Ir para o conteúdo
Perguntas e explicações bíblicas com clareza Como o site funciona
Bíblia

Quais são as cartas de Paulo em ordem cronológica segundo os estudos bíblicos

Veja quais são as cartas de Paulo em ordem cronológica, as datas mais aceitas, as controvérsias de autoria e o lugar de cada epístola no Novo Testamento.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
Compartilhar WhatsApp Facebook X LinkedIn Telegram E-mail

Quais são as cartas de Paulo em ordem cronológica? A sequência mais usada pelos estudos bíblicos começa com 1 Tessalonicenses, por volta de 50–51 d.C., e termina com as cartas pastorais, se elas forem consideradas paulinas, entre os anos 60 e meados dos 60 d.C. Contudo, as datas são aproximadas, e a autoria de algumas cartas é debatida.

O que são as cartas de Paulo e por que a ordem cronológica importa?

As cartas atribuídas ao apóstolo Paulo formam o maior conjunto de escritos do Novo Testamento. Nas Bíblias cristãs, elas aparecem depois de Atos dos Apóstolos e antes da carta aos Hebreus. A ordem tradicional do cânon, porém, não é cronológica: em geral, as cartas estão agrupadas aproximadamente pelo tamanho, começando por Romanos e seguindo até Filemom.

Organizá-las por provável data de redação ajuda a acompanhar o desenvolvimento das comunidades mencionadas em Atos e a situar os temas de cada documento. Por exemplo, 1 Tessalonicenses trata de uma igreja recente e de dúvidas sobre a volta de Cristo; Gálatas e Romanos desenvolvem debates sobre a relação entre judeus e não judeus na comunidade cristã; e as cartas pastorais abordam liderança e organização interna.

O texto bíblico não fornece uma lista cronológica pronta. Ele preserva as cartas e, em Atos, narra viagens, prisões e discursos de Paulo. A cronologia resulta da comparação entre dados internos das epístolas, informações de Atos dos Apóstolos, referências históricas externas e reconstruções acadêmicas. Por isso, existem diferenças entre especialistas, especialmente quanto a Gálatas, Filipenses, Colossenses, Efésios, 2 Tessalonicenses e às pastorais.

As 13 cartas atribuídas a Paulo no Novo Testamento

O Novo Testamento apresenta treze cartas com o nome de Paulo no cabeçalho ou na tradição canônica. São elas: Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito e Filemom.

Hebreus não entra nessa lista. Em algumas tradições cristãs antigas, Hebreus foi associada a Paulo, mas o próprio texto não identifica seu autor. Além disso, seu vocabulário, estilo e forma de argumentação diferem das cartas paulinas reconhecidas. Hoje, a autoria paulina de Hebreus não é a posição predominante nos estudos bíblicos, embora a identidade de seu autor permaneça desconhecida.

É importante distinguir duas questões: uma carta pode pertencer ao cânon do Novo Testamento e, ao mesmo tempo, ter sua autoria paulina discutida. Canonicidade e autoria não são exatamente a mesma pergunta.

Também é preciso notar que as cartas foram escritas para situações concretas. Paulo, ou alguém escrevendo em seu nome segundo parte da pesquisa, dirige-se a igrejas e colaboradores conhecidos. Assim, elas não são tratados abstratos produzidos para formar um volume único. Sua reunião em uma coleção ocorreu posteriormente.

Ordem cronológica mais aceita das cartas paulinas

A tabela abaixo apresenta uma cronologia aproximada bastante difundida. Ela inclui as treze cartas tradicionalmente atribuídas a Paulo, mas marca os principais pontos em que há controvérsia. As datas devem ser lidas como faixas prováveis, não como certezas documentais.

Ordem aproximada Carta Data provável Local ou contexto sugerido Grau de consenso sobre autoria
1 1 Tessalonicenses 50–51 d.C. Corinto, durante a segunda viagem Amplamente aceita como paulina
2 Gálatas 48–55 d.C. Data e destinatários disputados Amplamente aceita como paulina
3 1 Coríntios 53–55 d.C. Éfeso, durante a terceira viagem Amplamente aceita como paulina
4 2 Coríntios 55–56 d.C. Macedônia Amplamente aceita como paulina
5 Romanos 56–58 d.C. Corinto ou região da Acaia Amplamente aceita como paulina
6 Filipenses 55–62 d.C. Prisão; Éfeso, Cesareia e Roma são propostas Amplamente aceita como paulina
7 Filemom 55–62 d.C. Prisão; geralmente ligada a Colossenses Amplamente aceita como paulina
8 Colossenses 60–62 d.C., ou posterior Prisão, tradicionalmente Roma Debatida
9 Efésios 60–62 d.C., ou 70–90 d.C. Prisão ou composição posterior Debatida
10 2 Tessalonicenses 51–52 d.C., ou posterior Possivelmente Corinto Debatida
11 1 Timóteo 62–65 d.C., ou fim do século I Após Atos, segundo leitura tradicional Fortemente debatida
12 Tito 62–65 d.C., ou fim do século I Após Atos, segundo leitura tradicional Fortemente debatida
13 2 Timóteo 64–67 d.C., ou fim do século I Prisão em Roma, segundo leitura tradicional Fortemente debatida

A posição de 2 Tessalonicenses merece uma observação. Quando considerada uma carta autêntica de Paulo, muitos a colocam logo após 1 Tessalonicenses, em 51 ou 52 d.C. Quando entendida como obra posterior de um discípulo ou de uma escola paulina, ela aparece depois das cartas indiscutidas. A tabela explicita essa divergência em vez de apresentar uma única data como definitiva.

As sete cartas geralmente reconhecidas como autênticas

Há amplo acordo acadêmico de que sete cartas foram escritas pelo próprio Paulo: 1 Tessalonicenses, Gálatas, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Romanos, Filipenses, Filemom. Esse grupo é frequentemente chamado de cartas paulinas indiscutidas. O consenso não significa que toda questão de data, local ou unidade literária esteja resolvida, mas indica que a autoria direta de Paulo é largamente aceita.

1 Tessalonicenses: o ponto de partida mais provável

1 Tessalonicenses é normalmente tratada como a carta cristã mais antiga preservada no Novo Testamento. Atos 17 relata a passagem de Paulo e seus companheiros por Tessalônica, seguida de oposição e saída para Bereia. Em 1 Tessalonicenses 3, Paulo menciona o envio de Timóteo e a notícia recebida sobre a comunidade. Esses elementos combinam com uma redação em Corinto, por volta de 50–51 d.C., período relacionado a Atos 18.

Gálatas: a carta cuja data mais divide os pesquisadores

Gálatas pode ter sido escrita antes do chamado Concílio de Jerusalém, relatado em Atos 15, ou depois dele. A divergência depende, entre outras coisas, de quem eram os “gálatas” destinatários: comunidades do sul da província romana da Galácia, visitadas em Atos 13–14, ou grupos da região étnica do norte. Na hipótese do sul, alguns defendem uma data entre 48 e 49 d.C.; na hipótese do norte, muitos sugerem os anos 53 a 55 d.C.

O texto de Gálatas 1–2 relata encontros de Paulo com lideranças de Jerusalém, mas a relação exata desses encontros com os episódios de Atos não é consensual. Portanto, não existe uma data comprovada para Gálatas. O mais correto é situá-la, com cautela, entre o fim dos anos 40 e meados dos anos 50.

Cartas ligadas à terceira viagem

1 Coríntios informa que Paulo pretendia permanecer em Éfeso até o Pentecostes (1 Coríntios 16). Atos 19 também descreve uma longa permanência em Éfeso. Por isso, a carta costuma ser datada de 53 a 55 d.C. 2 Coríntios foi provavelmente escrita depois, já na Macedônia, como sugere 2 Coríntios 7 e como se relaciona ao itinerário de Atos 20.

Romanos é geralmente colocada no final desse período, entre 56 e 58 d.C. Paulo afirma estar a caminho de Jerusalém para levar uma contribuição às comunidades da Judeia (Romanos 15). Atos 20–21 narra uma viagem a Jerusalém que costuma ser relacionada a esse dado. Romanos 16 menciona Febe, ligada a Cencreia, porto próximo de Corinto, o que reforça a hipótese de composição na Acaia.

As cartas da prisão e os limites das evidências

Filipenses, Filemom, Colossenses e Efésios são frequentemente chamadas de cartas da prisão porque mencionam cadeias, prisioneiro ou circunstâncias de confinamento. Filipenses 1 e Filemom 1 são exemplos claros. O problema é que o Novo Testamento registra mais de uma prisão de Paulo e não diz explicitamente onde cada carta foi escrita.

A tradição mais conhecida associa essas cartas à prisão em Roma, mencionada em Atos 28. Isso favoreceria datas em torno de 60 a 62 d.C. Entretanto, alguns estudiosos propõem Éfeso para Filipenses e Filemom, pois a distância até a Macedônia e a Ásia Menor poderia explicar melhor a frequência esperada de contatos. Outros consideram Cesareia, onde Paulo ficou preso em Atos 24–26. Não há documentação suficiente para encerrar a questão.

Filipenses e Filemom são amplamente aceitas como paulinas. Colossenses e Efésios, por outro lado, dividem a pesquisa. Quem defende a autoria de Paulo aponta seus cabeçalhos — Colossenses 1 e Efésios 1 —, os nomes de colaboradores e a compatibilidade de vários temas com cartas indiscutidas. Quem questiona observa diferenças de vocabulário, estilo, estrutura das frases e ênfases eclesiológicas.

Em Colossenses 4 e Filemom 1 aparecem nomes em comum, como Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafras e Lucas. Isso é um dado textual concreto que favorece a leitura de proximidade entre as duas cartas. Ainda assim, ele não resolve sozinho a autoria nem a data de Colossenses.

2 Tessalonicenses e as cartas pastorais: onde estão os maiores debates

2 Tessalonicenses

2 Tessalonicenses tem uma abertura semelhante à de 1 Tessalonicenses e trata novamente de questões ligadas ao “dia do Senhor” (2 Tessalonicenses 2). A leitura tradicional entende que Paulo a escreveu pouco depois da primeira carta, para corrigir inquietações na igreja. Nesse caso, ela deve ocupar o segundo lugar da cronologia.

Outra leitura sustenta que 2 Tessalonicenses foi redigida mais tarde por alguém ligado à tradição paulina. Os argumentos apresentados incluem diferenças de tom, de escatologia e a proximidade literária com 1 Tessalonicenses. Não há unanimidade. Assim, uma lista cronológica responsável precisa indicar as duas possibilidades.

1 Timóteo, Tito e 2 Timóteo

As cartas dirigidas a Timóteo e Tito são chamadas de pastorais: 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito. A designação vem de seu foco em supervisores, diáconos, ensino e organização das comunidades, especialmente em 1 Timóteo 3, Tito 1 e 2 Timóteo 2.

Segundo a cronologia tradicional, Paulo teria sido libertado após a prisão narrada em Atos 28, realizado novas viagens e, posteriormente, voltado a ser preso em Roma. Nessa reconstrução, 1 Timóteo e Tito seriam escritos entre 62 e 65 d.C.; 2 Timóteo, apresentada como carta de prisão e despedida, seria redigida entre 64 e 67 d.C. A morte de Paulo é tradicionalmente relacionada à perseguição de Nero, mas o Novo Testamento não narra sua morte nem fornece uma data.

Grande parte da pesquisa crítica moderna questiona que as três pastorais tenham sido escritas diretamente por Paulo. Os motivos incluem linguagem, formas de organização comunitária e tratamento de controvérsias que alguns situam mais tarde. Há também posições intermediárias: alguns estudiosos defendem a autenticidade de 2 Timóteo e questionam as outras duas; outros admitem o uso de secretário, materiais anteriores ou edição posterior. O texto bíblico não esclarece como essas cartas foram produzidas, portanto a discussão permanece aberta.

O que Atos dos Apóstolos ajuda a datar — e o que não ajuda

Atos dos Apóstolos é indispensável para montar o cenário histórico, mas não é uma agenda com datas completas. O livro conecta Paulo a cidades como Filipos, Tessalônica, Corinto, Éfeso, Jerusalém, Cesareia e Roma. Atos 18 menciona Gálio como procônsul da Acaia, uma referência que costuma ser relacionada aos anos 51–52 d.C. Esse é um dos marcos externos mais úteis para situar a permanência de Paulo em Corinto e, por consequência, 1 Tessalonicenses.

Atos 19–20 ajuda a relacionar Éfeso, Macedônia e a coleta para Jerusalém às cartas aos Coríntios e a Romanos. Atos 24–28 descreve as prisões em Cesareia e Roma, oferecendo possíveis cenários para as cartas da prisão. Porém, Atos não cita pelo nome a redação de nenhuma das cartas preservadas. As conexões são inferências históricas, ainda que muitas sejam plausíveis.

Também há diferenças de perspectiva entre Atos e as informações autobiográficas de Paulo, especialmente em Gálatas 1–2. Isso não obriga a concluir que um texto esteja simplesmente errado, mas exige cuidado ao encaixar todos os episódios em uma linha do tempo única. A cronologia é uma reconstrução interpretativa baseada em fontes antigas, e não uma lista explicitamente fornecida pela Bíblia.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira carta escrita por Paulo?

1 Tessalonicenses é, em geral, considerada a primeira carta de Paulo preservada no Novo Testamento, datada de cerca de 50–51 d.C. Gálatas pode ser anterior em algumas reconstruções, especialmente na hipótese de uma data antes de Atos 15, mas essa posição é disputada.

Quantas cartas Paulo escreveu?

O cânon do Novo Testamento atribui treze cartas a Paulo. Historicamente, o próprio Paulo menciona outras correspondências que não foram preservadas, como uma carta anterior aos coríntios em 1 Coríntios 5. Portanto, não é possível afirmar que as treze sejam tudo o que ele escreveu.

Hebreus é uma carta de Paulo?

O texto de Hebreus não nomeia Paulo como autor. Embora tenha sido atribuída a ele em parte da tradição antiga, essa autoria é hoje amplamente rejeitada pelos estudos bíblicos por razões literárias e teológicas. O autor de Hebreus não é identificado com segurança.

Por que a ordem da Bíblia é diferente da ordem cronológica?

As cartas no Novo Testamento foram organizadas principalmente segundo extensão e agrupamento, não pela data de composição. Romanos abre a coleção por ser a carta mais longa dirigida a uma comunidade, enquanto as cartas mais curtas aparecem perto do fim.

Resumo

  • A ordem canônica das cartas de Paulo não corresponde à ordem em que elas provavelmente foram escritas.
  • 1 Tessalonicenses, datada de cerca de 50–51 d.C., é a primeira carta paulina preservada segundo a cronologia mais aceita.
  • Sete cartas são amplamente reconhecidas como autênticas: 1 Tessalonicenses, Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Filipenses e Filemom.
  • 2 Tessalonicenses, Colossenses, Efésios e as cartas pastorais têm autoria ou data discutidas em diferentes graus.
  • Atos dos Apóstolos fornece contexto para as viagens e prisões de Paulo, mas não entrega uma lista datada das cartas.
  • Datas e locais de redação são reconstruções históricas aproximadas, não informações declaradas de modo completo pelo texto bíblico.

Continue lendo

Artigos relacionados

Mais em Bíblia