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Quem foi o bom ladrão na Bíblia e o que os Evangelhos relatam

Quem foi o bom ladrão na Bíblia? Veja o que Lucas registra sobre o criminoso crucificado com Jesus e as tradições sobre sua identidade.

Por Stéfano Barcellos, Formado em Direito | | 10 min de leitura
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Quem foi o bom ladrão na Bíblia? O texto bíblico não informa seu nome nem sua história anterior, mas Lucas 23 apresenta um criminoso crucificado ao lado de Jesus que reconhece a inocência dele e recebe a promessa de estar com ele no paraíso.

O que a Bíblia efetivamente registra

A expressão “bom ladrão” é tradicional, mas não aparece como título nos Evangelhos. Os relatos canônicos falam de dois homens executados junto com Jesus. Mateus 27 e Marcos 15 os chamam de lestai, termo grego normalmente traduzido como “ladrões”, “salteadores” ou “criminosos”. Lucas 23 usa uma palavra mais ampla, frequentemente traduzida por “malfeitores” ou “criminosos”. João 19 apenas informa que Jesus foi crucificado entre dois outros homens.

O episódio que deu origem à designação popular está em Lucas 23. Inicialmente, enquanto Jesus era ridicularizado por autoridades e soldados, um dos condenados o desafia: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também.” O outro o repreende, dizendo que ambos recebiam uma condenação justa, ao passo que Jesus não havia cometido mal algum. Em seguida, dirige a Jesus um pedido memorável:

“Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino.” Jesus lhe respondeu: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.”

Essa é a informação central: um dos executados ao lado de Jesus admite sua própria culpa, declara a inocência de Jesus e pede que seja lembrado em seu reino. Lucas não relata o crime específico desse homem, sua cidade de origem, sua idade, sua família ou qualquer acontecimento depois de sua morte. Portanto, dados biográficos mais detalhados não podem ser afirmados como informação bíblica.

Os dois criminosos nos quatro Evangelhos

Os Evangelhos concordam que Jesus foi crucificado entre dois condenados, fato que também se relaciona à imagem de Jesus contado “com os transgressores”, associada em Lucas 22 a Isaías 53. Contudo, os relatos destacam aspectos diferentes da cena. Mateus e Marcos resumem a hostilidade dos dois homens; Lucas preserva o diálogo em que um deles defende Jesus; João concentra-se em outros elementos da crucificação.

EvangelhoPassagemComo descreve os homensO que registra sobre eles
MateusMateus 27“Ladrões” ou criminosos, conforme a traduçãoDois foram crucificados, um à direita e outro à esquerda; o texto diz que o insultavam.
MarcosMarcos 15“Ladrões” ou salteadoresDois foram crucificados com Jesus; ambos são incluídos entre os que zombavam dele.
LucasLucas 23“Malfeitores” ou criminososUm insulta Jesus; o outro o repreende, reconhece a inocência de Jesus e ouve a promessa do paraíso.
JoãoJoão 19Dois outros homensInforma a posição de Jesus entre eles, sem transcrever falas dos condenados.

À primeira vista, Mateus 27 e Marcos 15 parecem contrariar Lucas 23, pois dizem que “os ladrões” insultavam Jesus, enquanto Lucas distingue claramente a atitude de um deles. Há algumas leituras tradicionais para essa diferença. Uma entende que Mateus e Marcos resumem a reação inicial dos dois condenados, e que um deles mudou de atitude mais tarde, como Lucas registra. Outra considera que os dois primeiros Evangelhos usam uma generalização narrativa, atribuindo ao grupo aquilo dito por um de seus membros. Há também estudiosos que veem tradições narrativas distintas, sem tentar harmonizá-las em todos os detalhes.

O texto não explica qual dessas possibilidades é correta. O dado seguro é que Lucas apresenta um condenado com uma resposta diferente da do outro, e é a partir desse retrato que a tradição o chamou de “bom ladrão”. A expressão “bom”, nesse contexto, não significa que ele fosse inocente ou moralmente irrepreensível; o próprio personagem declara que sua pena era merecida. O qualificativo distingue sua postura final da de seu companheiro e ressalta seu reconhecimento de Jesus.

Ele era realmente um ladrão?

Em português, “bom ladrão” tornou-se a forma mais conhecida, mas ela pode dar uma impressão estreita sobre sua acusação. O vocabulário dos Evangelhos não permite determinar, com segurança, que ele tenha sido condenado por furto comum. Em Mateus 27 e Marcos 15, o termo grego lestes pode indicar ladrão, salteador, bandido ou participante de violência organizada. O mesmo termo é empregado para Barrabás em João 18, e os outros Evangelhos associam Barrabás a revolta e homicídio, em Marcos 15 e Lucas 23.

Já Lucas 23 chama os homens de kakourgoi, palavra geral para malfeitores. Nenhum Evangelho identifica o delito de cada um. Por isso, dizer que o homem era “ladrão” reproduz uma tradição de tradução consolidada, mas afirmar que ele roubava em estradas, que era um revolucionário ou que pertencia a um grupo político específico vai além das fontes canônicas.

O cenário histórico, porém, é relevante. A crucificação romana era uma pena pública e particularmente cruel, empregada sobretudo contra escravizados, rebeldes, pessoas sem cidadania romana e acusados de ameaçar a ordem imperial. A presença de outros condenados ao lado de Jesus mostra que a execução ocorreu no contexto da punição romana. Ainda assim, o motivo jurídico exato da condenação daquele homem permanece desconhecido.

O que significa o pedido feito a Jesus

Em Lucas 23, o segundo condenado começa com uma repreensão: ele reconhece que os dois estavam sob a mesma sentença e que, segundo sua própria avaliação, recebiam o que seus atos mereciam. Depois afirma: “este não fez mal algum”. Essa frase se conecta ao tema lucano da inocência de Jesus. Antes disso, Pilatos declara não encontrar culpa nele em Lucas 23, Herodes não o condena e o centurião, após a morte de Jesus, também o descreve como justo em Lucas 23.

O pedido “lembra-te de mim quando vieres no teu reino” é interpretado de maneiras variadas. Muitos leitores entendem que o homem reconhece Jesus como rei messiânico e espera uma intervenção futura de seu reino. Outros observam que a formulação é breve e não oferece uma definição completa de suas crenças; ela expressa, de todo modo, confiança na autoridade futura de Jesus em meio à execução.

A resposta de Jesus introduz a palavra “paraíso”. No uso bíblico e judaico antigo, o termo pode evocar um jardim, o Éden restaurado ou uma condição de comunhão e descanso na presença de Deus. Em 2 Coríntios 12, Paulo usa “paraíso” em linguagem associada à experiência do “terceiro céu”; Apocalipse 2 fala da árvore da vida no paraíso de Deus. Lucas 23 não explica o conceito em detalhes, mas sua ênfase é inequívoca: Jesus promete companhia — “comigo” — e uma realização marcada pela palavra “hoje”.

A discussão sobre a pontuação de Lucas 23

Há uma controvérsia conhecida sobre a pontuação da frase: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso.” Nos manuscritos gregos antigos, a pontuação não era fixada como nas edições modernas. Por isso, algumas tradições propõem ler: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso”, deslocando o sentido temporal para o ato de falar, e não para a entrada no paraíso.

A grande maioria das traduções e dos intérpretes coloca a pausa antes de “hoje”, entendendo que a promessa se refere àquele mesmo dia. Essa leitura acompanha o uso comum da fórmula “em verdade te digo” nos Evangelhos, em que “hoje” normalmente inicia a declaração seguinte. A leitura alternativa existe e está ligada, entre outros fatores, a diferentes compreensões sobre o estado dos mortos e a cronologia da ressurreição. O texto grego permite a discussão por não conter a pontuação moderna, mas o debate não altera os elementos explícitos: Jesus responde favoravelmente ao condenado e vincula seu futuro ao paraíso e à sua própria presença.

O nome Dimas: Bíblia ou tradição posterior?

A Bíblia não diz que o bom ladrão se chamava Dimas. O nome mais popular no cristianismo ocidental é Dimas, também grafado Dismas. Ele deriva de tradições posteriores e de textos apócrifos, isto é, obras antigas que não fazem parte do cânon bíblico para a maior parte das tradições cristãs.

Um texto conhecido como Atos de Pilatos, frequentemente relacionado ao Evangelho de Nicodemos, atribui ao homem favorável a Jesus o nome Dimas e ao outro o nome Gestas. Essas obras circularam em versões e períodos diversos, e seu conteúdo amplia dramaticamente as narrativas dos Evangelhos. Elas não são fontes contemporâneas à crucificação e não oferecem confirmação histórica independente para os nomes.

Outras tradições orientais empregam nomes diferentes. Em alguns contextos, aparecem Tito e Dumaco; em outros, variantes dos nomes preservados no Ocidente. Essa diversidade é um sinal importante: não há uma memória histórica única, verificável e compartilhada sobre a identidade civil dos dois condenados. Assim, “Dimas” pode ser mencionado como nome tradicional, mas não como dado fornecido pelo Novo Testamento.

  • Texto canônico: não informa nome, origem ou crime específico.
  • Tradição ocidental posterior: chama o homem favorável a Jesus de Dimas ou Dismas.
  • Outras tradições: apresentam nomes alternativos e narrativas adicionais.
  • Conclusão histórica: não é possível comprovar o nome do bom ladrão a partir da Bíblia.

Por que Lucas destaca esse personagem

O breve diálogo tem peso literário e teológico dentro de Lucas. O Evangelho frequentemente mostra pessoas marginalizadas ou socialmente desacreditadas respondendo a Jesus de modo positivo: publicanos, mulheres, estrangeiros, pobres e pessoas consideradas pecadoras aparecem como destinatários de atenção narrativa. O condenado na cruz se encaixa nesse padrão, mas sua situação é extrema: ele não pode reparar publicamente sua vida anterior nem realizar qualquer ação posterior no relato.

Também há um contraste com outras personagens. Muitos observadores da crucificação veem Jesus sofrer; autoridades o desafiam a salvar a si mesmo; um dos criminosos repete a provocação. O outro, porém, não pede uma demonstração espetacular de poder. Ele admite sua condição, afirma a inocência de Jesus e faz um pedido referente ao reino. Lucas coloca essas falas pouco antes da morte de Jesus, o que dá à cena uma função de síntese do retrato lucano de Jesus como inocente e rei.

É importante distinguir essa análise literária de conclusões doutrinárias específicas. Diferentes tradições cristãs usam o episódio em debates sobre fé, obras, perdão, sacramentos, vida após a morte e segurança da salvação. Esses debates são posteriores ao texto e nem sempre chegam às mesmas conclusões. Lucas 23 registra uma conversa e uma promessa; ele não oferece, nesse trecho, uma explicação sistemática de todos esses temas.

Perguntas frequentes

Qual era o nome do bom ladrão?

O Novo Testamento não informa seu nome. Dimas, ou Dismas, é o nome atribuído por tradições cristãs posteriores, não pelos Evangelhos canônicos. Outras tradições preservam nomes diferentes, o que impede uma identificação histórica segura.

O bom ladrão foi salvo?

Lucas 23 registra que Jesus lhe disse: “hoje estarás comigo no paraíso”. Muitas interpretações cristãs entendem isso como uma promessa de salvação. O Evangelho, porém, não desenvolve uma teoria detalhada sobre o destino final do homem além dessa declaração.

Por que Mateus e Marcos dizem que os dois insultavam Jesus?

Mateus 27 e Marcos 15 resumem os dois condenados como participantes das zombarias, enquanto Lucas 23 narra a defesa de Jesus feita por um deles. As principais explicações são uma mudança de atitude durante a crucificação, uma generalização narrativa ou a preservação de tradições diferentes. O texto não resolve expressamente a divergência.

O bom ladrão aparece em algum outro momento da Bíblia?

Não. A narrativa identificável está em Lucas 23. Mateus 27, Marcos 15 e João 19 mencionam os dois homens crucificados com Jesus, mas não fornecem uma identidade individual para aquele que falou com ele.

Resumo

  • O “bom ladrão” é o criminoso de Lucas 23 que reconhece a inocência de Jesus e pede para ser lembrado em seu reino.
  • A Bíblia não revela seu nome, seu crime preciso, sua origem nem detalhes de sua vida antes da crucificação.
  • Dimas ou Dismas é um nome de tradição posterior, presente em escritos apócrifos e na devoção popular, não nos Evangelhos.
  • Mateus 27 e Marcos 15 descrevem ambos os condenados zombando de Jesus, enquanto Lucas 23 diferencia um deles; há mais de uma explicação interpretativa para isso.
  • A promessa de Jesus sobre o paraíso é o elemento decisivo do relato, embora a pontuação de Lucas 23 seja discutida por algumas tradições.

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