Ir para o conteúdo
Perguntas e explicações bíblicas com clareza Como o site funciona
Bíblia

Quais são as aves da Bíblia e como elas aparecem nas Escrituras

Quais são as aves da Bíblia? Veja espécies, passagens, simbolismos e limites das identificações feitas a partir dos textos bíblicos.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 12 min de leitura
Compartilhar WhatsApp Facebook X LinkedIn Telegram E-mail

Quais são as aves da Bíblia? Os textos bíblicos mencionam, com diferentes graus de precisão, aves como pomba, corvo, águia, pardal, codorniz, galo, cegonha, avestruz e abutre. Nem todos os nomes hebraicos e gregos, porém, podem ser associados com certeza a uma espécie moderna específica.

As aves nos textos bíblicos: uma visão geral

As aves ocupam espaço importante na Bíblia porque faziam parte da paisagem do antigo Oriente Próximo, da alimentação, das leis de pureza ritual, da linguagem poética e das narrativas. Algumas aparecem em relatos concretos, como o corvo e a pomba enviados por Noé; outras surgem em comparações, como a águia usada para expressar força, velocidade ou proteção; e há ainda listas de aves proibidas para consumo.

É necessário fazer uma distinção básica: o texto bíblico registra nomes ou categorias de aves conforme os vocabulários antigos; a identificação zoológica detalhada é, em muitos casos, resultado de estudos posteriores. Traduções em português podem empregar nomes diferentes para o mesmo termo original, sobretudo quando se trata de aves de rapina, pequenas aves e animais aquáticos.

Além disso, a Bíblia não oferece um catálogo científico. Seus autores não escreviam com a classificação biológica moderna, baseada em gênero, família e espécie. Por isso, perguntas sobre “qual espécie exata” de certas aves exigem cautela. Em vários casos, a resposta honesta é que a identificação permanece discutida.

Aves identificadas com maior clareza na Bíblia

Algumas aves são reconhecidas de maneira relativamente segura porque o contexto narrativo, o uso antigo dos termos e a fauna regional tornam a identificação bastante provável. Isso não elimina todas as dúvidas de tradução, mas permite apresentar uma lista principal.

Ave ou grupo Passagens representativas Contexto bíblico Grau de identificação moderna
Pomba Gênesis 8; Levítico 12; Mateus 3 Noé, sacrifícios e imagem no batismo de Jesus Alto; geralmente pomba ou rola
Corvo Gênesis 8; 1 Reis 17 Noé envia um corvo; corvos alimentam Elias Alto
Águia Êxodo 19; Isaías 40; Mateus 24 Metáforas de proteção, vigor e reunião junto a cadáveres Médio; pode incluir grandes aves de rapina
Codorniz Êxodo 16; Números 11 Alimento provido no deserto Alto
Galo Mateus 26; Marcos 14; João 18 O canto do galo ligado à negação de Pedro Alto
Pardal Salmo 84; Mateus 10; Lucas 12 Ave pequena usada em imagens do cotidiano Médio; termo pode abranger pequenas aves
Avestruz Jó 39; Lamentações 4 Descrição de hábitos e linguagem de desolação Alto
Cegonha Levítico 11; Jeremias 8; Zacarias 5 Lista alimentar, migração e visão profética Alto

Pomba e rola

A pomba é uma das aves mais conhecidas da Bíblia. Em Gênesis 8, Noé primeiro envia um corvo e depois uma pomba para verificar se as águas do dilúvio haviam baixado. Na segunda saída, a pomba retorna com uma folha de oliveira; depois, não volta mais à arca. O texto registra essa sequência, mas não explica que a ave seja um símbolo universal e abstrato de paz. Essa associação é uma interpretação cultural posterior, embora a cena da oliveira tenha contribuído fortemente para ela.

Nas leis sacrificiais, rolas e pombinhos eram oferecidos em situações específicas, inclusive por pessoas que não tinham recursos para apresentar animais maiores, como se vê em Levítico 12. Lucas 2 menciona a oferta de “um par de rolas ou dois pombinhos” no contexto da apresentação de Jesus no templo. Em Mateus 3, Marcos 1, Lucas 3 e João 1, o Espírito é descrito como descendo “como pomba” ou “em forma corpórea, como pomba”, conforme as formulações de cada evangelho.

Corvo

O corvo aparece em Gênesis 8, quando Noé o solta antes de enviar a pomba. O relato diz que ele saiu, “indo e voltando”, até que as águas secaram da terra. Em 1 Reis 17, corvos levam pão e carne ao profeta Elias junto ao ribeiro de Querite. O texto não identifica outra categoria de animal: trata-se explicitamente de corvos.

Em Levítico 11 e Deuteronômio 14, o corvo e suas variedades aparecem entre as aves que os israelitas não deveriam comer. Algumas leituras modernas tentaram entender os “corvos” de 1 Reis 17 como pessoas de um lugar chamado Orbe ou como comerciantes, mas essa não é a leitura direta do hebraico tradicional. É uma hipótese minoritária e discutida, não uma informação afirmada pelo texto.

Codorniz, galo e aves domésticas

Em Êxodo 16, codornizes cobrem o acampamento israelita no deserto, e o maná aparece pela manhã. Números 11 retoma o episódio em outro contexto e descreve uma grande quantidade de codornizes trazidas por um vento. A codorniz-comum, ave migratória conhecida na região, é a identificação mais aceita.

O galo aparece sobretudo nos relatos da paixão. Jesus anuncia que Pedro o negaria antes que o galo cantasse, e os Evangelhos registram o cumprimento da previsão em Mateus 26, Marcos 14, Lucas 22 e João 18. Marcos apresenta uma formulação com dois cantos do galo, enquanto os demais evangelhos destacam o canto como marco do episódio. Essa diferença é um dado literário dos relatos e não permite reconstruir todos os detalhes cronológicos sem debate entre os intérpretes.

As aves de rapina e os problemas de tradução

As listas de Levítico 11 e Deuteronômio 14 reúnem muitas aves que não podiam ser consumidas pelos israelitas. Entre elas aparecem águia, abutre, falcão, milhafre, coruja, gaivota, pelicano, cegonha e outras, dependendo da tradução. É precisamente nessas listas que surgem as maiores dificuldades de identificação.

Os termos hebraicos antigos nem sempre têm equivalência exata com os nomes modernos em português. Uma palavra pode designar uma família de aves, uma ave pelo comportamento ou pela aparência, e não uma espécie delimitada. Além disso, as traduções históricas passaram pelo grego, pelo latim e por diferentes tradições de interpretação.

“Estas são as aves que vocês terão como abomináveis; não se comerão, pois são abomináveis: a águia, o quebrantosso, o xofrango...” (Levítico 11, em traduções que preservam uma lista de aves de rapina).

O conteúdo exato dos nomes varia entre versões bíblicas. Algumas preferem termos técnicos ou tradicionais, como “quebrantossos” e “gier-águila”; outras usam palavras mais familiares ao leitor, mas menos específicas. Portanto, não é correto afirmar que todas as listas em português identifiquem espécies com consenso científico.

Águia ou abutre?

A palavra traduzida muitas vezes por “águia” é nesher em hebraico. Em diversos contextos, ela pode referir-se a uma grande ave de rapina; vários estudiosos entendem que, em certas passagens, o comportamento descrito se aproxima mais de um abutre do que da águia moderna. Deuteronômio 28, por exemplo, fala de uma nação que viria “como voa a águia”, imagem de rapidez e ameaça. Jó 39 descreve uma grande ave que faz o ninho no alto e busca alimento, incluindo sangue e cadáveres.

Não há acordo completo sobre a equivalência em todos esses textos. A tradução “águia” é tradicional e permanece comum, mas a possibilidade de “abutre” em alguns contextos é defendida por pesquisadores devido aos hábitos alimentares e à fauna local. Mateus 24 e Lucas 17 usam um termo grego que também pode ser traduzido por “águia” ou “abutre”, especialmente na frase sobre aves reunidas onde está o cadáver. A divergência é de tradução e interpretação, não de uma explicação oferecida pelos próprios evangelhos.

Aves em narrativas, leis e poesia

As aves não têm uma única função na Bíblia. O mesmo animal pode aparecer como alimento, como elemento da criação, como sinal de desolação ou como recurso poético. Ler cada passagem dentro de seu gênero literário evita conclusões indevidas.

Nas narrativas históricas

Além dos episódios de Noé, Elias, das codornizes e do galo, há aves ligadas a acontecimentos militares e políticos. Em 1 Samuel 17, Davi diz que entregaria o corpo de Golias às aves do céu. A expressão corresponde a uma ameaça de derrota sem sepultamento digno, comum no antigo Oriente Próximo. Não é uma lista de espécies nem uma afirmação sobre um tipo específico de ave.

Em 1 Reis 4, a descrição da mesa de Salomão menciona “aves cevadas”, isto é, aves engordadas para consumo. A passagem mostra que aves domésticas ou preparadas como alimento integravam a alimentação da corte, mas não fornece uma lista zoológica detalhada.

Nas leis alimentares

Levítico 11 e Deuteronômio 14 apresentam as principais listas bíblicas de aves consideradas impróprias para alimentação no antigo Israel. Muitas são aves de rapina, necrófagas ou ligadas a ambientes aquáticos. O texto não expõe uma justificativa zoológica sistemática para cada nome; ele estabelece a distinção ritual.

Também é importante delimitar o alcance dessas passagens. Elas fazem parte da legislação atribuída a Israel na Torá. As interpretações sobre sua aplicação em comunidades religiosas posteriores variam bastante, especialmente à luz de textos como Marcos 7, Atos 10 e Romanos 14. Essa discussão pertence à história da interpretação e não altera o fato de que Levítico 11 e Deuteronômio 14 registram tais proibições para o contexto legal israelita.

Na poesia e na sabedoria

Os livros poéticos usam aves para comunicar fragilidade, segurança, fuga, distância e renovação. Salmo 84 menciona o pardal que encontra casa e a andorinha que faz ninho perto dos altares. O objetivo do salmo não é ensinar ornitologia, mas expressar desejo de proximidade com o santuário.

Isaías 40 afirma que os que esperam no Senhor renovam as forças e “sobem com asas como águias”. A imagem ressalta vigor renovado. Jó 39 traz uma descrição extensa da avestruz e da grande ave de rapina, com foco na diversidade e no mistério da criação. Cantares 2 usa a pomba como linguagem amorosa, enquanto Oséias 7 compara Efraim a uma “pomba enganada, sem entendimento”, em tom crítico.

Outras aves mencionadas ou provavelmente presentes nas listas

Além das espécies mais reconhecidas, as traduções bíblicas citam muitos outros nomes. Eles precisam ser lidos com atenção porque a equivalência entre versões nem sempre é idêntica. A lista a seguir reúne designações frequentes em Bíblias em português, sem afirmar que cada uma corresponda de forma indiscutível a uma única espécie atual:

  • Andorinha: aparece em Salmo 84, Provérbios 26, Isaías 38 e Jeremias 8. Em alguns casos, o termo pode abranger aves pequenas de voo rápido.
  • Coruja: é comum em traduções de Isaías 13, Isaías 34 e Salmo 102, em cenários de ruína e solidão. Os nomes originais e as espécies exatas são debatidos.
  • Pelicano: mencionado em Levítico 11, Deuteronômio 14, Salmo 102 e Sofonias 2. A associação geral com uma ave aquática é provável.
  • Falcão e gavião: aparecem nas listas de Levítico 11 e Deuteronômio 14. A classificação moderna exata varia conforme a tradução.
  • Milhafre: figura entre aves proibidas em Levítico 11 e Deuteronômio 14, embora as versões possam usar outros nomes para o termo hebraico.
  • Garça: consta em Levítico 11 e Deuteronômio 14 em diversas traduções; a identificação é plausível, mas a nomenclatura antiga não é totalmente uniforme.
  • Grou: aparece em Isaías 38 e Jeremias 8 em algumas versões. Outras traduzem o termo por andorinha ou outra ave migratória.
  • Morcego: está nas listas de Levítico 11 e Deuteronômio 14, embora biologicamente não seja ave. Isso revela que a classificação antiga não seguia a zoologia moderna.

O caso do morcego é especialmente esclarecedor. O texto o inclui entre os seres alados, mas a biologia o classifica como mamífero. Não se trata de um “erro” dentro da finalidade do texto antigo; trata-se de uma organização baseada em categorias observáveis e culturais, diferente da taxonomia científica posterior.

O que é símbolo no texto e o que é interpretação posterior

Certas aves adquiriram forte valor simbólico na arte, na liturgia e na cultura popular. Contudo, é preciso distinguir cuidadosamente o que cada passagem diz daquilo que leitores posteriores passaram a associar a ela.

  1. A pomba com ramo de oliveira: Gênesis 8 registra o retorno da pomba com uma folha de oliveira. A noção de que esse quadro funciona como símbolo universal de paz foi desenvolvida amplamente depois, embora tenha base visual nessa narrativa.
  2. A pomba como representação do Espírito Santo: os Evangelhos dizem que o Espírito desceu “como pomba” no batismo de Jesus. A iconografia cristã posterior frequentemente representa o Espírito como uma pomba. O texto, porém, usa uma comparação ou descrição de aparência; ele não fornece uma definição zoológica ou visual completa.
  3. A águia como símbolo de João: a associação da águia ao Evangelho de João integra a tradição cristã posterior dos quatro evangelistas. Ela não é estabelecida pelo Evangelho de João nem por Apocalipse 4 de modo explícito.
  4. O corvo como sinal de maldade: o corvo pode ser visto negativamente por estar entre as aves não permitidas para consumo em Levítico 11, mas também é instrumento de provisão para Elias em 1 Reis 17. A Bíblia não apresenta uma regra simples de que todo corvo simbolize o mal.

Assim, não convém atribuir um único significado fixo a cada ave bíblica. O sentido depende da passagem, do gênero literário e do contexto imediato.

Perguntas frequentes

Quantas aves são citadas na Bíblia?

Não existe um número único e indiscutível. As listas de Levítico 11 e Deuteronômio 14 contêm cerca de vinte designações de aves, mas traduções diferentes dividem ou identificam esses termos de modos distintos. Somando as narrativas e os textos poéticos, há dezenas de referências a aves ou grupos de aves.

Qual é a ave mais mencionada na Bíblia?

Não há uma contagem universalmente padronizada, pois ela depende da tradução e de quais formas linguísticas são agrupadas. Pomba, águia, corvo e pardal estão entre as aves mais reconhecíveis e recorrentes nos textos bíblicos.

O pavão aparece na Bíblia?

Algumas traduções de 1 Reis 10 e 2 Crônicas 9 dizem que as embarcações de Salomão traziam pavões. Outras preferem “babuínos” ou apresentam notas alternativas, porque o termo hebraico é debatido. Portanto, a presença do pavão nessas passagens é tradicional em certas versões, mas não é consenso entre especialistas.

Por que o morcego aparece entre as aves em Levítico?

Levítico 11 e Deuteronômio 14 agrupam o morcego com criaturas aladas dentro de uma classificação antiga. A biologia moderna o reconhece como mamífero. A diferença decorre dos critérios classificatórios: o texto bíblico trabalha com categorias práticas e observáveis, não com a taxonomia científica atual.

Resumo

  • A Bíblia menciona aves conhecidas, como pomba, corvo, codorniz, galo, cegonha, avestruz e pardal.
  • Águia, abutre, falcão, coruja e outros nomes de listas alimentares podem ter identificação moderna discutida.
  • Gênesis 8 registra o corvo e a pomba de Noé; 1 Reis 17 relata corvos alimentando Elias; os Evangelhos citam o galo na negação de Pedro.
  • Levítico 11 e Deuteronômio 14 concentram as principais listas de aves proibidas para consumo no antigo Israel.
  • Os simbolismos populares ligados à pomba, à águia e ao corvo precisam ser diferenciados do que os textos afirmam diretamente.
  • Para compreender cada ave, o contexto da passagem é mais importante do que atribuir um significado fixo a todo o animal.

Continue lendo

Artigos relacionados

Mais em Bíblia