joás de Judá: infância, coroação e queda de Atalia

O contexto de Joás de Judá começa com uma crise dinástica. Acazias, rei de Judá, morreu no episódio ligado à revolta de Jeú, narrado em 2 Reis 9. Depois de sua morte, Atalia, mãe de Acazias, tomou o poder em Jerusalém. Segundo 2 Reis 11 e 2 Crônicas 22, ela tentou eliminar a descendência real.

Joás era um filho pequeno de Acazias. O texto afirma que Jeoseba, filha do rei Jeorão e irmã de Acazias, retirou Joás de entre os filhos do rei que seriam mortos e o escondeu. Em 2 Reis 11, ela é apresentada como esposa do sacerdote Joiada; 2 Crônicas 22 registra o mesmo vínculo familiar e sacerdotal.

A criança teria permanecido escondida por seis anos na área do templo, enquanto Atalia reinava. No sétimo ano, Joiada organizou um levante com chefes militares, guardas e levitas. Joás foi apresentado publicamente, recebeu a coroa e o “Livro do Testemunho”, expressão registrada em 2 Reis 11 e 2 Crônicas 23. O povo aclamou o menino como rei.

“E todo o povo da terra se alegrou, e a cidade ficou em paz, depois que mataram Atalia à espada junto à casa do rei.” (2 Reis 11)

O texto bíblico relata que Atalia foi presa e morta fora do templo, perto da entrada dos cavalos da casa real. Em seguida, Joiada estabeleceu uma aliança entre o Senhor, o rei e o povo, e o templo de Baal foi destruído. Esses são dados da narrativa de 2 Reis 11 e 2 Crônicas 23. A reconstrução detalhada das motivações políticas de cada grupo, porém, pertence à interpretação histórica posterior: os capítulos não fornecem um relato independente dos interesses de todos os envolvidos.

O governo de Joás de Judá e a reforma do templo

2 Reis 12 resume o início do governo de Joás de maneira favorável: ele fez o que era reto durante todos os dias em que foi instruído pelo sacerdote Joiada. Contudo, o mesmo capítulo acrescenta uma ressalva: os altos não foram removidos, e o povo continuava oferecendo sacrifícios e incenso nesses locais. Essa observação é importante porque mostra que a avaliação positiva não equivale a uma reforma religiosa completa no próprio texto.

Como funcionou a coleta para os reparos

Uma medida central de seu reinado foi a conservação do templo de Jerusalém. Joás ordenou que o dinheiro dedicado ao santuário fosse aplicado em reparos. Inicialmente, os sacerdotes deveriam receber as contribuições e providenciar a obra, mas os reparos demoraram a acontecer. No vigésimo terceiro ano do rei, Joás questionou os sacerdotes sobre a falta de avanços, conforme 2 Reis 12.

Depois disso, Joiada tomou uma caixa, fez um furo na tampa e a colocou ao lado do altar. As ofertas eram depositadas nela; quando havia quantia suficiente, o dinheiro era contado e entregue aos responsáveis pela construção. 2 Reis 12 diz que os trabalhadores receberam pagamento e que não lhes era exigida prestação de contas detalhada, “porque procediam fielmente”.

2 Crônicas 24 também narra uma coleta pública, mas descreve a organização de modo um pouco diferente: o rei e Joiada fizeram uma caixa e enviaram mensageiros pelas cidades de Judá. As duas versões concordam que houve arrecadação e reparo do templo; divergem em ênfases e detalhes administrativos. Muitos leitores entendem que são relatos complementares da mesma iniciativa. Outros estudiosos observam que as diferenças literárias impedem afirmar, apenas pelos textos, uma sequência administrativa exata para cada etapa.

Tributo a Hazael

O relato de 2 Reis 12 registra ainda que Hazael, rei da Síria, subiu contra Gate e depois se voltou contra Jerusalém. Para evitar o ataque, Joás enviou a Hazael objetos consagrados por reis anteriores e o ouro encontrado nos tesouros do templo e do palácio. O texto apresenta essa entrega como resposta imediata à ameaça síria, mas não explica todas as circunstâncias diplomáticas nem informa o valor do tributo.

O fim de Joás de Judá e a morte de Zacarias

É em 2 Crônicas 24 que aparece o episódio mais severo da fase final do reinado. Após a morte de Joiada, os líderes de Judá teriam influenciado Joás a abandonar o templo e servir a postes sagrados e ídolos. O cronista afirma que profetas foram enviados para advertir o povo, sem que fossem ouvidos.

Então Zacarias, filho de Joiada, falou contra a infidelidade do povo. Segundo 2 Crônicas 24, por ordem do rei ele foi apedrejado no pátio do templo. O capítulo atribui a Zacarias as palavras: “O Senhor o verá e o requererá”. Mais tarde, um exército sírio atacou Judá, feriu os príncipes e levou despojos para Damasco.

O texto conclui que servos de Joás conspiraram contra ele e o mataram em sua cama, em Bete-Milo. Ele foi sepultado na Cidade de Davi, mas 2 Crônicas 24 especifica que não foi enterrado nos sepulcros dos reis. 2 Reis 12 também menciona a conspiração e nomeia os assassinos, embora de forma parcialmente diferente em algumas tradições textuais e traduções.

Há uma discussão frequente sobre a possível relação entre esse Zacarias e a referência de Jesus a “Zacarias, filho de Baraquias”, em Mateus 23. O ponto é disputado. 2 Crônicas 24 chama o personagem de filho de Joiada, enquanto Mateus 23 traz “filho de Baraquias” em muitos manuscritos. Há propostas de erro de transmissão, identificação com outro Zacarias ou uso de uma tradição não preservada; nenhuma solução é unanimemente aceita. Assim, não é correto afirmar como fato incontestável que se trata da mesma pessoa.

Joás ou Jeoás, rei de Israel

O outro Joás era filho de Jeoacaz e reinou sobre Israel, o reino do Norte. Em 2 Reis 13, ele sucede o pai em Samaria e recebe uma avaliação negativa típica do livro: continuou nos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, isto é, não abandonou o padrão cultual associado aos santuários rivais de Betel e Dã.

Apesar dessa avaliação, o capítulo o associa a um episódio de vitória militar e à última ação simbólica do profeta Eliseu. Quando Eliseu adoeceu da enfermidade que o levaria à morte, Joás foi visitá-lo e chorou sobre ele. A frase pronunciada pelo rei — “Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros!” — retoma a linguagem usada em 2 Reis 2, quando Eliseu viu Elias ser levado.

As flechas contra a Síria

Eliseu mandou Joás pegar arco e flechas, atirar uma flecha pela janela voltada para o leste e declarar uma flecha de vitória contra a Síria. Depois, ordenou que ele golpeasse o chão com as flechas. O rei golpeou três vezes e parou. Eliseu se indignou e afirmou que, se tivesse golpeado cinco ou seis vezes, derrotaria a Síria completamente; como golpeou três vezes, venceria apenas três vezes.

O texto não explica por que Joás parou nem oferece uma análise psicológica do rei. Leituras posteriores frequentemente entendem o gesto como falta de persistência ou de confiança. Essa é uma interpretação tradicional possível, mas o dado estrito da narrativa é apenas que ele golpeou três vezes, recebeu a repreensão e teria três vitórias.

Em seguida, 2 Reis 13 relata que Joás derrotou Ben-Hadade, filho de Hazael, três vezes e recuperou cidades israelitas que haviam sido tomadas dos tempos de Jeoacaz. O capítulo conecta diretamente essas vitórias à palavra de Eliseu.

A guerra entre Israel e Judá

Em 2 Reis 14 e 2 Crônicas 25, Joás de Israel entra em conflito com Amazias, rei de Judá e sucessor de Joás de Judá. Amazias, depois de vencer os edomitas, enviou um desafio a Joás. O rei de Israel respondeu por meio de uma fábula: o cardo do Líbano pediu a filha do cedro para seu filho, mas um animal selvagem pisou o cardo. A imagem comunica que Amazias estaria se exaltando além de sua condição.

Amazias não recuou. A batalha ocorreu em Bete-Semes, e Judá foi derrotado. Joás capturou Amazias, foi a Jerusalém, derrubou cerca de quatrocentos côvados do muro da cidade — entre a Porta de Efraim e a Porta da Esquina — e tomou ouro, prata, utensílios do templo e tesouros do palácio. Também levou reféns para Samaria.

2 Reis 14 informa que Joás morreu e foi sepultado em Samaria com os reis de Israel. Seu filho Jeroboão II o sucedeu. A datação absoluta desses reinados continua objeto de debate entre cronologistas, pois depende de como se harmonizam sincronismos, corregências e sistemas de contagem presentes nos livros de Reis. Ainda assim, em termos gerais, ambos os Joases são situados no século IX a.C.

O que o texto registra e o que é interpretação posterior

Uma leitura cuidadosa distingue a narrativa bíblica de conclusões construídas por leitores, comentaristas e historiadores. Os livros de Reis e Crônicas não são biografias modernas: selecionam acontecimentos e os avaliam a partir de seus próprios interesses teológicos e literários.

  • O texto registra: Joás de Judá foi escondido na infância, coroado aos sete anos, promoveu reparos no templo e morreu em uma conspiração (2 Reis 11–12; 2 Crônicas 22–24).
  • O texto registra: Joás de Israel visitou Eliseu, teve vitórias contra a Síria e derrotou Amazias de Judá (2 Reis 13–14).
  • O texto registra: 2 Reis avalia Joás de Judá positivamente enquanto ele foi instruído por Joiada, com a ressalva sobre os altos; 2 Crônicas enfatiza seu afastamento posterior após a morte de Joiada.
  • É interpretação posterior: definir Joás de Judá simplesmente como um rei “bom” ou “mau”. Essa classificação resume uma narrativa mais complexa e varia conforme o peso dado a Reis e Crônicas.
  • É interpretação posterior: explicar com certeza os motivos íntimos de Joás ao golpear o chão três vezes diante de Eliseu. A passagem não os informa.
  • É disputado: estabelecer datas absolutas exatas e resolver todas as aparentes diferenças entre os relatos paralelos.

Perguntas frequentes

Joás e Jeoás são a mesma pessoa?

Em muitos contextos, sim: Joás e Jeoás são formas usadas para o rei de Israel, filho de Jeoacaz, em 2 Reis 13–14. Mas existe também Joás, rei de Judá, filho de Acazias. O contexto do capítulo é indispensável para identificar qual deles está em foco.

Quantos anos Joás de Judá tinha quando começou a reinar?

Segundo 2 Reis 11 e 2 Crônicas 24, Joás de Judá tinha sete anos quando foi coroado. O texto acrescenta que seu reinado durou quarenta anos em Jerusalém.

Quem salvou Joás de Judá quando criança?

Jeoseba, também chamada Jeosabeate em 2 Crônicas 22, retirou Joás do grupo de filhos reais ameaçados por Atalia e o escondeu. Ela era ligada à família real e esposa do sacerdote Joiada.

Joás de Judá mandou matar Zacarias?

Segundo 2 Crônicas 24, sim. O capítulo afirma que Zacarias, filho de Joiada, foi apedrejado no pátio do templo por ordem do rei. Esse episódio não é narrado em 2 Reis 12, o que mostra a diferença de enfoque entre os relatos.

Resumo

  • Há dois reis chamados Joás na Bíblia: um governou Judá, e outro, Israel.
  • Joás de Judá foi salvo da ação de Atalia, coroado aos sete anos e associado ao reparo do templo de Jerusalém.
  • 2 Crônicas 24 relata que Joás de Judá se afastou após a morte de Joiada e terminou assassinado por seus servos.
  • Joás ou Jeoás de Israel aparece ao lado de Eliseu, recupera cidades da Síria e derrota Amazias de Judá.
  • As diferenças entre Reis e Crônicas, assim como certas identificações e datas, exigem cautela e não devem ser apresentadas como certezas quando o texto não as resolve.

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