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Quais são os instrumentos musicais da Bíblia e como eram usados

Descubra quais são os instrumentos musicais da Bíblia, seus nomes, contextos de uso e os desafios de tradução dos textos antigos.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quais são os instrumentos musicais da Bíblia? Os textos bíblicos mencionam instrumentos de corda, sopro e percussão, usados em celebrações, procissões, atividades do templo, anúncios públicos e também em cenas cotidianas. Porém, identificar cada instrumento com precisão moderna nem sempre é possível, pois muitos nomes hebraicos e gregos têm tradução discutida.

O que a Bíblia registra sobre música e instrumentos

A música aparece desde as narrativas iniciais do Gênesis até as visões do Apocalipse. Em Gênesis 4, Jubal é apresentado como “pai de todos os que tocam harpa e flauta”, em formulação que associa a ele o desenvolvimento dessas práticas. O texto, contudo, não descreve o formato dos instrumentos nem permite reconstruir sua sonoridade.

No Antigo Testamento, os instrumentos surgem em festas, vitórias militares, lamentos, coroações e cultos. Em 1 Samuel 10, por exemplo, um grupo de profetas vem acompanhado de saltério, tamborim, flauta e harpa. Em 2 Samuel 6, Davi e os israelitas celebram diante da arca com instrumentos de madeira de cipreste, harpas, liras, tamborins, chocalhos e címbalos, conforme as escolhas de tradução.

Os relatos ligados ao templo de Jerusalém também dão à música um papel organizado. Em 1 Crônicas 15 e 1 Crônicas 25, levitas são designados para o serviço musical, com destaque para instrumentos de corda e címbalos. Já 2 Crônicas 5 descreve trombetas e cantores na dedicação do templo de Salomão.

“Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e harpa. Louvai-o com adufe e danças; louvai-o com instrumentos de cordas e flautas.” (Salmo 150)

Esse salmo é a lista mais conhecida de instrumentos na Bíblia, mas não deve ser tratado como um catálogo técnico. Ele é poesia litúrgica: utiliza linguagem ampla e cumulativa para convocar toda a criação ao louvor. Ainda assim, confirma que diferentes famílias instrumentais eram conhecidas e empregadas no universo religioso de Israel.

As três grandes famílias de instrumentos bíblicos

Uma maneira útil de organizar as referências é separar os instrumentos por modo de produção do som. Essa classificação é moderna, mas ajuda a compreender a variedade presente nas passagens.

Instrumentos de corda

Os principais nomes traduzidos como instrumentos de corda são a harpa, a lira, o saltério e, em algumas versões, a cítara. Não se deve imaginar automaticamente a harpa de concerto moderna. As evidências arqueológicas e iconográficas do antigo Oriente Próximo apontam para instrumentos portáteis, com cordas estendidas em armações de madeira.

A palavra hebraica kinnor costuma ser traduzida por “harpa” ou “lira”. É o instrumento mais associado a Davi: ele a toca para Saul em 1 Samuel 16, e ela reaparece em títulos e imagens poéticas dos Salmos. A palavra nevel, por sua vez, é traduzida de formas variadas como “saltério”, “harpa” ou “lira”. A diferença física exata entre kinnor e nevel não é consensual entre especialistas.

Instrumentos de sopro

Entre os sopros, os mais conhecidos são a trombeta, o shofar ou chifre de carneiro, e a flauta. As trombetas de prata aparecem de modo especialmente claro em Números 10: Moisés recebe a instrução de fazer duas trombetas para convocar a comunidade, ordenar partidas e acompanhar ocasiões solenes.

O shofar é diferente da trombeta metálica. Ele é associado a um chifre, geralmente de carneiro, e aparece em cenas de alerta, guerra, assembleia e celebração. Em Josué 6, o toque de chifres integra a narrativa da queda de Jericó. Em Levítico 25, o som do shofar anuncia o jubileu. Muitas Bíblias traduzem o termo simplesmente como “trombeta”, o que pode apagar essa distinção.

A flauta é frequentemente vinculada ao hebraico halil, provavelmente um instrumento de sopro com tubo e palheta ou embocadura, embora sua identificação exata permaneça debatida. Ela aparece em contextos de alegria, como Isaías 30, e de luto, como Mateus 9, onde flautistas estão na casa da menina dada como morta.

Instrumentos de percussão

O tamborim, também chamado de adufe em traduções mais antigas, é o instrumento de percussão mais recorrente. O hebraico tof provavelmente designa um tambor de moldura, semelhante a modelos conhecidos em culturas vizinhas. Miriã o toca após a travessia do mar em Êxodo 15, acompanhada por outras mulheres com tamborins e danças.

Os címbalos também são mencionados nos serviços levíticos, especialmente em 1 Crônicas 15 e 1 Crônicas 25. O texto sugere seu uso para marcar ou intensificar a execução coletiva. Já termos traduzidos como “chocalhos”, “sinos” ou “castanholas” dependem fortemente da versão bíblica e, em vários casos, não permitem uma identificação segura.

Lista dos principais instrumentos e suas passagens

A tabela abaixo reúne os instrumentos mais citados. As equivalências em português devem ser lidas com cautela: elas são aproximações feitas pelos tradutores, não etiquetas definitivas para objetos arqueológicos idênticos aos modernos.

Instrumento em português Termo bíblico associado Passagens de exemplo Uso ou contexto registrado
Harpa ou lira Kinnor Gênesis 4; 1 Samuel 16; Salmo 33 Música, celebração e serviço real
Saltério, harpa ou lira Nevel 1 Samuel 10; Salmo 150; 1 Crônicas 25 Procissões, profecia e culto
Tamborim ou adufe Tof Êxodo 15; Juízes 11; Salmo 150 Dança, vitória e festividade
Címbalos Metsiltayim 2 Samuel 6; 1 Crônicas 15; Salmo 150 Execução coletiva e serviço levítico
Chifre ou shofar Shofar Josué 6; Levítico 25; Joel 2 Alerta, convocação e cerimônias
Trombeta Hatsotserah Números 10; 2 Crônicas 5 Convocação e culto no templo
Flauta Halil 1 Samuel 10; Isaías 30; Mateus 9 Festas, procissões e lamentos
Órgão, em versões antigas Ugav Gênesis 4; Jó 21; Salmo 150 Instrumento de sopro; modelo exato incerto

O caso de Davi: ele tocava harpa?

A associação entre Davi e a harpa vem principalmente de 1 Samuel 16. O capítulo afirma que Davi tocava para Saul quando este era atormentado, trazendo-lhe alívio temporário. O termo hebraico empregado é kinnor. Por isso, dizer que Davi tocava um instrumento de cordas é diretamente apoiado pelo texto bíblico.

Chamá-lo de “harpa”, porém, envolve uma decisão de tradução. Muitas versões usam “harpa”; outras preferem “lira”. A lira, em sentido histórico, costuma ter uma caixa de ressonância e braços laterais unidos por uma barra transversal, enquanto a harpa possui cordas em uma moldura triangular ou arqueada. Não há descrição bíblica suficiente para afirmar, sem ressalvas, qual formato Davi segurava.

Também é importante distinguir narrativa bíblica e tradição posterior. A Bíblia apresenta Davi como músico em episódios específicos e associa seu nome a numerosos salmos por meio dos títulos tradicionais. Mas a autoria individual de todos os salmos atribuídos a ele é debatida nos estudos bíblicos. Portanto, a imagem popular de Davi como compositor de todo o Saltério é uma simplificação posterior, não uma afirmação explícita do texto.

Instrumentos no templo, em festas e no cotidiano

As passagens bíblicas não colocam todos os instrumentos no mesmo ambiente. Alguns aparecem sobretudo em cerimônias organizadas; outros estão ligados a festividades populares, danças ou ritos de luto. Essa diferença evita a ideia de que toda música mencionada na Bíblia fosse executada dentro do templo.

No serviço do templo

1 Crônicas 15 relata que Davi ordena aos líderes dos levitas que estabeleçam cantores com instrumentos musicais, “liras, harpas e címbalos”. Em 1 Crônicas 25, famílias levíticas são separadas para o ministério de música. Os textos cronísticos apresentam uma organização detalhada, com Asafe, Hemã e Jedutum entre os nomes destacados.

Há, entretanto, uma questão histórica importante. Crônicas foi redigido ou recebeu sua forma final muito depois dos acontecimentos atribuídos a Davi e Salomão, provavelmente no período pós-exílico. O texto bíblico registra essa organização como parte de sua narrativa sobre o culto; historiadores discutem em que medida ele descreve práticas do período monárquico inicial ou projeta estruturas litúrgicas posteriores sobre esse passado. A disputa existe, e não há consenso total.

Em celebrações e vitórias

Tamborins, danças e cânticos aparecem com frequência após livramentos militares. Êxodo 15 associa Miriã e as mulheres ao tamborim depois da travessia do mar. Em Juízes 11, a filha de Jefté sai ao encontro do pai com tamborins e danças. Em 1 Samuel 18, mulheres celebram o retorno de Saul e Davi com cânticos, danças e instrumentos de três cordas, segundo algumas traduções.

Essas cenas mostram que a música bíblica não era exclusivamente sacerdotal ou masculina. Mulheres são explicitamente retratadas tocando tamborins em celebrações. Isso não resolve, por si só, questões posteriores sobre funções formais no culto, pois cada passagem descreve um contexto próprio.

Em lamentos e ocasiões sociais

A presença de flautistas em Mateus 9 indica costumes funerários judaicos do século 1. Quando Jesus chega à casa da menina, encontra músicos e uma multidão em agitação. O texto não detalha o repertório nem a quantidade de instrumentos, mas mostra que a música podia integrar ritos de luto.

Por outro lado, os profetas também criticam festas em que a música se torna sinal de indiferença social. Amós 6 menciona harpas, vinho e banquetes em um oráculo contra a complacência dos privilegiados. A crítica não é uma lista de instrumentos proibidos; seu alvo é a vida de luxo ignorando a ruína de José, isto é, a aflição do povo.

Por que os nomes variam tanto entre as traduções?

Quem compara versões em português encontra “harpa”, “lira”, “saltério”, “cítara”, “flauta”, “gaita”, “órgão”, “adufe” e “tamborim”. Essas diferenças não significam necessariamente que uma Bíblia tenha acrescentado instrumentos. Em geral, elas refletem dificuldades reais de tradução.

  • Os termos antigos são breves: muitas palavras aparecem poucas vezes e sem descrição física detalhada.
  • Os objetos não sobreviveram em grande número: madeira, couro e fibras se deterioram, limitando a comparação arqueológica.
  • As traduções antigas influenciaram versões posteriores: a Septuaginta grega e a Vulgata latina ajudaram a consolidar equivalências que nem sempre são exatas.
  • Alguns nomes modernos induzem erro: “órgão”, em Gênesis 4 e Salmo 150 em versões tradicionais, não se refere ao órgão de tubos usado em igrejas de épocas posteriores.

O exemplo de “órgão” é especialmente esclarecedor. O hebraico ugav é associado a um instrumento de sopro, possivelmente uma flauta ou conjunto de tubos. A Bíblia não descreve um órgão com teclado, fole e tubos como os conhecidos na música europeia. Essa identificação moderna seria anacrônica.

Também há divergência em Daniel 3, que traz uma lista de instrumentos da corte babilônica. Ali surgem termos de provável origem estrangeira, como sambuca e sinfonia em algumas traduções antigas. “Sinfonia”, nesse contexto, não significa uma composição orquestral moderna; é a transliteração histórica de uma palavra cujo referente exato é discutido.

O que não se pode afirmar com certeza

Há limites claros para qualquer lista dos instrumentos musicais da Bíblia. O texto permite reconhecer famílias sonoras e contextos de uso, mas não fornece partituras, afinações, técnicas de execução ou descrições completas de todos os objetos. Não sabemos com certeza como soava a música de Davi, quais escalas eram usadas no templo nem como cada salmo era acompanhado.

Também não é possível afirmar que os instrumentos mencionados em Salmo 150 tenham sido usados todos juntos, em toda ocasião ou em todos os períodos da história de Israel. O salmo é uma convocação poética, e sua lista não funciona como regulamento litúrgico detalhado.

Outra ideia comum, mas imprecisa, é a de que a Bíblia apresenta uma única regra musical uniforme. As narrativas cobrem muitos séculos, diferentes regiões, situações sociais e gêneros literários. O que elas registram é uma presença ampla da música na vida israelita e judaica, não um manual técnico completo.

Perguntas frequentes

Quantos instrumentos musicais são citados na Bíblia?

Não existe um número único consensual. A contagem varia porque alguns termos podem designar o mesmo tipo de instrumento, outros têm tradução incerta e listas como a de Daniel 3 usam nomes difíceis de identificar. É mais seguro falar em diversas dezenas de referências e em várias categorias de corda, sopro e percussão.

O shofar e a trombeta são o mesmo instrumento?

Não necessariamente. O shofar é normalmente entendido como um chifre, enquanto as trombetas de Números 10 são descritas como feitas de prata. Muitas traduções usam “trombeta” para ambos, mas os termos hebraicos e os contextos sugerem instrumentos distintos.

O Salmo 150 menciona quais instrumentos?

O Salmo 150 cita trombeta, saltério, harpa, adufe ou tamborim, instrumentos de cordas, flautas e címbalos. Algumas versões ainda distinguem “címbalos sonoros” e “címbalos retumbantes”. As palavras variam conforme a tradução adotada.

Havia violão, piano ou bateria na Bíblia?

Não. Violão, piano e bateria são instrumentos desenvolvidos em períodos muito posteriores aos textos bíblicos. Instrumentos de corda como liras e harpas podem lembrar superficialmente o violão por terem cordas, mas pertencem a estruturas e tradições históricas diferentes.

Resumo

  • A Bíblia menciona instrumentos de corda, sopro e percussão em contextos religiosos, sociais, militares e fúnebres.
  • Harpa ou lira, saltério, tamborim, címbalos, shofar, trombetas e flautas estão entre os nomes mais recorrentes.
  • Davi é apresentado em 1 Samuel 16 tocando o kinnor, traduzido como harpa ou lira; o formato exato não é conhecido.
  • O shofar, feito de chifre, deve ser distinguido das trombetas de prata mencionadas em Números 10.
  • Variações entre Bíblias decorrem das dificuldades de traduzir e identificar instrumentos antigos.
  • O texto bíblico registra usos e nomes, mas não permite reconstruir com certeza a sonoridade, a afinação ou a forma de todos os instrumentos.

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