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Quem foi Malco na Bíblia e o que ocorreu na prisão de Jesus

Quem foi Malco na Bíblia? Entenda o relato da orelha cortada no Getsêmani, as diferenças entre os Evangelhos e as tradições posteriores.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 9 min de leitura
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Quem foi Malco na Bíblia? Malco é o nome do servo do sumo sacerdote cuja orelha foi atingida por um discípulo durante a prisão de Jesus, no Getsêmani. Somente o Evangelho de João informa seu nome e identifica Pedro como o homem que usou a espada; Lucas registra que Jesus curou o ferido.

Malco no relato bíblico

Malco aparece em um dos momentos mais tensos da narrativa da paixão de Jesus. Depois da última ceia, Jesus vai com seus discípulos a um jardim do outro lado do vale do Cedrom, lugar que os Evangelhos Sinóticos associam ao Getsêmani (Mateus 26, Marcos 14 e Lucas 22). Ali, após sua oração, chega um grupo encarregado de prendê-lo.

No Evangelho de João, Judas vem acompanhado por uma escolta e por guardas enviados pelos principais sacerdotes e fariseus (João 18). Quando a prisão se inicia, Simão Pedro toma uma espada, golpeia um servo do sumo sacerdote e corta sua orelha direita. O texto acrescenta uma informação ausente nos demais Evangelhos: “o nome do servo era Malco” (João 18).

“Então Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco.” — João 18

Logo em seguida, Jesus ordena que Pedro guarde a espada. Em João, a fala é: “Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (João 18). O episódio, portanto, contrasta uma reação armada de um discípulo com a disposição de Jesus de enfrentar voluntariamente o que viria.

O que cada Evangelho registra

Os quatro Evangelhos contam a prisão de Jesus, mas não apresentam exatamente os mesmos detalhes sobre o ferimento. Mateus, Marcos e Lucas relatam que um dos presentes golpeou o servo do sumo sacerdote. João é o único a fornecer os dois nomes: Pedro, como autor do golpe, e Malco, como o homem ferido.

Lucas também preserva um detalhe exclusivo e importante: Jesus toca a orelha do servo e o cura (Lucas 22). O texto não dá ao leitor a reação de Malco após a cura, nem informa se ele falou com Jesus ou com Pedro.

Evangelho Referência Quem golpeia? Quem é ferido? Detalhe exclusivo
Mateus Mateus 26 “Um dos que estavam com Jesus” Servo do sumo sacerdote Jesus cita a espada e afirma que poderia pedir legiões de anjos.
Marcos Marcos 14 “Um dos presentes” Servo do sumo sacerdote Relato conciso, sem nomes e sem cura descrita.
Lucas Lucas 22 “Um deles” Servo do sumo sacerdote Jesus toca a orelha e cura o homem.
João João 18 Simão Pedro Malco, servo do sumo sacerdote Informa o nome de Malco e que a orelha direita foi cortada.

Essas diferenças não exigem que os relatos sejam tratados como quatro episódios separados. O cenário, os personagens institucionais envolvidos e o ato violento são os mesmos. Cada autor seleciona e organiza os dados de acordo com a ênfase de seu relato. João, por exemplo, costuma nomear personagens e desenvolver diálogos que não aparecem nos Sinóticos.

O que significa ser servo do sumo sacerdote

O texto chama Malco de “servo do sumo sacerdote”. A expressão pode indicar um funcionário ligado à casa e à administração do sumo sacerdote, não necessariamente um escravo no sentido moderno e uniforme que muitas pessoas associam ao termo. No mundo antigo, a palavra podia abranger diferentes posições de dependência doméstica ou serviço pessoal.

A Bíblia não identifica, nesse ponto, o nome do sumo sacerdote a quem Malco servia. Nos relatos da paixão, Caifás é apresentado como sumo sacerdote naquele período, enquanto Anás, seu sogro, também aparece como figura de grande autoridade sacerdotal (João 18). João conta que Jesus foi levado primeiro a Anás e depois a Caifás (João 18). Por isso, é comum concluir que Malco estivesse ligado à casa sacerdotal de Caifás ou ao círculo de sua autoridade.

Essa conclusão é plausível, mas não é uma informação declarada de forma direta pelo texto. João 18 apenas diz que Malco era servo do sumo sacerdote; não oferece sua função específica, idade, origem, posição hierárquica nem detalhes de sua vida antes ou depois daquela noite.

Pedro, a espada e a resposta de Jesus

O papel de Malco no episódio só pode ser entendido dentro do conflito que se forma no jardim. Os discípulos sabiam que havia risco de confronto. Em Lucas 22, pouco antes da chegada do grupo de prisão, eles perguntam a Jesus se deveriam usar espadas. Quando o golpe ocorre, Jesus interrompe a violência e, segundo Lucas, cura o servo.

Mateus preserva uma declaração marcante: “Todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” (Mateus 26). O mesmo Evangelho acrescenta que Jesus poderia pedir socorro ao Pai, que colocaria ao seu dispor mais de doze legiões de anjos, mas que assim se cumpririam as Escrituras (Mateus 26).

João formula a resposta em torno do “cálice”, imagem já usada nas tradições da paixão para a missão e o sofrimento que Jesus aceita enfrentar (João 18; compare com Mateus 26). Assim, os Evangelhos não apresentam o ferimento de Malco como uma vitória dos discípulos ou como uma tentativa aprovada de defender Jesus. Ao contrário, a palavra e a ação de Jesus encerram o ataque.

Há ainda um contraste narrativo: Malco pertence ao grupo que chega para prender Jesus, mas é beneficiado pela intervenção de Jesus no relato de Lucas. O texto bíblico, porém, não interpreta psicologicamente esse contraste. Não diz se Malco mudou de opinião, se testemunhou a favor de Jesus ou se continuou servindo às autoridades sacerdotais.

Por que João dá o nome de Malco?

O Evangelho de João contém diversos nomes e informações concretas que não aparecem nos outros três relatos: Nicodemos, o discípulo amado, Lázaro, Marta e Maria em determinadas cenas, entre outros. Nomear Malco pode simplesmente refletir uma tradição conhecida pelo autor ou por sua comunidade. Contudo, a razão exata para a inclusão do nome não é explicada pelo próprio Evangelho.

Alguns intérpretes entendem que a identificação reforça o caráter de testemunho do relato, apresentando um personagem reconhecível ligado ao círculo sacerdotal. Outros propõem que, no momento em que João foi escrito, já não havia motivo de cautela em identificar Pedro. Há também quem veja no nome um recurso literário que torna o episódio mais vívido e individualizado.

Nenhuma dessas explicações é afirmada explicitamente em João 18. Elas pertencem ao campo da interpretação histórica e literária posterior. O dado seguro é limitado: João conhecia ou transmitia o nome do servo e o registrou como Malco.

O nome Malco e as tradições posteriores

“Malco” é a forma grega de um nome provavelmente relacionado a uma raiz semítica associada a “rei”. Nomes derivados dessa raiz eram conhecidos no ambiente semítico antigo. Ainda assim, a etimologia não permite reconstruir a biografia do personagem nem atribuir-lhe origem social específica.

Depois do período do Novo Testamento, Malco passou a ser lembrado em comentários, homilias, obras devocionais e tradições populares. Algumas leituras destacam a cura como sinal da misericórdia de Jesus até diante de um integrante do grupo adversário. Outras usam a cena para discutir a atitude de Pedro ou a natureza não militar da missão de Jesus.

Essas aplicações podem refletir convicções teológicas de diferentes tradições, mas devem ser distinguidas do que os Evangelhos dizem. Não há no Novo Testamento um relato posterior da conversão de Malco, de seu batismo, de sua morte ou de qualquer encontro posterior com Jesus. Também não há uma passagem bíblica que o apresente como santo, mártir ou líder cristão.

Malco tornou-se cristão?

Não se sabe. O desejo de preencher essa lacuna aparece em tradições e especulações posteriores, sobretudo por causa da cura narrada por Lucas 22. Mas o texto não informa nenhuma resposta pessoal de Malco ao ocorrido. Afirmar que ele se converteu seria ir além das evidências bíblicas disponíveis.

Ele era guarda ou empregado doméstico?

O texto o chama de servo do sumo sacerdote, enquanto João distingue Malco dos guardas que acompanhavam a prisão (João 18). Isso sugere que ele não é apresentado primariamente como soldado ou policial do templo. Ainda assim, ele estava no grupo enviado para prender Jesus, e sua tarefa exata não é conhecida.

Contexto histórico da prisão de Jesus

A prisão ocorre durante a celebração da Páscoa, em Jerusalém, período de intensa concentração de peregrinos e maior vigilância das autoridades. Os Evangelhos descrevem uma aliança circunstancial entre lideranças sacerdotais, guardas e, em João, uma escolta associada ao poder romano. A terminologia de João 18 é debatida: algumas traduções entendem que havia uma coorte romana, enquanto outras observam que o termo pode ser empregado de maneira mais ampla para um destacamento.

Esse debate não altera a identificação de Malco. Ele é claramente ligado ao sumo sacerdote, não apresentado como representante romano. Seu ferimento torna visível a confusão e o perigo daquela prisão noturna, mas a narrativa prossegue sem que ele volte a desempenhar função ativa.

Também é importante notar que a Bíblia não fornece uma data de nascimento ou morte para Malco. A prisão de Jesus costuma ser situada por pesquisadores entre os anos 30 e 33 d.C., mas a definição exata do ano continua debatida. Portanto, não é possível montar uma cronologia biográfica de Malco com base nas fontes bíblicas.

Perguntas frequentes

Quem cortou a orelha de Malco?

O Evangelho de João identifica Simão Pedro como o discípulo que sacou a espada e feriu Malco (João 18). Mateus 26, Marcos 14 e Lucas 22 não dão o nome de Pedro, referindo-se apenas a um dos presentes ou um dos discípulos.

Qual orelha de Malco foi cortada?

João 18 especifica que foi a orelha direita. Os demais Evangelhos mencionam o corte da orelha, mas não indicam o lado.

Jesus curou Malco?

Segundo Lucas 22, sim. Jesus toca a orelha do servo e o cura. Mateus, Marcos e João não descrevem a cura, embora não a contradigam; simplesmente concentram-se em outros detalhes da prisão.

Malco é citado em outra parte da Bíblia?

Com esse nome, ele aparece no episódio da prisão em João 18. Os Evangelhos paralelos falam do servo do sumo sacerdote, mas não o chamam de Malco. A Bíblia não traz outras informações seguras sobre sua trajetória.

Resumo

  • Malco era o servo do sumo sacerdote presente na prisão de Jesus, conforme João 18.
  • Pedro é identificado por João como o discípulo que lhe cortou a orelha direita.
  • Lucas 22 afirma que Jesus curou o ferimento, detalhe exclusivo desse Evangelho.
  • Os quatro Evangelhos relatam o ataque, mas João é o único que fornece os nomes de Pedro e Malco.
  • A Bíblia não informa a função exata de Malco, sua origem nem o que aconteceu com ele depois do episódio.
  • Relatos sobre uma possível conversão de Malco pertencem à tradição posterior e não podem ser tratados como dado bíblico.

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