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A mulher sunamita: duas personagens bíblicas ligadas a Suném

Quem foi a mulher sunamita na Bíblia? Entenda as duas mulheres de Suném, suas histórias em 2 Reis e Cântico dos Cânticos.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 11 min de leitura
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Quem foi a mulher sunamita na Bíblia? A expressão pode indicar duas personagens diferentes: a mulher rica de Suném que acolheu o profeta Eliseu em 2 Reis 4 e 8, e a “sulamita” do Cântico dos Cânticos, cuja identificação com Suném é tradicional, mas discutida. A primeira tem uma narrativa histórica mais detalhada; a segunda pertence à poesia amorosa.

Por que há mais de uma mulher chamada sunamita?

O termo “sunamita” é um gentílico: designa uma mulher de Suném, localidade situada na região de Issacar, na planície de Jezreel, ao norte do antigo Israel. A cidade é citada em textos narrativos, entre eles Josué 19,18, que a inclui no território de Issacar, e 1 Samuel 28,4, que a localiza no contexto militar anterior à morte de Saul.

Na Bíblia, ao menos duas mulheres são associadas a esse nome ou título. A primeira é chamada de “mulher importante” ou “mulher rica”, conforme a tradução, em 2 Reis 4. Ela recebe Eliseu em sua casa e se torna personagem de dois episódios. A segunda aparece no Cântico dos Cânticos como “sulamita” ou “sunamita”, dependendo da tradução de Cântico 6.13. Embora muitos leitores relacionem os dois termos, a equivalência não é totalmente segura no campo linguístico.

Portanto, a pergunta exige uma distinção importante: o texto de 2 Reis fala claramente de uma mulher de Suném; já o Cântico menciona uma sulamita, e a ligação direta dessa figura com a cidade de Suném é uma interpretação tradicional, não um dado explicitamente afirmado pelo poema.

A mulher de Suném em 2 Reis 4

O relato principal está em 2 Reis 4,8-37. Eliseu passava por Suném em suas viagens, e uma mulher descrita como “importante” insistiu para que ele comesse em sua casa. A expressão hebraica pode indicar posição social, recursos ou influência. Por isso, várias versões bíblicas traduzem a personagem como “mulher rica”, enquanto outras preferem “mulher importante” ou “mulher distinta”.

Com o tempo, ela e o marido providenciaram um quarto simples no terraço para Eliseu: uma cama, uma mesa, uma cadeira e um candeeiro. O detalhe, registrado em 2 Reis 4,10, mostra que a hospitalidade oferecida não foi momentânea. Era uma acomodação permanente para as passagens do profeta pela região.

Eliseu quis retribuir o gesto. Por meio de Geazi, seu servo, perguntou se ela desejava alguma intervenção junto ao rei ou ao comandante do exército. A mulher respondeu: “Eu habito no meio do meu povo” (2 Reis 4,13). A frase costuma ser entendida como indicação de que ela não buscava favores oficiais, pois tinha estabilidade em sua comunidade. Contudo, o texto não explica em detalhes sua intenção; essa leitura é plausível, mas interpretativa.

Geazi observou que ela não tinha filhos e que seu marido era idoso. Eliseu então anunciou que, no ano seguinte, ela teria um filho (2 Reis 4,14-17). A reação da mulher é marcante: ela pede que o profeta não a engane. O episódio não oferece informações sobre sua história anterior nem declara que ela fosse estéril; apenas informa que não possuía filho e que o marido era velho.

A morte e o retorno do filho à vida

Anos depois, o menino saiu para o campo onde seu pai trabalhava com os ceifeiros e passou mal, dizendo que sentia dor na cabeça. Ele foi levado à mãe e morreu em seu colo ao meio-dia (2 Reis 4,18-20). A mulher o colocou no quarto de Eliseu, fechou a porta e partiu em busca do profeta no monte Carmelo.

Quando Geazi perguntou se estava tudo bem com ela, com o marido e com a criança, ela respondeu: “Tudo bem” (2 Reis 4,26). O texto registra essas palavras, mas não explica por que ela respondeu assim. Alguns intérpretes entendem a frase como fé ou confiança; outros observam que ela pode simplesmente ter evitado explicar a situação ao servo, pois queria falar diretamente com Eliseu. A narrativa não resolve essa questão.

Ao encontrar Eliseu, ela se apega aos pés dele e recorda que não havia pedido um filho nem queria receber uma esperança falsa (2 Reis 4,27-28). Eliseu primeiro enviou Geazi com seu cajado, mas o menino não reagiu. Depois, o próprio profeta entrou no quarto, orou ao Senhor e se deitou sobre a criança. O menino espirrou sete vezes e abriu os olhos (2 Reis 4,32-35). Eliseu então chamou a mãe e lhe devolveu o filho vivo.

“Toma o teu filho. Então ela entrou, e se prostrou aos pés dele, e se inclinou até à terra; e tomou o seu filho, e saiu.” (2 Reis 4,36-37)

O texto atribui a ação decisiva ao Senhor, pois Eliseu ora antes do desfecho. O relato não apresenta a mulher como profetisa nem lhe dá um nome próprio. Ela é identificada por sua origem e por sua posição no enredo.

O reencontro com Eliseu em 2 Reis 8

A mesma mulher reaparece em 2 Reis 8,1-6. Nesse capítulo, Eliseu avisa que haveria uma fome de sete anos na terra e orienta a mulher a sair com sua família para viver onde pudesse. Ela segue a instrução e reside durante sete anos na terra dos filisteus.

Ao voltar, procura o rei para recuperar sua casa e suas terras. No momento em que Geazi contava ao rei a história de como Eliseu havia restaurado à vida o filho daquela mulher, ela chega para apresentar sua causa. Geazi a identifica diante do rei, e o rei designa um oficial para assegurar que ela recebesse de volta tudo o que lhe pertencia, inclusive os rendimentos de suas terras durante o período de ausência (2 Reis 8,5-6).

Há uma questão cronológica debatida nesse trecho. Geazi havia sido atingido por lepra ou uma enfermidade de pele em 2 Reis 5,27. Por isso, alguns leitores perguntam como ele poderia estar diante do rei em 2 Reis 8. Uma explicação é que os relatos de 2 Reis não estejam dispostos em sequência estritamente cronológica, e que a cena de 2 Reis 8 se refira a um período anterior ao episódio de 2 Reis 5. Outra possibilidade levantada por intérpretes é que Geazi estivesse a certa distância ou que sua condição tivesse outro enquadramento social. O texto bíblico, porém, não esclarece a questão, e não há consenso definitivo.

Dados bíblicos sobre as duas figuras associadas ao termo

FiguraPassagem principalComo é designadaO que o texto afirmaPonto debatido
Mulher de Suném2 Reis 4,8-37; 2 Reis 8,1-6“Mulher importante” ou “rica”; mulher de SunémAcolheu Eliseu, teve um filho, viu o menino voltar à vida e recuperou seus bens.Seu nome, sua idade e o motivo exato de “tudo bem” não são informados.
Sulamita do CânticoCântico dos Cânticos 6,13“Sulamita” em muitas traduçõesÉ chamada para voltar no contexto de um poema amoroso.Se “sulamita” significa mulher de Suném e se é a mesma pessoa de 2 Reis.
Abisague, a sunamita1 Reis 1,1-4; 1 Reis 2,17-25“Abisague, a sunamita”Jovem de Suném que serviu ao rei Davi em sua velhice.Não deve ser confundida com a anfitriã de Eliseu nem com a sulamita do Cântico.

A tabela também evidencia uma terceira personagem: Abisague, a sunamita. Ela é explicitamente identificada como natural de Suném em 1 Reis 1,3. Embora a pergunta geralmente se refira à mulher de 2 Reis, Abisague mostra que “sunamita” não era um nome individual, mas uma designação de origem geográfica.

A sulamita de Cântico dos Cânticos é a mesma mulher?

Em Cântico dos Cânticos 6,13, lê-se em muitas traduções: “Volta, volta, ó sulamita”. Algumas versões usam “sunamita”, enquanto outras mantêm “sulamita”. Essa variação decorre da dificuldade de determinar precisamente o sentido e a origem do termo hebraico Shulammith.

Uma leitura tradicional entende “sulamita” como forma feminina relacionada a Suném. Segundo essa hipótese, mudanças fonéticas ou dialetais explicariam a aproximação entre os termos. Com base nisso, algumas interpretações populares identificaram a jovem do Cântico com a mulher de 2 Reis 4. Essa associação, porém, enfrenta problemas importantes: os dois livros pertencem a gêneros literários diferentes, não compartilham personagens nomeados nem fazem referência mútua, e os contextos das figuras são bastante distintos.

Outra leitura associa “sulamita” a “Salomão”, sugerindo uma forma feminina ligada ao nome do rei, que é central no poema. Há ainda quem relacione o termo à ideia de paz, por sua proximidade com a raiz hebraica de shalom. Nenhuma dessas propostas é unanimemente aceita.

Assim, é necessário ser preciso: não há base textual suficiente para afirmar que a sulamita do Cântico seja a mesma mulher que hospedou Eliseu. A Bíblia não fornece nome para a mulher de 2 Reis, nem apresenta uma conexão explícita entre ela e Cântico dos Cânticos 6.13. A identificação é uma tradição interpretativa possível, não uma conclusão demonstrável pelo texto.

O que a narrativa revela no seu contexto literário?

Em 2 Reis 4, a história da mulher de Suném faz parte de uma série de relatos sobre Eliseu. O capítulo começa com a ajuda à viúva endividada (2 Reis 4,1-7), segue com a mulher de Suném (2 Reis 4,8-37), narra a purificação de uma panela de alimento durante uma fome (2 Reis 4,38-41) e termina com a multiplicação de pães para cem homens (2 Reis 4,42-44).

Nesse conjunto, o profeta aparece em cenários domésticos e comunitários: uma casa endividada, uma família sem filhos, uma comunidade de profetas em tempos de escassez e um grupo que precisa de alimento. A mulher de Suném se destaca porque possui recursos, diferentemente da viúva do começo do capítulo. Ainda assim, ela enfrenta uma limitação familiar que o dinheiro não resolve: a ausência de descendência.

O relato também estabelece paralelos literários com episódios ligados a Elias, mestre e antecessor de Eliseu. Elias acolhe a viúva de Sarepta e seu filho volta à vida em 1 Reis 17,8-24. Eliseu, por sua vez, é acolhido pela mulher de Suném, e seu filho é restaurado em 2 Reis 4. Os dois textos não são idênticos, mas a semelhança é evidente e reforça, no enredo de Reis, a continuidade entre os ministérios dos dois profetas.

É importante separar observação de interpretação. O texto registra hospitalidade, promessa de um filho, morte, oração e retorno à vida. Leitores judeus e cristãos, ao longo dos séculos, extraíram desse relato temas como generosidade, perseverança e confiança. Esses temas podem ser coerentes com a narrativa, mas são aplicações e leituras posteriores; não substituem aquilo que o texto efetivamente diz.

O nome da mulher e outros detalhes que a Bíblia não informa

Apesar da riqueza do relato, várias informações frequentemente procuradas pelos leitores não aparecem na Bíblia. A mulher de Suném não recebe nome em 2 Reis 4 ou 2 Reis 8. Seu marido também não é nomeado. Não se informa a idade dela, o nome do filho, a localização exata de sua propriedade nem o que ocorreu com a família depois da restituição das terras.

Algumas tradições posteriores, comentários religiosos e produções artísticas tentaram preencher essas lacunas. Tais reconstruções podem ter interesse histórico ou devocional, mas não devem ser apresentadas como dados bíblicos. O mesmo vale para tentativas de transformar a personagem em esposa de algum homem conhecido ou de atribuir-lhe relações familiares não mencionadas nas passagens.

Também não se pode afirmar que ela tenha sido a única mulher de Suném mencionada na Bíblia. Como mostra Abisague em 1 Reis 1,3, mais de uma personagem pode carregar esse gentílico. O modo mais seguro de identificá-la é dizer: a mulher sunamita ou mulher de Suném de 2 Reis é a anfitriã de Eliseu, mãe do menino restaurado à vida e proprietária que depois recuperou seus bens.

Perguntas frequentes

A mulher sunamita tinha nome?

Não. Em 2 Reis 4 e 2 Reis 8, ela não é chamada por um nome próprio. O texto a identifica por sua cidade, Suném, e por sua condição social, traduzida como mulher importante, distinta ou rica.

A mulher sunamita e Abisague eram a mesma pessoa?

Não há indicação de que fossem a mesma pessoa. Abisague é apresentada como jovem em 1 Reis 1,3, no fim do reinado de Davi. A mulher de 2 Reis 4 é casada, possui uma casa e um marido idoso. Ambas são chamadas de sunamitas por serem de Suném.

A sulamita de Cântico dos Cânticos era a mulher que hospedou Eliseu?

Não é possível afirmar isso. A associação entre “sulamita” e “sunamita” é defendida por parte da tradição, mas o Cântico dos Cânticos não cita Eliseu, nem 2 Reis cita a sulamita. A identidade entre as duas personagens permanece hipotética.

Quantos anos durou a fome mencionada em 2 Reis 8?

O texto informa que a fome duraria sete anos (2 Reis 8,1). A mulher de Suném viveu entre os filisteus durante esse período e voltou depois para reivindicar sua casa e suas terras.

Resumo

  • A mulher de Suném aparece principalmente em 2 Reis 4 e 2 Reis 8 como anfitriã do profeta Eliseu.
  • Ela é descrita como uma mulher importante ou rica, mas seu nome não é informado.
  • O texto relata o nascimento de seu filho, sua morte e seu retorno à vida após a oração de Eliseu.
  • Mais tarde, ela deixa sua terra por sete anos de fome e recupera seus bens ao retornar.
  • Abisague também é chamada de sunamita, em 1 Reis 1, pois vinha de Suném.
  • A identificação da sulamita de Cântico 6,13 com a mulher de 2 Reis é tradicional e discutida, não uma afirmação explícita da Bíblia.

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